Pesquisas indicam que derramamentos podem atingir áreas costeiras do Amapá e de países vizinhos e recomendam ampliar os estudos antes de novos licenciamentos e leilões de blocos
Dois estudos científicos publicados recentemente reforçam os alertas sobre os riscos ambientais associados à exploração de petróleo na Foz do Amazonas. As pesquisas indicam que um eventual vazamento de óleo pode atingir áreas costeiras do Amapá, da Guiana Francesa, do Suriname e da Guiana, além de unidades de conservação e da própria foz do rio Amazonas, e defendem a realização de mais estudos antes da concessão de novas licenças ambientais e da oferta de novos blocos para exploração. O assunto foi publicado no boletim diário do Climainfo.
Os trabalhos foram divulgados enquanto a Petrobras se prepara para concluir, no início de agosto, a perfuração do poço Morpho, no bloco FZA-M-59. Recentemente, um relatório apresentado pela estatal ao Ibama e revelado pela DW apontou que um vazamento na área poderia alcançar a costa do Amapá.
O primeiro estudo, publicado na revista Continental Shelf Research por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), utilizou o modelo computacional MEDSLIK-II para simular o comportamento de derramamentos de petróleo em diferentes pontos da bacia ao longo de 2023.
Os pesquisadores realizaram 48 simulações mensais em quatro locais da Foz do Amazonas. Embora os resultados confirmem, em linhas gerais, o comportamento sazonal descrito pela Petrobras, o estudo identificou um cenário não contemplado pela empresa: em março, um eventual vazamento poderia alcançar as costas do Suriname e da Guiana Francesa em apenas seis dias.
A pesquisa também analisou áreas vizinhas que atualmente estão disponíveis para futuras ofertas da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e que não fizeram parte dos estudos apresentados pela Petrobras. Nessas regiões, o óleo atingiu áreas costeiras em sete das 12 simulações anuais, alcançando ambientes considerados sensíveis, como o Parque Nacional do Cabo Orange, a Reserva Biológica do Lago Piratuba, a Ilha de Maracá e a própria Foz do Amazonas.
Segundo os autores, o período entre setembro e abril concentra o maior risco de contato do petróleo com a costa. Nessa época do ano, a Corrente Norte do Brasil perde intensidade, reduzindo o efeito que normalmente direciona o óleo para o mar aberto. Entre maio e setembro, nenhuma das simulações indicou contato costeiro.
Diante desses resultados, os pesquisadores recomendam aprofundar os estudos sobre o comportamento de diferentes tipos de petróleo na região, considerando também a variabilidade climática entre os anos, antes da emissão de novas licenças ambientais. O trabalho também sugere reavaliar a oferta permanente de blocos exploratórios na Foz do Amazonas até que os riscos sejam melhor compreendidos.
No fim de junho, a ANP indicou 36 áreas da bacia para possível inclusão em futuros leilões, sendo oito delas ofertadas pela primeira vez.
Simulações indicam risco persistente
O segundo estudo foi publicado no Journal of Marine Science and Engineering por pesquisadores da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Climatempo.
A pesquisa realizou 47.500 simulações probabilísticas de vazamentos em 95 poços da região utilizando um modelo que integra dados de correntes oceânicas, ventos e ondas e que foi validado com boias monitoradas por satélite.
Os resultados mostram que, entre janeiro e abril, quando a Zona de Convergência Intertropical favorece ventos em direção ao continente, a probabilidade de o petróleo alcançar trechos do litoral da Guiana Francesa e do Amapá supera 40% a 50%, com tempo estimado de deslocamento entre 10 e 20 dias.
Mesmo nos meses considerados menos críticos, entre julho e outubro, os pesquisadores afirmam que o risco não desaparece. Nesse período, embora a probabilidade de o petróleo atingir a costa diminua, permanece a possibilidade de intrusão na Foz do Amazonas.
Segundo o estudo, durante a estação de maior risco há cerca de 12,5% de probabilidade de o óleo entrar na foz do rio Amazonas e até 5% de atingir as baías de Marajó e São Marcos. Nos meses de menor risco, essa chance cai para cerca de 2%, mas continua presente.
Os autores também destacam que um eventual vazamento em águas brasileiras poderia atingir rapidamente territórios da Guiana Francesa, do Suriname e da Guiana. Por isso, defendem que mecanismos de cooperação internacional sejam estabelecidos antes de um eventual avanço da exploração petrolífera na região.
Fonte: Um Só Planeta



