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Mina em Goiás ganha destaque, mas refino de terras raras fica fora do país

Mina em Goiás ganha destaque, mas refino de terras raras fica fora do país

No norte de Goiás, a cidade de Minaçu está no epicentro de uma disputa geopolítica e tecnológica global.

A mina Pela Ema, operada pelo grupo Serra Verde, é a aposta para romper com o monopólio chinês na exploração de terras raras, que concentram minerais necessários para a produção desde itens como motores de carros elétricos e turbinas eólicas até robôs, refrigeradores de data centers e caças de defesa militar.

O que acontece

Nos próximos dias, o grupo norte-americano USA Rare Earth deve concluir o negócio de US$ 2,8 bilhões para adquirir 100% do Serra Verde Group. Com isso, irá unir o controle da mineração, refino, metalização e fabricação de ímãs em uma única cadeia. A transação é tão estratégica que contou até com o aporte de US$ 750 milhões do Departamento de Guerra dos EUA.

As terras raras têm o potencial de ser uma commodity-chave no atual cenário geopolítico global —e Goiás um dos fornecedores desse material. O assunto será debatido na segunda edição do Sustainable Finance Summit, evento sobre economia “verde” e estratégias de financiamento dessa nova economia que tem o UOL como parceiro. O summit acontece em Goiânia no dia 3 de setembro.

Hoje, a China lidera as reservas e a exploração de terras raras no mundo, e os EUA não querem ficar para trás. Segundo relatórios de mercado dos bancos BTG e UBS BB, mais de 90% do refino de terras raras e cerca de 60% da atividade de mineração global estão sob controle da China.

A mina de Serra Verde despontou como um ativo estratégico para o Ocidente romper esse monopólio. O mercado global consome hoje cerca de 400 mil toneladas de óxidos de terras raras por ano, de acordo com Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP, ex-coordenador do Instituto Nacional de Ciëncia e Tecnologia (INCT) de Terras Raras. Estes elementos dão vida às tecnologias mais avançadas da transição energética e da defesa, explica João Batista, que foi pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo e atua hoje como consultor da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM).

O que guia todo esse interesse é a situação geopolítica. É isso que transformou as terras raras num grande assunto. É o fato de que a China domina o mercado e, então, pode usar isso como arma econômica.
Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP, ex-coordenador do Instituto Nacional de Ciëncia e Tecnologia (INCT) de Terras Raras.

O potencial de produção de Goiás despertou interesse da USA Rare Earth. Nesta semana, a empresa anunciou que concluiu os trâmites de sua capitalização para adquirir 100% da produção da Fase 1 da Serra Verde.

O Departamento de Guerra dos EUA (DoW) investiu US$ 750 milhões na SPE (Sociedade de Propósito Específico), o que representa um aumento de US$ 250 milhões em relação aos requisitos originais. Eles também firmaram contrato de compra futura de pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras ao longo de cinco anos.

Para os norte-americanos, o negócio transcende as planilhas financeiras e invade um posicionamento estratégico geopolítico. Para Ricardo Inglez de Souza, advogado especialista em comércio internacional, há diferenças entre o valor nominal, ou seja, “quanto vale na prateleira”, e o valor intangível dessa posição.

A extração será de 1,5% da demanda mundial, mas garantirá o controle de mais de 50% do fornecimento global fora da China. A estimativa é da USA Rare Earth. Os EUA estão de olho no impacto estratégico de controlar o fornecimento global de terras raras pesadas (HREEs) críticas fora da China até o final de 2027.

Esses minerais são as peças-chave para a fabricação de ímãs permanentes de alta eficiência (NdFeB). Cada veículo elétrico (VE) exige mais de 1 kg desses elementos, enquanto a construção de uma turbina eólica de 3 MW consome cerca de duas toneladas. Eles também são cruciais para robótica, data centers de inteligência artificial física e caças de defesa militar de alta tecnologia.

Os preços do óxido de disprósio (um elemento da terra rara) dispararam 91,7% em apenas três meses. No mercado norte-americano, o preço atingiu US$ 2.300/kg contra US$ 215/kg no mercado interno chinês, segundo o relatório de análise setorial do banco BTG Pactual de agosto. Esse prêmio de escassez de mais de 10 vezes demonstra que os projetos goianos ricos em terras raras pesadas detêm hoje as cartas certas, no lugar certo e no momento correto para apontar os rumos da transição energética do Ocidente.

Trunfo do Brasil no mercado global

A argila iônica é o maior trunfo do Brasil no mercado global. Os minerais de terras raras estão em meio a uma massa de argila, próximos à superfície, e não exigem processos de detonação, britagem ou moagem pesada com uso intensivo de energia. A maior parte das jazidas do mundo estão em rochas compactas difíceis de processar.

