Se você acompanha o setor de energia, já ouviu a promessa: o biometano seria uma das apostas mais óbvias da transição energética brasileira.
Por: Gisele Benedicto M.Sc., MBA
Temos resíduo de sobra, temos uma matriz que combina bem com gás renovável e, desde 2020, temos um arcabouço regulatório da ANP que definiu as regras do jogo. Mais recentemente veio o mandato do CGOB, reforçando a obrigação de mistura. No papel, é o cenário perfeito.
Só que a realidade dos números conta outra história. Até junho de 2026, o Brasil tinha apenas 21 plantas autorizadas a produzir biometano. Vinte e uma! Num país deste tamanho, com esse potencial, é pouco.
Resolvi ir atrás dos dados da própria ANP para entender o descompasso entre a regra pronta e o setor que não anda. O que encontrei não aponta para um único vilão, mas para uma sequência de gargalos que se acumulam depois da regulação. Vou dividir aqui os que mais me chamaram atenção. Mas antes vale um passo atrás, porque parte da resposta está na nossa própria história.
O Brasil não está começando do zero
Aqui vai um dado que muita gente esquece: o primeiro projeto de MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) aprovado no mundo, dentro do Protocolo de Quioto, foi brasileiro. Foi o NovaGerar, no aterro de Adrianópolis, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, que entrou em operação em 2005. O Protocolo de Quioto tinha passado a valer poucos anos antes, então o Brasil saiu literalmente na frente tão logo passou a existir um instrumento internacional para monetizar a captura de metano em aterros.
Aquele projeto captava o biogás da decomposição dos resíduos sólidos urbanos, que de outra forma iria para a atmosfera, e transformava esse gás em crédito de carbono negociado lá fora. De 2005 para cá, foram duas décadas de aprendizado com uma coisa muito específica: como drenar, canalizar, tratar e aproveitar economicamente o gás de aterro. Vários outros aterros seguiram o mesmo caminho ao longo dos anos, e essa curva de experiência ficou instalada no país.
Guarde essa data, 2005, porque ela ajuda a entender tudo o que vem depois. Quando o biometano entra na regulação da ANP em 2020, a rota que capta gás de aterro já chegava com quinze anos de estrada. A rota da agroindústria, que aproveita vinhaça e resíduos do agronegócio, é comparativamente nova nesse jogo. Essa diferença de maturidade não é um detalhe histórico; ela aparece de forma clara nos números atuais, como vou mostrar mais adiante.
Primeiro gargalo: quatro anos praticamente parados
Quando a gente olha a evolução do número de plantas autorizadas ao longo do tempo, o desenho é revelador.
Entre 2020 e 2023, o setor saiu de 3 para 6 plantas. Foram quatro anos para dobrar uma base minúscula, num período em que o marco regulatório já estava valendo. Ou seja, a regra existir não foi suficiente para destravar investimento. O movimento real só começou em 2024, quando o número saltou para 10 plantas, e ganhou tração em 2025 e 2026, chegando às 21 atuais. A curva de capacidade autorizada acompanha esse ritmo: passamos de algo em torno de 330 mil Nm³/dia no fim de 2020 para mais de 1,36 milhão de Nm³/dia em meados de 2026.
É uma boa notícia que a aceleração tenha vindo. Mas o ponto que fica é: se a regulação de 2020 fosse o fator decisivo, essa curva teria subido antes. O que mudou a partir de 2024 foi outra coisa, e vale a discussão sobre o que exatamente destravou (custo de equipamento, apetite de investidores, avanço do mercado de crédito de descarbonização, entre outros).
Segundo gargalo: autorizar não é operar
Aqui entra o dado que, para mim, é o mais interessante de toda a análise: uma planta autorizada não significa uma planta rodando a todo vapor. Cruzei o volume de biogás processado com a capacidade instalada de processamento e cheguei à taxa de utilização do setor. A média nacional em junho de 2026 estava em torno de 35%. Ou seja, mesmo as plantas que já venceram toda a etapa regulatória operam, em média, com um terço da capacidade que poderiam.
E quando você abre esse número por rota tecnológica, a diferença é gritante.
Entre 2020 e 2023, o setor saiu de 3 para 6 plantas. Foram quatro anos para dobrar uma base minúscula, num período em que o marco regulatório já estava valendo. Ou seja, a regra existir não foi suficiente para destravar investimento. O movimento real só começou em 2024, quando o número saltou para 10 plantas, e ganhou tração em 2025 e 2026, chegando às 21 atuais. A curva de capacidade autorizada acompanha esse ritmo: passamos de algo em torno de 330 mil Nm³/dia no fim de 2020 para mais de 1,36 milhão de Nm³/dia em meados de 2026.
