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Dependente de água, Grupo Boticário investe em proteção de bacias hidrográficas e reúso

Dependente de água, Grupo Boticário investe em proteção de bacias hidrográficas e reúso

Escassez de água levou companhia a investir em reúso, monitoramento e conservação de bacias. Movimento da Fundação Grupo Boticário com foco em água já mobilizou mais de R$ 50 milhões

Em 2022, a região de Curitiba, no Paraná, passou por um dos piores períodos de estiagem de sua história. Os reservatórios de água atingiram níveis mínimos históricos, abaixo de 27%, o que levou a empresa de saneamento e água local, a Sanepar, a operar por semanas com sistema de rodízio de abastecimento na região metropolitana. A situação não apenas colocou a população em estado de atenção, como também levou a prejuízos milionários nas lavouras e nas indústrias, especialmente as mais dependentes de água. Era o caso, por exemplo, do Grupo Boticário, cuja sede e uma de suas principais fábricas estão localizadas em São José dos Pinhais, a poucos quilômetros da capital paraense. O episódio foi marcante para a companhia e a levou a acompanhar de perto a pegada hídrica.

“Desde a crise hídrica, muita coisa evoluiu. Aperfeiçoamos protocolos de contingência, monitoramos em tempo real a vazão de água por telemetria a partir de 80 hidrômetros espalhados pela área e, em paralelo, adotamos mais medidas para reúso da água na fábrica”, comenta Wellington Baldo, gerente de sustentabilidade do Grupo Boticário, ao mostrar um conjunto de monitores os dados do consumo de água.

A empresa investiu cerca de R$ 10 milhões em uma estação própria de tratamento de efluentes para reutilizar a água da fábrica para sanitários, irrigação de jardins e outros tipos permitidos. “Com a planta de tratamento passamos de 20% para 60% o nível de reutilização de efluentes”, conta Baldo.

Outra estratégia foi investir na diversificação de fontes de água. Hoje, 60% a 70% da água consumida diariamente pela fábrica vem de poços artesianos de 250 metros abertos na própria planta; o restante é comprado da concessionária municipal.

A empresa também apostou em tecnologia para monitorar e fazer um controle maior do consumo hídrico. A produção na fábrica, por exemplo, foi pensada para diminuir a necessidade de limpezas diárias nos equipamentos, em especial nos reatores, espécies de grandes “batedeiras” onde são preparados alguns dos cosméticos. Também foram desenvolvidos processos mais automáticos, que limitam o consumo. Como resultado, em quatro anos, o consumo de água para limpeza caiu de 450 litros para 200 litros por sessão.

Para centralizar a gestão de água usada em diversas frentes – composição de produtos, limpeza de equipamentos e uso geral em banheiros e jardins – a empresa criou, em 2023, uma sala que chamou de Central Única de Monitoramento de Utilidades, que chamamos de COMU, onde funcionários treinados monitoram o fluxo de água.

A resiliência hídrica é um dos temas que o Grupo Boticário vem lidando como crítico para os negócios. Segundo Luis Meyer, diretor de ESG no Grupo Boticário, a água é hoje o recurso natural do qual a companhia mais depende. Um estudo de capital natural crítico, feito há cerca de três anos com duas consultorias, mapeou os recursos naturais mais relevantes para a operação e apontou a água em primeiro lugar, na frente até de uso do solo.

“A água para nós acaba se tornando um ativo ambiental muito importante para quase todas as fábricas”, afirma o executivo, lembrando que até processos menos óbvios, como a fabricação de pós-compactos (maquiagem), dependem indiretamente de água.

A estratégia hídrica da companhia não se limita às plantas industriais. O grupo também monitora e atua em mananciais considerados críticos para sua cadeia: hoje, quatro bacias — Paraná, Cantareira, em São Paulo, Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e Bahia — estão em estágio avançado de proteção hídrica.

No portfólio de produtos, a empresa usa uma metodologia própria, batizada de I.A.R.A. (Índice de Avaliação de Risco Ambiental), validada pela certificadora DNV, acreditada pelo Inmetro, para medir o impacto ambiental e hídrico das formulações. Hoje, 91% do portfólio já passa pela avaliação, com meta de chegar a 100%. Andrezza Canavez, gerente de Segurança de Produtos e Métodos Alternativos do GB e responsável pelo Laboratório de Qualidade, Excelência e Cuidado (QEC), explica que os testes visam identificar os níveis de toxicidade e que tipo de matérias-primas que podem se tornar contaminantes ambientais e que devem, então, serem substituídas.

“Um determinado ativo pode ser biodegradável, mas ter compostos de perfil tóxicos para os organismos, não só seres humanos, mas para a biodiversidade de oceanos, por exemplo. Por isso avaliamos vários parâmetros”, diz. Andrezza conta que uma das iniciativas é a do impacto de protetores solares nos corais, como parte de uma iniciativa global chamada Reef Safe, que proíbe uso de determinados componentes na formulação, como oxibenzona e octinoxato, entre outros. “Fazemos testes em laboratórios de nossos produtos para garantir que não são associados ao embranquecimento dos corais”, diz Andrezza.

