Todo sistema de osmose reversa ou nanofiltração produz, além da água purificada, uma fração residual concentrada — e é essa fração, não a membrana em si, que costuma decidir se um projeto de reúso é economicamente viável.
O Que É o Concentrado e Por Que Ele É Inevitável
Em qualquer processo de separação por membranas, a água de alimentação se divide em duas correntes: o permeado, que atravessa a membrana com baixa concentração de sais e contaminantes, e o concentrado (também chamado de rejeito ou salmoura), que retém tudo o que a membrana barrou. Não existe configuração de osmose reversa ou nanofiltração capaz de eliminar essa segunda corrente — ela é uma consequência física do próprio princípio de separação, não uma falha de projeto.
Em sistemas industriais bem dimensionados, a taxa de recuperação — a fração da água de alimentação convertida em permeado — costuma variar entre 55% e 80%, o que significa que entre 20% e 45% do volume tratado retorna como concentrado. Quanto maior a recuperação buscada, maior a concentração de sais na corrente residual, e maior o risco de incrustação sobre a própria membrana. Esse é o primeiro trade-off que qualquer projeto de reúso precisa equacionar: recuperar mais água reduz o volume de concentrado gerado, mas eleva o risco operacional e o custo do pré-tratamento necessário para sustentar essa recuperação.
Composição Típica e Por Que Ela Complica a Destinação
O concentrado carrega, de forma proporcionalmente ampliada, os sais dissolvidos, metais, compostos orgânicos residuais e, frequentemente, os produtos químicos usados no próprio processo — antiincrustantes, dispersantes e, eventualmente, resíduos de limpeza química das membranas (CIP). Essa combinação torna o concentrado um efluente de composição mais complexa do que a água de alimentação original, o que exclui, na maioria dos casos, a possibilidade de lançamento direto em corpo receptor sem tratamento adicional.
É justamente essa complexidade — e não a tecnologia de membranas em si — que costuma ser subestimada na fase de concepção dos projetos. Um sistema de osmose reversa tecnicamente impecável pode se tornar inviável se a destinação do concentrado não for equacionada desde o estudo de viabilidade inicial.
O Vazio Regulatório Que Atrasa as Decisões de Projeto
No Brasil, o principal instrumento normativo aplicável ao concentrado é a Resolução CONAMA 430/2011, que estabelece padrões para o lançamento de efluentes em corpos hídricos — mas que não foi concebida especificamente para tratar da destinação de rejeitos de membranas, e não estabelece critérios próprios para reúso. Estados e municípios sobrepõem normas complementares, muitas vezes com parâmetros e procedimentos distintos entre si, o que obriga cada projeto a navegar simultaneamente a esfera federal, estadual e, em alguns casos, a normativa da concessionária local de saneamento.
Essa fragmentação regulatória — já apontada como um dos principais fatores que travam a escala do reúso de efluentes no Brasil — se manifesta de forma particularmente aguda na gestão do concentrado, porque a ausência de um critério técnico nacional específico para essa corrente empurra cada empreendimento para negociações caso a caso com o órgão ambiental competente, aumentando prazo de licenciamento e insegurança jurídica.
Rotas de Destinação Disponíveis no Contexto Brasileiro
Não existe uma solução universal para o concentrado: a rota mais adequada depende do volume gerado, da composição química, da disponibilidade de área, do clima da região e do valor comercial de eventuais subprodutos recuperáveis. O quadro abaixo resume as principais alternativas em uso ou avaliação no Brasil.
