Estamos no rumo de uma civilização digital, porém construída em alicerces da primeira fase da Revolução Industrial, que dependiam excessivamente de água e carbono
Não custa relembrar do método aplicado por Arquimedes, por volta de 250 a.C., para calcular o Pi. Ele utilizou, em interações recursivas, polígonos regulares inscritos e circunscritos. Começou com o hexágono e foi dobrando o número de lados até chegar a 96 (eneacontágono). O valor do Pi estaria entre as razões dos diâmetros e circunferências desses polígonos.
A genialidade de Arquimedes conduziu a outro achado fascinante. Note que, para o mesmo círculo, o comprimento do lado de um eneacontágono é bem menor que do hexágono e, na medida que aumenta o número de lados, seus comprimentos são cada vez menores. Generalizando: quando o número de lados tende a infinito, seu comprimento tende a zero. Esse é o embrião da teoria do cálculo desenvolvida por Isaac Newton e Gottfried Leibniz no sec. XVII d.C.
Em janeiro de 2025, o CEO da Microsoft postou numa rede social que o “paradoxo de Jevons atacava novamente”. Para Satya Nadella, a inteligência artificial (IA) ficaria mais eficiente e seu uso seria explosivo. Penso como o CEO, e estou entre os que acham que a IA é um passo para elevar a produtividade. O problema é que Nadella não reparou no paradoxo por completo. Desprezou o fato de que o crescimento da eficiência aumentaria exponencialmente o uso dos insumos, entre eles a água, um recurso finito e cada vez mais escasso.
É útil falar de William Jevons, uma personalidade do século XIX. Entre 1850 e 1860, a sabedoria convencional acreditava que tornar a máquina a vapor mais eficiente reduziria o consumo de carvão. Jevons percebeu que era o oposto: as inovações que deixavam tais máquinas mais eficientes não reduziam, e sim aumentavam o consumo de carvão, que disparou durante aquele ciclo da Revolução Industrial. É que os ganhos de eficiência diminuíram os custos da energia a vapor, que ficou mais acessível. Isso permitiu que fosse aplicada num universo mais abrangente de indústrias, o que fez acelerar a demanda por carvão. Este é o paradoxo de Jevons, também conhecido como efeito rebote.
Na dedução do CEO da Microsoft, a IA, que tem o data center como cérebro, poderia crescer infinitamente, como os lados dos polígonos de Arquimedes, mas, espantosamente, não levou em conta que a água é finita.
A humanidade vive um dilema. Progressivamente viciamos nosso dia a dia a dispositivos que dependem da IA, que requer o uso intensivo de recursos escassos. Algumas soluções estão em curso, mas não cobrem todo espectro de problemas – e falo aqui apenas da água.
Ano passado, o HARC, centro de estudo da Universidade de Houston, previu que em 2030 os data centers do Texas consumiriam 161 bilhões de galões de água/ano ou 609 bilhões de litros, que se equiparam a quatro vezes a represa de Guarapiranga e a 17% do sistema Cantareira.
Os conflitos locais já acontecem mundo a fora. Nos Estados Unidos, as comunidades rurais da Geórgia e do Oregon enfrentam escassez hídrica e suspeitam que tenha sido acentuada pelos data centers. Coisa semelhante, talvez mais grave, ocorre em áreas rurais do Arizona, como em Marana, Mesa e Phoenix. Em 2023, Marana, de forma inédita, rejeitou um data center em seu território. E há restrições relevantes em diferentes partes da Europa.
No Brasil os conflitos seguem na surdina. Boa parte do Estado de São Paulo encontra-se em racionamento de água, mas a restrição em cidades como Barueri, Santana do Parnaíba, Vinhedo e a capital não alcançam os data centers.
A Universidade de Houston estima que em 2030 os data centers do Texas consumiriam 609 bilhões de litros de água/ano, que se equiparam a quatro vezes a represa de Guarapiranga e a 17% do sistema Cantareira. Os conflitos locais já proliferam
A assimetria de informações impera na IA. Em agosto passado, o Google anunciou que o sistema Gemini consumiria apenas 0,26 mililitros de água (5 gotas) por interação (prompt).
Aparentemente uma tremenda vitória ambiental. Mas o número sonega que uma simples consulta em IA pode consumir 20 vezes mais energia que numa busca tradicional. E, se as tarefas forem complexas, esse consumo pode ser de 150 a 200 vezes maior. Se as 164 bilhões de buscas diárias do Google forem processadas por IA, o consumo saltaria para 4,26 milhões de litros ao dia. A IA é, assim, uma cativante vampira d’água.
Aliás, já reparou que uma busca simples pelo celular tem sido rotineiramente “jogada” para a IA? É o ardil que nos leva à dependência.
Quando se olha as perspectivas para o Brasil, o quadro é mais alentador. Alguns dos data centers que já vieram ou que querem vir utilizam processos bem menos gastadores de água para resfriamento. Mas, sem transparência, precisamos confiar cegamente no que é prometido. Não há regulação, tampouco fiscalização.
Um episódio marcante aconteceu em Caucaia/CE, onde é previsto um data center de grande porte. Pelas informações divulgadas, o consumo diário de água será de apenas 30 mil litros, outra aparente vitória ambiental. Ocorre que em 16 dos últimos 21 anos Caucaia enfrentou escassez hídrica. Ainda assim, o governo local garantiu reserva d’água para o data center, o que soa estranho. O interessante é que o empreendedor faz questão de construir o data center próximo ao rio, o que despertou a curiosidade do cacique Roberto Anacé, conforme matéria no El País: “Se é tão pouca água, por que querem ficar tão perto do rio?”
Estamos no rumo de uma civilização digital, porém construída em alicerces da primeira fase da Revolução Industrial, que dependiam excessivamente de água e carbono. Se não mudarmos o ritmo e a direção, com uma engenharia que substitua esses alicerces por algo compatível com um planeta de recursos finitos, o colapso não seria um temor, e sim um projeto.
Volto a falar de Jevons, um dos fundadores da teoria marginalista e pioneiro na criação dos números-índices, sem os quais não seria calculada a inflação. Jevons foi também um lógico influente.
Ajudou a popularizar a lógica algébrica de George Boole. Outra de suas admiráveis contribuições, em 1869, foi o “piano lógico”, uma máquina capaz de resolver problemas complexos de lógica mais rapidamente que o humano. O piano lógico é um dos precursores do computador. Sua interface era um teclado, daí o “piano”. O processamento das informações já utilizava portas lógicas, a base absoluta da IA. Jevons, como Arquimedes, estava bem à frente. Um dia será lembrado como um ator essencial para a IA. Será que as Big Techs sabiam disso?
Por Edvaldo Santana
Fonte: Valor

