Possibilidade de retorno financeiro associado ao cumprimento de metas ambientais tem atraído empresas como o Patria, Natura e Courageous Land
Os sistemas agroflorestais (chamados de SAF) não são uma novidade, mas ganharam destaque nos últimos anos e já atraem bilhões em investimento privado visando retorno financeiro de longo prazo associado a metas ambientais. Até então restritos a pequenas propriedades, os sistemas agroflorestais vêm ganhando escala, com projetos de milhares de hectares mantidos por grandes empresas, como Patria, Natura e Belterra.
“O que a gente chama de SAF sempre foi em pequena escala, impulsionado por ONG, voltado a pequenos agricultores. Nos últimos anos, isso ganha escala de negócio para valer, atraindo investimento, com empresas de milhares de hectares. Claramente houve uma mudança”, observa o diretor-presidente da Belterra, Valmir Ortega.
A empresa, uma das pioneiras do segmento, foi a primeira a obter crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para esse tipo de empreendimento. Ao todo, foram R$ 100 milhões via Fundo Clima que financiarão a implantação de 2,5 mil hectares de agroflorestas no Pará, Mato Grosso e Bahia.
“O mercado agroflorestal está saindo desse momento em que era tudo muito customizado, pequeno, para um processo de sistematização em larga escala. E isso está sendo muito rápido”, avalia Ortega.
Há várias razões para a mudança de percepção do mercado em relação às agroflorestas. Para o diretor de Florestas e Restauração Florestal do Imaflora, Leonardo Sobral, o principal motor é a agenda de restauração florestal do Brasil e seu compromisso de recuperar 70 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2050.
Segundo ele, o mercado de carbono, sozinho, não tem sido capaz de fechar a conta da restauração, abrindo espaço a arranjos que incluem espécies produtivas de curto e médio prazo.
“São modelos produtivos, mas também financeiros nos quais o cultivo de determinado produto agrícola entra já nos primeiros meses, começa a dar uma certa renda, enquanto o carbono só vai entrar a partir do terceiro ano”, ressalta.
Foi esse raciocínio que levou o Patria, uma das maiores gestoras do país, a criar um fundo de US$ 500 milhões, ou mais de R$ 2,5 bilhões, para investimento em sistemas agroflorestais até 2027.
Desse total, US$ 150 milhões já foram captados pelo Patria, com um primeiro empreendimento em Avaré (SP), focado na produção de abacate da variedade hass.
“Identificamos o avocado hass como uma cultura perene de alto valor, com um apelo crescente de consumo, ligado a hábitos de alimentação saudáveis e que combina muito bem no arranjo agroflorestal”, resume Pedro Faria, sócio-diretor do Patria.
Segundo ele, o projeto inclui também o plantio de café e cacau em áreas de pasto degradado.
“O fio condutor são culturas perenes, de alto valor agregado, que sejam commodities que o Brasil já tem uma vocação para produzir e com demanda internacional crescente”, afirma. A previsão é de que o fundo gere um retorno entre 12% e 14% ao ano em até 15 anos, reunindo investidores qualificados.
Do montante já investido pelo Patria, parte foi aportada pelo Fundo Vale. Ao todo, a instituição colocou cerca R$ 292 milhões em negócios agroflorestais entre 2020 e 2025 como estratégia para alcançar o seu compromisso de restaurar 500 mil hectares até 2030.
Segundo a gerente de estratégia, gestão e impacto do Fundo, Juliana Vilhena, o plantio de sistemas agroflorestais em escala permite “fazer uma transformação onde a terra vale mais recuperada do que desmatada”. “O que a gente percebe de 2020 para agora é que está cada vez mais possível implantar e escalar mais áreas, que há viabilidade financeira e que é um mercado muito promissor”, observa.
Outra empresa que obteve recurso do BNDES para o plantio de sistemas agroflorestais foi a Courageous Land, com 450 hectares implantados em São Paulo, Roraima e Bahia. O financiamento, de R$ 116 milhões, visa o plantio de dois mil hectares na Amazônia com foco em café consorciado com açaí, cacau e espécies madeireiras.
“Não diria que há escassez de dinheiro para financiar projetos dessa natureza, há escassez de habilidades e competências. Dinheiro foi um problema quando as agroflorestas não tinham uma reputação de sistemas seguros e eram vistas como coisa de pequena escala, de quintal. Hoje não falta dinheiro no mercado para financiar projetos com essa proposta”, afirma o cofundador da Corageous Land, Gilberto Terra.
Dentre as grandes empresas que partiram para o sistema agroflorestal está a Natura. A companhia anunciou neste ano que atingiu mil hectares plantados para a produção de dendê agroflorestal no Pará, resultado de um projeto iniciado em 2018 com 18 hectares.
“Tínhamos um incômodo muito grande conhecendo a palma e seu histórico de ter devastado as principais florestas do mundo. Daí surgiu uma inquietude de tentar trazer um modelo mais interessante”, recorda a diretora de Sustentabilidade da Natura, Angela Pinhati.
A empresa já investiu R$ 60 milhões no projeto desde 2021, com previsão de outros R$ 20 milhões nos próximos três anos e meio. A meta é alcançar dois mil hectares até 2030 e ter 100% do óleo de palma usado em seus processos oriundo de sistemas agroflorestais até 2040. O valor é destinado à implementação do sistema em áreas de parceiros que, em troca, assumem o compromisso de venda preferencial da produção do óleo de palma para a Natura.
Segundo Pinhati, o dendê em sistema agroflorestal tem apresentado rendimento 50% maior, comprovando a viabilidade financeira, além do ganho ambiental.
“Lembro que na época em que iniciamos o projeto havia fornecedor que nos chamava de loucos, mas acho que é preciso ter essa coragem de romper com o padrão e de pesquisar algo alternativo”, defende.
Fonte: Globo Rural
- Leia também: Lodo vira alternativa para a fertilização dos solos



