Zero Hora acompanhou as quatro etapas do processo, que inclui abastecimento, tratamento de esgoto, drenagem urbana e manejo de resíduos
Antes de chegar às torneiras, a água percorre um caminho marcado por dois dos principais desafios urbanos: o lixo e a poluição. Para garantir abastecimento e tratamento a 11,2 milhões de moradores do Rio Grande do Sul, uma rede quase invisível de dutos, bombas, estações e reservatórios opera sem interrupção, tendo como horizonte uma meta ambiciosa: universalizar o saneamento básico até dezembro de 2033.
Ao longo de um mês, Zero Hora percorreu quatro estruturas que representam os pilares do Novo Marco Legal do Saneamento. De uma estação que transforma água bruta em potável a uma casa de bombas em Porto Alegre, passando pelo tratamento de esgoto e pela ecobarreira do Arroio Dilúvio, a reportagem acompanhou o trajeto da água — e dos resíduos descartados nela — para mostrar os bastidores de um sistema essencial para a saúde e a qualidade de vida da população.
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Abastecimento de água potável
No Rio Grande do Sul, a Corsan Aegea opera os sistemas de abastecimento de água e esgoto em 317 dos 497 municípios. Nos demais, os serviços são prestados por prefeituras ou autarquias locais.
Na Região Metropolitana, uma das principais estações de tratamento de água está localizada em Canoas e é responsável por abastecer metade do município, de 347 mil habitantes. A ETA Rio Branco capta água do Arroio das Garças, um braço do Rio Jacuí, localizado no próprio município.
A estação opera 24 horas por dia. O ciclo completo de tratamento — da captação à distribuição — dura entre duas e três horas e segue sete etapas de bombeamento à distribuição.
Resultado do consumo humano de recursos hídricos, o esgoto sanitário representa um desafio para a meta de atender 90% da população brasileira com coleta e tratamento de esgoto até 2033.
Garrafas, sacolas plásticas e resíduos de higiene pessoal fazem parte da mistura fétida que chega diariamente à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Mato Grande, em Canoas, na Região Metropolitana.
A ETE visitada pela reportagem tem capacidade para tratar 320 litros de esgoto bruto por segundo, 24 horas por dia. O processo realizado na estação evita o despejo de toneladas de esgoto bruto no Arroio Araçá, que, posteriormente, deságua no Rio dos Sinos.
Limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos
A Ecobarreira no Arroio Dilúvio, em Porto Alegre, é um sistema aparentemente simples, mas que evitou que 1,5 mil toneladas de lixo tivessem como destino o Guaíba nos últimos 10 anos.
A iniciativa, que completou uma década em março deste ano, funciona como um último filtro que busca evitar que o lixo descartado incorretamente chegue ao principal corpo hídrico da região e, mais adiante, à Lagoa dos Patos e ao Oceano Atlântico.
A estrutura, que fica na Avenida Ipiranga, na altura do Parque Marinha, é totalmente financiada pela iniciativa privada. O funcionamento da Ecobarreira Arroio Dilúvio ocorre por meio de um sistema de contenção física e remoção mecânica de resíduos flutuantes.
Drenagem e manejo das águas pluviais urbanas
Último dos pilares previstos pelo marco, em Porto Alegre, é de responsabilidade do Departamento Municipal de Água e Esgotos. O Dmae administra um sistema composto por bueiros e redes de micro e macrodrenagem.
A reportagem visitou a Casa de Bombas número 13, localizada no Parque Marinha e responsável por drenar o esgoto pluvial do bairro Menino Deus. Reformada após a enchente de maio de 2024, a unidade faz parte do sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, que inclui também comportas, diques e o muro da Avenida Mauá.
As 23 casas de bombas em operação na Capital representam a última etapa do sistema de drenagem e são responsáveis por retirar a água da chuva acumulada e transferi-la para um corpo hídrico, neste caso, o Guaíba. O sistema funciona 24 horas por dia, com operadores presenciais e monitoramento remoto por vídeo e aplicativo.
Desafios para o futuro
Enquanto o abastecimento de água já alcança 86,2% dos gaúchos, os índices mostram que o maior desafio do Rio Grande do Sul segue sendo o tratamento de esgoto sanitário. Segundo os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), apenas 25,4% da água consumida no Estado passa por tratamento de esgoto antes de retornar à natureza.
Em cumprimento às metas federais, a Corsan Aegea vem expandindo as redes de esgotamento sanitário em regiões que ainda não contavam com o serviço. A companhia afirma que destinou cerca de R$ 1 bilhão para essa finalidade no Rio Grande do Sul.
No entanto, a eficiência do sistema depende de uma contrapartida: a responsabilidade dos moradores em conectar o esgoto interno de suas casas à rede pública, sempre que ela estiver disponível. Sem essa conexão, os resíduos continuam poluindo o solo e a rede pluvial (da chuva).
Para transformar esse cenário, o Estado precisará, nos próximos sete anos, acelerar investimentos e ampliar a cobertura dos serviços para cumprir as metas do Marco Legal.
Fonte: GZH