Ainda que o tema da água seja, há alguns anos, objeto de preocupação e investimentos do Grupo Boticário, Meyer, diretor de ESG, reconhece uma lacuna na forma como a companhia mede sua pegada hídrica. O monitoramento atual cobre o que acontece dentro das fábricas, mas não inclui a água usada para cultivar, extrair e processar as matérias-primas antes de chegarem à produção, na cadeia de suprimentos, que pode superar o consumo industrial. “O desafio é muito grande. Eu precisaria de um nível de acuracidade e rastreabilidade de dados de mais de 3 mil empresas espalhadas no mundo”, diz o executivo, citando que cerca de 90% dos fornecedores são locais, mas 10% estão em países como China, Alemanha e Estados Unidos, com métricas distintas. Para Meyer, medir essa pegada hídrica total deve se tornar o próximo passo da companhia, à medida que a rastreabilidade de matérias-primas críticas avance também para a água.

Outro limite apontado pelo executivo é regulatório, uma vez que não há hoje normativa específica que permita o uso de água de reuso em determinados produtos de banho e cuidado pessoal, o que restringe o quanto a empresa pode ampliar a reciclagem hídrica na fabricação. “Isso é algo que a gente ainda precisa habilitar nos próximos anos”, afirma, citando que mesmo a legislação europeia, mais avançada, ainda não superou todas as barreiras do tema.

Com a projeção de que a disponibilidade hídrica no Brasil pode reduzir em até 40% até 2040, de acordo com estudo da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a água também é um dos focos centrais das iniciativas da Fundação Grupo Boticário (FGB). A entidade financia uma série de iniciativas ligadas à proteção dos oceanos e das bacias hídricas, reunindo organizações não governamentais, empresas, governos e comunidades locais.

Guilherme Karam, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário (FGB), destaca o Movimento Viva Água, iniciado em 2019, que desde então já mobilizou mais de R$ 50 milhões e atuou na conservação de 629 mil hectares. “O movimento atua simultaneamente em três principais alavancar: a recuperação de 650 hectares para manter o corpo hídrico, incentivar o turismo e empreendedorismo responsável e a produção agrícola sustentável”, comenta Karam.

Na bacia do Rio Miringuava, localizada em São José dos Pinhais (PR), por exemplo, em 2024, o movimento registrou redução de 20% na turbidez média da bacia no período. Entre as iniciativas executadas estão a restauração ecológica de 50 hectares, com 30 mil mudas plantadas, e a estruturação de um programa de pagamento por serviços ambientais (PSA), que remunera economicamente proprietários rurais para conservar áreas naturais na bacia — 16 propriedades rurais participaram do programa em sua primeira fase, totalizando 133 hectares conservados. A bacia abastece atualmente 500 mil pessoas e faz parte do Sistema de Abastecimento Integrado de Curitiba (SAIC), responsável por levar água a 3,6 milhões de pessoas na região metropolitana. A região concentra 70% da agricultura do município e tem impacto na segurança alimentar de 1,5 milhão de pessoas, segundo dados do próprio movimento.

O movimento também impulsionou o turismo responsável na região por meio do programa Destino Miringuava, que ampliou de 6 para 12 o número de empreendimentos locais participantes entre 2023 e 2024, e criou o Guaviva, projeto de comercialização de produtos sustentáveis da bacia que já reúne 9 produtores familiares e registrou crescimento de 47% na receita dos produtores parceiros em 2024.

Alexandra Leschnhak, produtora rural, e seu marido receberam apoio da FGB para ampliar e profissionalizar o turismo educativo em sua propriedade, por onde passa 1 quilômetro do rio Miringuava.

“Em 16 anos, já recebemos aqui mais de 4 mil crianças de escolas paranaenses”, conta, com orgulho. Em parte dos 20 hectares do Rancho Caminho das Águas, sua família planta hortaliças orgânicas vendidas em feiras locais.

Leonardo Sena, outro produtor da bacia, dono do Rancho do Sena e da Pousada Ecológica, também recebeu suporte do Movimento Viva Água — neste caso, para ampliar o viveiro de mudas nativas e melhorar a estrutura de recepção a turistas. Quase dois dos nove hectares de sua propriedade são ocupados hoje pelo projeto de restauração florestal, onde já foram plantadas 500 mudas de espécies nativas da Mata Atlântica nos últimos anos. “Recebemos também cursos de marketing e agricultura orgânica, além de restauração florestal. Os benefícios já são claros”, conta.

A partir do resultado obtido no Miringuava, a Fundação expandiu o Viva Água para outras regiões hidrográficas do país: a Baía de Guanabara (RJ), desde 2021, e mais recentemente o Sistema Cantareira (SP) e as bacias dos rios Joanes e Jacuípe (BA). A meta da Fundação é alcançar seis territórios estratégicos até 2030, com a criação de uma governança nacional unificada e mecanismos financeiros dedicados a cada região.

No conjunto dos territórios, o movimento Viva Água diz beneficiar cerca de 15,9 milhões de pessoas. A Fundação alterou em 2025 a metodologia de contabilização desse número: em vez de considerar a população total das bacias hidrográficas onde atua, passou a contar apenas as pessoas diretamente abastecidas por mananciais que recebem ações de conservação, um ajuste que, segundo a instituição, trouxe maior rigor ao indicador.

A Fundação também lançou em 2025 a Teia de Soluções CAMP Viva Água, para financiar e acelerar projetos de segurança hídrica e adaptação climática. Para a Fundação, o investimento em conservação também se sustenta financeiramente: uma análise de custo-benefício das ações planejadas para o Viva Água Miringuava estimou retorno de R$ 2,46 para cada R$ 1 investido no movimento.

O argumento reforça a estratégia da Fundação e do próprio Grupo Boticário diante de um cenário em que a segurança hídrica deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a representar risco direto à operação de empresas dependentes de água, como a fabricante de cosméticos — cuja sede e principal fábrica ficam a poucos quilômetros da bacia do Miringuava.

Fonte: Um só planeta


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