O conceito da diversificação de fontes e supridores, tão familiar na teoria de mitigação de riscos pode ser aplicado agora diante do novo conflito no Oriente Médio
A geopolítica da energia foi historicamente influenciada pela relevância internacional dos grandes produtores de óleo e gás. Assim foi nos choques de 1973 e 1979, quando os principais países da Opep decidiram cortar a produção, gerando escassez de oferta que se refletiu nos preços de petróleo e de energia. Foi assim também na invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, quando os fluxos de gás natural para a Europa foram reduzidos drasticamente.
Nestes casos, os mercados globais de energia enfrentaram tradicionais choques de oferta, com falta de produto e reflexo imediato nos preços, como ilustrado no gráfico (ao lado) com as cotações do Brent.
O caso atual, oriundo dos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, e das reações imediatas das forças iranianas atingindo diversos países do Oriente Médio, apresenta peculiaridades que vale aqui explorar. O Irã é produtor relevante de óleo cru (5º maior globalmente) e de gás natural (3º maior), respondendo por aproximadamente 5% da produção total de petróleo.
Adicionalmente, é exportador de óleo cru, com cerca de 1,6 milhão de barris/dia em um mundo que consome cerca de 100 milhões de barris/dia. A economia do país dependente altamente da atividade petrolífera, que representa mais de 50% das receitas de exportação e 30% do PIB.
A relevância do Oriente Médio na indústria é ainda mais pronunciada. A região responde por mais de 30% da produção e 48% das exportações mundiais de óleo cru.
O gás natural produzido representa 17% do volume global e as exportações de GNL – gás natural liquefeito – correspondem a cerca de 25% total comercializado no mundo. Trata-se, portanto, de uma região nevrálgica do ponto de vista de fornecimento e comercialização global de óleo e gás natural, com influência direta no abastecimento de algumas regiões – com destaque para a Ásia e a China em particular. Desta forma, o Oriente Médio configura-se como um formador crítico de preços de energia no mercado internacional. Uma guerra na região acentua a volatilidade dos mercados.
Assim, ao restringir a circulação de embarcações no Estreito de Ormuz, pelo qual passam diariamente 15 milhões de barris/dia, cerca de 5 milhões de derivados de petróleo e 20% da produção de GNL, o Irã potencializa o efeito contágio do conflito na região. Não estamos (ainda) vivenciando um choque clássico de oferta com escassez de O&G e derivados no mercado, porém um fechamento prolongado da principal via de escoamento da região já pressiona os preços, com tendência de aumento. Com efeito, as cotações do Brent no mercado internacional caminham rumo aos 3 dígitos, enquanto os preços de GNL sofreram aumentos mais expressivos ainda na Europa e na Ásia, principais mercados importadores.
Adicionalmente, ao impactar algumas instalações industriais na região, incluindo a principal refinaria da Arábia Saudita e a mais importante unidade produtora de GNL do Qatar, o conflito ganha novos contornos. Rotas alternativas passíveis de serem adotadas – tais como o escoamento da produção de parte da Arábia Saudita e do Kuwait, por exemplo, por dutos – não são o suficiente para resolverem a equação da infraestrutura e ilustram claramente a razão pela qual o Estreito de Ormuz sempre foi considerado um ponto de estrangulamento.
Três quartos da população mundial vivem em países importadores líquidos de combustíveis fósseis Fatores agravantes que merecem ser monitorados dizem respeito, ainda, ao preço do frete que sobe desde o início da guerra, ao custo do seguro dada a interrupção de cobertura por grande parte das seguradoras, ou ainda à própria disponibilidade de embarcações em outras regiões do mundo. São elementos-chave neste conflito: a extensão dos danos à infraestrutura de exportação existente na região, a duração do fechamento do Estreito de Ormuz e seus impactos nos elementos acima citados, bem como a eventual disrupção na capacidade produtiva da região.
Neste contexto, o conceito de segurança energética torna-se frágil e merece reflexão. Considerando que três quartos da população mundial vivem em países importadores líquidos de combustíveis fósseis, o cenário presente aproxima-se a passos largos de um sentimento de insegurança energética, acoplado à pressão inflacionária e ao potencial impacto sobre o crescimento econômico.
Regiões que dependem em particular do óleo cru ou do GNL do Oriente Médio, notadamente China, Índia e Paquistão, ou aquelas cujos preços de energia já sofrem o impacto da volatilidade atual, como a Europa, devem repensar a configuração de seus sistemas energéticos e avaliar a melhor forma de torná-los mais resilientes. Certamente, o conceito da diversificação de fontes e supridores, tão familiar na teoria de mitigação de riscos, aplicase aqui. Dado que conflitos geopolíticos com reflexos no mundo da energia não são novos, diversas perguntas merecem atenção.
O que aprendemos com crises passadas? O que leva países e regiões a dependerem de poucas fontes energéticas? Seria o fator custo o único a ser considerado em um mundo polarizado onde cadeias de energia são armas de pressão? De que forma avançar mais rapidamente no desenvolvimento de sistemas energéticos seguros, resilientes e de baixo carbono?
Em um mundo belicoso e complexo, onde conflitos escalam para guerras regionais, há mais perguntas do que respostas. O que me parece fazer sentido, todavia, é estar atenta aos sinais de mudança e entender os novos contornos da segurança energética. Para muitos, passam por geração de energia a partir de fontes domésticas, notadamente as renováveis, sistemas e infraestrutura resilientes aos diversos riscos, cadeias de valor e parcerias confiáveis. Cabe a cada país e região identificarem suas vulnerabilidades e vantagens competitivas neste novo contexto para, a partir daí, estabelecer um ambiente propício ao desenvolvimento das soluções necessárias. Estejamos abertos aos novos tempos e à diversidade de configurações que ensejam, na esperança que guerras cessem.
Por Clarissa Lins
Fonte: Valor Econômico