| Rota de destinação | Aplicabilidade típica | Custo relativo | Limitação principal |
| Lançamento em corpo receptor | Concentrado diluído, baixa carga de contaminantes | Baixo | Sujeito à Res. CONAMA 430/2011 e a normas estaduais; volume permitido costuma ser pequeno |
| Lançamento em rede coletora | Indústrias urbanas com concessionária que aceite o efluente | Baixo a médio | Depende de aprovação prévia; risco de sobrecarga salina na ETE municipal |
| Lagoas de evaporação | Regiões de alta insolação e baixa umidade, grandes áreas disponíveis | Médio | Pouco viável na maior parte do território brasileiro por clima e disponibilidade de área |
| Evaporadores mecânicos (MVR) e cristalizadores | Efluentes de alto valor de água captada ou restrição severa de descarte | Alto | Consumo energético elevado; viabilidade depende do contexto tarifário e regulatório |
| Recuperação de sais e subprodutos | Concentrados com composição homogênea e sais de valor comercial | Alto (mitigado por receita) | Depende de mercado comprador local e pureza do sal recuperado |
| Poços de injeção profunda | Praticamente sem aplicação industrial consolidada no Brasil | N/A | Ausência de marco regulatório e de geologia caracterizada para essa finalidade no país |
Por Que Essa Etapa Costuma Inviabilizar Projetos Tecnicamente Corretos
A rota de maior recuperação de água — evaporadores mecânicos combinados a cristalizadores, a base tecnológica dos sistemas de Zero Liquid Discharge — é também a de maior custo de capital, com investimentos de 3 a 5 vezes superiores aos de sistemas convencionais de reúso, e um consumo energético que se torna o fator decisivo de viabilidade em regiões de tarifa elétrica elevada. Isso cria uma tensão direta: as tecnologias que eliminam de fato o problema do concentrado são as menos acessíveis financeiramente para a maioria das operações industriais de médio porte no país.
Do outro lado do espectro, as rotas de menor custo — lançamento em corpo receptor ou em rede coletora — são também as mais limitadas em volume e as mais expostas a restrições regulatórias, especialmente em regiões com corpos hídricos já sob pressão ou com escassez de infraestrutura de coleta compatível. O resultado prático é que muitos projetos de reúso tecnicamente maduros esbarram, na fase de engenharia de detalhamento, numa lacuna entre o que é ambientalmente exigido e o que é economicamente sustentável para a destinação do concentrado.
Boas Práticas de Projeto Para Reduzir o Impacto do Concentrado
- Avaliar a destinação do concentrado no estudo de viabilidade inicial, não como etapa posterior ao dimensionamento das membranas.
- Dimensionar o pré-tratamento (microfiltração, ultrafiltração, abrandamento) para sustentar a maior recuperação possível sem comprometer a vida útil das membranas, reduzindo o volume total de rejeito.
- Caracterizar quimicamente o concentrado antes de descartar rotas de recuperação de subprodutos — sais com pureza suficiente podem ter valor comercial que compensa parte do investimento em evaporação.
- Consultar previamente o órgão ambiental estadual e, quando aplicável, a concessionária de saneamento, dado que os critérios variam entre jurisdições e não há norma federal específica para o concentrado.
- Considerar arranjos híbridos — parte do concentrado destinada a lançamento controlado, parte a recuperação de subprodutos — em vez de buscar uma solução única de ZLD completo quando o retorno econômico não justificar o investimento.
Conclusão
A gestão do concentrado raramente aparece como protagonista nas discussões sobre reúso de efluentes, que tendem a se concentrar nas tecnologias de tratamento em si. Mas é exatamente nessa etapa — muitas vezes tratada como um detalhe operacional a resolver depois — que projetos tecnicamente sólidos se tornam economicamente inviáveis. Tratar a destinação do concentrado como parte central do projeto, e não como um apêndice, é um dos ajustes mais imediatos que o setor pode adotar para destravar a escala do reúso industrial no Brasil.
Este artigo aprofunda um ponto tratado originalmente no artigo pilar “Reúso de Efluentes Tratados: Maturidade Tecnológica, Lacunas Operacionais e o Que Ainda Nos Separa da Escala”, que oferece o panorama completo sobre tecnologias, regulação e barreiras à escala do reúso no país.
Fonte: elaborado por Portal Tratamento de Água com auxílio de IA.

