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Lodo de esgoto vira combustível de aviação sem uso de petróleo

Lodo de esgoto vira combustível de aviação sem uso de petróleo

Combustível de avião feito de esgoto humano, sem petróleo bruto e sem plantar soja, milho ou cana: empresa britânica transforma lodo de estação de tratamento em biocrude, refina o material em SAF e fecha acordo de 15 anos para abastecer voos comerciais

Empresa britânica Firefly Green Fuels criou rota para transformar lodo de esgoto em combustível sustentável de aviação, usando biossólidos de estações de tratamento como matéria-prima para produzir biocrude, biochar e SAF. O projeto já tem acordo com a Wizz Air para até 525 mil toneladas ao longo de 15 anos, mas ainda depende de escala industrial, certificação e produção comercial.
Uma empresa britânica colocou o esgoto humano no centro de uma das rotas mais inusitadas da corrida por combustíveis sem petróleo. O material usado não vem de poços, plataformas marítimas ou lavouras energéticas. Ele vem do lodo gerado em estações de tratamento de esgoto.

A tecnologia é desenvolvida pela Firefly Green Fuels, companhia do Reino Unido que trabalha para transformar biossólidos de esgoto em SAF, sigla em inglês para combustível sustentável de aviação. A própria empresa afirma que seu processo Sewage Biosolid To Jet transforma esgoto em combustível “drop-in”, ou seja, compatível com a cadeia aeronáutica atual.

O projeto ganhou força comercial após a Wizz Air anunciar investimento de 5 milhões de libras na Firefly e acordo para comprar até 525 mil toneladas de SAF ao longo de 15 anos. Segundo comunicado regulatório da companhia aérea, o combustível deve abastecer operações britânicas da empresa a partir de 2028.

Esgoto humano vira matéria-prima energética

O ponto mais surpreendente da tecnologia está na matéria-prima. A Firefly usa sewage sludge, o lodo que sobra depois do tratamento de esgoto realizado por empresas de saneamento.

Esse resíduo costuma ser um problema para cidades, companhias de água e estações de tratamento. Ele precisa ser coletado, tratado, transportado e destinado de forma adequada.

A proposta da Firefly muda essa lógica: em vez de encarar o lodo apenas como passivo sanitário, a empresa tenta transformá-lo em insumo para combustível líquido de alto valor.

Lodo entra em reator de alta pressão

Segundo a Firefly, o lodo de esgoto é colocado em um reator de alta pressão para ser separado em dois materiais principais: biochar e biocrude.

O biochar é um material carbonizado que pode ser usado na agricultura. Já o biocrude funciona como uma espécie de óleo bruto renovável, capaz de passar por etapas posteriores de refino.

A etapa é essencial porque o avião não é abastecido com esgoto cru. O resíduo passa por conversão química, gera um óleo intermediário e só depois esse material segue para ser transformado em combustível de aviação.

Processo usa liquefação hidrotérmica

A conversão do lodo em biocrude ocorre por meio de uma tecnologia conhecida como liquefação hidrotérmica, também chamada de HTL. A Firefly informou em 2026 parceria com a turca Altaca Energy para usar tecnologia especializada nessa etapa upstream do processo.

A liquefação hidrotérmica usa calor, pressão e água para converter biomassa úmida em óleo. Isso torna o lodo de esgoto uma matéria-prima tecnicamente relevante, porque ele já é naturalmente úmido.

Em outros processos energéticos, a umidade pode ser um problema porque exige secagem. Na rota HTL, a água participa do processo, reduzindo uma barreira comum ao aproveitamento energético de resíduos úmidos.

Biocrude é refinado até virar SAF

Depois da produção do biocrude, o material precisa ser atualizado quimicamente. A Firefly afirma que o óleo bruto renovável é convertido em SAF por meio de processos de hidrotratamento derivados da produção convencional de combustível de aviação.

Essa etapa remove impurezas, ajusta a composição dos hidrocarbonetos e aproxima o produto das especificações exigidas pela aviação. A empresa cita a Chevron Lummus Global como fornecedora de tecnologia para a etapa downstream de refino.

A inovação não está em dispensar completamente processos industriais. Está em substituir o petróleo bruto por um resíduo urbano inevitável, transformando biossólidos em óleo renovável e depois em combustível compatível com aviões.

Acordo com Wizz Air prevê 525 mil toneladas

O acordo com a Wizz Air é o principal marco comercial do projeto. A companhia aérea informou que a parceria permitirá o fornecimento de SAF para suas operações no Reino Unido a partir de 2028, com até 525 mil toneladas ao longo de 15 anos.

O comunicado também afirma que o acordo tem potencial para economizar 1,5 milhão de toneladas de CO₂ equivalente. A estimativa considera a substituição parcial do combustível fóssil por SAF produzido a partir de lodo de esgoto.

A própria Firefly também registrou que o pacote com a Wizz Air inclui investimento de 5 milhões de libras e acordo de offtake para até 525 mil toneladas de SAF.

Reino Unido gera milhões de toneladas de lodo por ano

A escala da matéria-prima ajuda a explicar o interesse na tecnologia. Segundo a Wizz Air, mais de 57 milhões de toneladas de lodo de esgoto são produzidas no Reino Unido todos os anos.