É uma boa notícia que a aceleração tenha vindo. Mas o ponto que fica é: se a regulação de 2020 fosse o fator decisivo, essa curva teria subido antes. O que mudou a partir de 2024 foi outra coisa, e vale a discussão sobre o que exatamente destravou (custo de equipamento, apetite de investidores, avanço do mercado de crédito de descarbonização, entre outros).
Segundo gargalo: autorizar não é operar
Aqui entra o dado que, para mim, é o mais interessante de toda a análise: uma planta autorizada não significa uma planta rodando a todo vapor. Cruzei o volume de biogás processado com a capacidade instalada de processamento e cheguei à taxa de utilização do setor. A média nacional em junho de 2026 estava em torno de 35%. Ou seja, mesmo as plantas que já venceram toda a etapa regulatória operam, em média, com um terço da capacidade que poderiam.
E quando você abre esse número por rota tecnológica, a diferença é gritante.
A tabela escancara o paradoxo do setor. A rota que melhor opera hoje, a de aterro, tem plantas maiores e produz três vezes mais em relação à sua capacidade. Mas ela é minoria no que vem por aí. Das 49 plantas em processo de autorização, a agroindústria possui maior número de plantas, com 30 empreendimentos contra 19 de aterro. Ou seja, o futuro do setor está sendo construído principalmente na rota que ainda não provou que consegue operar em volume, aquela que hoje roda a 15% da capacidade. Se esse padrão de baixa utilização se repetir nas novas plantas de agroindústria, a projeção de capacidade para 2028 corre o risco de virar um número superestimado, muito distante da produção efetiva.
Isso importa por um motivo estratégico. Boa parte do capital que está entrando no setor mira justamente a rota agro, com as usinas de cana enxergando no biometano uma nova receita. Mas os dados mostram que essas plantas, uma vez autorizadas, demoram muito mais para operar em volume do que as de aterro. As razões prováveis são conhecidas de quem está no dia a dia: sazonalidade da safra, logística de substrato, integração com a operação da usina. O resíduo de aterro, por outro lado, chega num fluxo contínuo e concentrado, o que facilita a operação estável.
Traduzindo: não é o setor inteiro que engatinha de forma uniforme. É sobretudo a rota que mais atrai investimento que está tendo mais dificuldade de sair da autorização para a operação plena.
Terceiro gargalo: o funil não termina na obra
O pipeline de novas plantas é robusto. São 49 empreendimentos em processo de autorização junto à ANP, somando mais de 2 milhões de Nm³/dia de capacidade projetada. Se tudo se concretizar, a capacidade instalada do país mais que dobra até 2028, passando de 1,36 milhão para cerca de 3 milhões de Nm³/dia.
Mas o “se tudo se concretizar” é o ponto sensível. Ao olhar o cronograma dessas 49 plantas, quatro delas nem sequer têm data de conclusão de obra definida; estão aguardando atualização do próprio cronograma. Outras três já concluíram a obra e seguem presas no processo de autorização. São sinais de que o funil continua estreitando mesmo depois que o projeto sai do papel e a obra começa.
Essa projeção de 2028, portanto, é um teto otimista. O número real vai depender de quantas dessas plantas efetivamente vencerão a maratona entre autorizar, construir, conectar e escoar o gás.
O que isso tudo quer dizer
Costuma-se resumir o problema do biometano brasileiro como uma questão regulatória. Os dados sugerem que essa leitura já ficou para trás. A regra está posta desde 2020, o Brasil domina a captura de gás de aterro desde 2005, e ainda assim o setor levou anos para reagir, opera abaixo da capacidade e enfrenta um funil que não se resolve na assinatura da autorização.
O gargalo, hoje, é de execução. E ele tem um endereço claro. A rota que o país já sabe operar, a de aterro, está ficando para trás no pipeline; a rota que vai dominar os próximos anos, a de agroindústria, é justamente a que ainda opera a 15% da capacidade. O risco é óbvio: construir uma montanha de capacidade autorizada que não se converte em gás de verdade. Duplicar a capacidade instalada até 2028 é uma meta bonita, mas só significa alguma coisa se as plantas efetivamente rodarem, e não é isso que os números de utilização estão mostrando hoje.
Ter regra, ter gás e ter dinheiro é a condição de partida. Não é a linha de chegada. Enquanto tratarmos o problema como se fosse só de regulação, vamos continuar comemorando autorizações enquanto a produção efetiva segue muito aquém do que o país poderia entregar. A pergunta que fica para o setor não é mais “quando teremos as regras”, e sim “por que o que já foi autorizado ainda não está produzindo”.
Fonte de dados:
ANP. Painel Dinâmico de Biometano, 2026.
Vetor Energético: Vetor Energético – Biometano
Por: Gisele Benedicto M.Sc., MBA – Especialista em Biocombustíveis & Biometano | M.Sc. COPPE/UFRJ | Autora do IVEB | Regulação Energética | Novos Negócios