A extração não gera resíduos tóxicos. As argilas iônicas têm radioatividade nula ou mínima, ao contrário dos depósitos em rocha dura, que produzem rejeitos radioativos perigosos de urânio e tório. A lixiviação (método de remoção dos minerais) é feita em tanques agitados usando uma solução simples de água com um sal comum (sulfato de amônio), sem a necessidade de reagentes químicos altamente agressivos, explica Batista.

A reserva de Goiás tem alta concentração das terras raras pesadas, de maior valor comercial. Especificamente o Disprósio (Dy) e o Térbio (Tb). Esses dois elementos são adicionados aos ímãs leves de Neodímio (Nd) e Praseodímio (Pr) para garantir que motores potentes de veículos elétricos ou de equipamentos militares não percam a propriedade magnética sob altas temperaturas, segundo o Serra Verde Group.

Foram 13 anos de espera entre o licenciamento e a conclusão da aquisição. O interesse não é de agora. A Serra Verde começou a mapear e explorar a área em 2010. Foram 11.090 furos de trado e sondagens adicionais, totalizando 57,6 mil metros de perfuração, apenas para mapear a área. A empresa obteve a Licença Ambiental de Operação somente no final de 2023, iniciando a produção comercial em 2024 — um ciclo de 13 anos de maturação. Isso exigiu o suporte financeiro “paciente” de fundos globais especializados (como Denham Capital, Vision Blue Resources e The Energy & Minerals Group) antes de qualquer retorno.

O gargalo além da extração

O projeto esbarra no limite tecnológico e industrial histórico do Brasil. Apesar do sucesso de captação de recursos da Serra Verde, a mina em Goiás extrai a argila iônica e realiza apenas a etapa primária de beneficiamento, produzindo um Carbonato de Terras Raras Mistas (MREC). Trata-se de um concentrado onde todos os 17 elementos químicos estão quimicamente misturados.

A separação individual de cada óxido, a metalização e a fabricação final dos ímãs não ocorrem no Brasil. Elas são executadas nos EUA e na Europa pelas subsidiárias e por parceiros tecnológicos da USA Rare Earth (como a Less Common Metals no Reino Unido e a Carester na França).

Se a gente quiser avançar e agregar valor tem que ir até a produção do ímã, que tem milhares de compradores. Já as fábricas para fazer o imã são escassas. Quantas fábricas de ímã tem no mundo fora da China hoje? Tem cinco ou seis. Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP, ex-coordenador do Instituto Nacional de Ciëncia e Tecnologia (INCT) de Terras Raras.

Para avançar na cadeia, o Brasil deve superar a complexidade técnica, a alta concentração de compradores, e o desmonte de políticas de longo prazo. O refino de terras raras pesadas exige dezenas de etapas químicas complexas e operacionais de alta demanda energética e técnica, cujo conhecimento de maquinário e mão de obra está historicamente concentrado na Ásia.

Além disso, não há mercado consumidor de terras raras separadas no Brasil. Atualmente, existem cerca de seis a sete fábricas de ímãs de terras raras ativas no mundo fora da China. Montar uma refinaria nacional sem acordos de venda pré-contratados de longo prazo (offtake) com esses raros fabricantes representa um risco financeiro proibitivo. Outro ponto é que os projetos de desenvolvimento de alta tecnologia sofrem com a descontinuidade de verbas e mudanças nas diretrizes de governo em trocas de mandato.

O contrato com a USA Rare Earth garante o processamento inicial no Brasil, mas não prevê a transferência de tecnologia. Também não há previsão de troca de know-how ou a instalação de fábricas de alta tecnologia no país.

O Brasil corre o risco de repetir o ciclo histórico do minério de ferro: exportar a matéria-prima bruta para recomprar os produtos finais (como iPhones e carros elétricos) infinitamente mais caros
Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em direito internacional empresarial.

Para tentar driblar este desafio, o Congresso discute o projeto de lei de regulamentação de minerais críticos. A proposta, que já foi aprovada na Câmara e aguarda análise do Senado, é criar o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), que prevê incentivos tributários e um fundo garantidor de R$ 5 bilhões.

Goiás publicou marco regulatório que prevê uma aumento progressivo de refino. A Lei estadual nº 23.597/2025 estabelece que as empresas do setor de minerais críticos são obrigadas a refinar e processar, dentro do território goiano, uma parcela crescente do minério em cronogramas progressivos de 3, 6 e 10 anos. Em contrapartida, as empresas receberão incentivos fiscais e prioridades em licenciamento e acesso ao novo Fundo Estadual de Desenvolvimento dos Minerais Críticos (FEDMC).

Fonte: UOL


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