A mesma comunicação afirma que esse volume teria potencial para gerar 250 mil toneladas de SAF. O número mostra por que resíduos de saneamento passaram a ser vistos como alternativa para combustíveis avançados.

Diferentemente de matérias-primas agrícolas, o esgoto não exige plantio dedicado. Ele surge diariamente como subproduto da vida urbana e do funcionamento das redes de saneamento.

Harwich deve receber planta pioneira

A Firefly anunciou planos para uma planta pioneira de produção de SAF a partir de esgoto em Harwich, no Reino Unido. O projeto envolve acordos com Haltermann Carless, Petrofac, Chevron Lummus Global e Anglian Water.

A Haltermann Carless é dona de um local especializado em refino em Harwich, onde a Firefly pretende construir uma unidade piloto e, depois, uma primeira planta comercial.

A Anglian Water aparece como parceira estratégica porque deve fornecer o resíduo usado como matéria-prima. A presença de uma companhia de saneamento conecta a rota energética diretamente à infraestrutura de tratamento de esgoto.

Boeing e Clear Sky entraram na estratégia

Em 2024, a Firefly também anunciou uma parceria estratégica com Boeing e Clear Sky. Segundo a empresa, a colaboração apoia o desenvolvimento da primeira unidade comercial em Harwich e a expansão para mercados globais.

A Firefly afirmou nessa comunicação que transforma resíduos de esgoto em SAF por meio de liquefação hidrotérmica. A empresa também declarou que o combustível produzido por essa rota pode reduzir emissões de ciclo de vida em mais de 90% em comparação com combustível de aviação derivado de petróleo.

A presença de empresas aeronáuticas e industriais amplia o peso da tecnologia. A rota deixou de ser apenas uma experiência laboratorial e passou a integrar uma cadeia de desenvolvimento voltada à produção comercial.

Redução de emissões passa de 90% no ciclo de vida

A Firefly informa que seu SAF pode oferecer redução superior a 90% nas emissões de ciclo de vida em comparação com o combustível fóssil de aviação. Em outro anúncio, a empresa citou análise independente da Universidade de Cranfield com economia de 92% de CO₂e frente ao combustível fóssil.

A Wizz Air também informou que o SAF da Firefly é projetado para entregar 90% de redução de gases de efeito estufa em base de ciclo de vida.

Essa conta considera toda a cadeia de produção e uso do combustível. O diferencial está na origem do carbono, no aproveitamento de resíduo biogênico e na substituição parcial do querosene fóssil.

Combustível pode ser misturado ao querosene atual

O SAF é tratado como combustível de aviação compatível com a infraestrutura existente. A Wizz Air informou que aeronaves Airbus A321neo podem voar atualmente com mistura de até 50% de SAF.

O comunicado regulatório também registra que o SAF precisa ser misturado ao combustível convencional para cumprir exigências regulatórias de uso em aeronaves.

Esse detalhe explica por que a tecnologia é estratégica para a aviação. Ela permite reduzir parte da dependência de petróleo sem exigir uma troca imediata de aviões, motores, tanques e aeroportos.

Tecnologia evita disputa direta com alimentos

Grande parte dos biocombustíveis enfrenta uma discussão sensível: o uso de terras, lavouras e matérias-primas que também podem ter destino alimentar. No caso da rota da Firefly, o insumo principal é um resíduo urbano.

A empresa afirma que o esgoto é uma matéria-prima biogênica, abundante e problemática. O uso desse material cria uma alternativa a cadeias baseadas em óleo vegetal, gordura animal ou culturas agrícolas.

Esse ponto é importante porque a disponibilidade de matéria-prima é um dos maiores gargalos do SAF. A própria Wizz Air declarou que a oferta de insumos segue como desafio central para o setor.

Brasil entrou no radar da Firefly

A rota também chegou ao Brasil por meio de parceria com a Sanepar. Em novembro de 2024, a Firefly anunciou memorando de entendimento com a companhia de saneamento do Paraná para explorar a conversão de biossólidos locais em biocombustíveis avançados, incluindo SAF.

A parceria amplia o acesso da empresa a matérias-primas fora do Reino Unido. O Brasil tem grandes centros urbanos, estações de tratamento e volume expressivo de resíduos de saneamento.

A presença da Sanepar mostra que o interesse pela rota do esgoto não se limita à Europa. A tecnologia pode ser avaliada em mercados onde saneamento, energia e combustíveis renováveis se cruzam.

Lodo de esgoto entra na corrida dos combustíveis avançados

A Firefly trabalha em uma das rotas mais chamativas da nova indústria de combustíveis. O lodo de esgoto, antes visto apenas como resíduo sanitário, passa a ser tratado como fonte de carbono biogênico.

A cadeia proposta começa na estação de tratamento, passa pela liquefação hidrotérmica, gera biocrude, segue para hidrotratamento e termina em SAF. Cada etapa transforma um material de baixo valor em produto energético de alta especificação.

O acordo com a Wizz Air, os planos em Harwich e as parcerias com empresas de saneamento, engenharia e refino colocam o projeto entre os casos mais incomuns de combustível sem petróleo em desenvolvimento comercial.

Fonte: CPG


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