Substâncias extraídas da natureza, seus derivados e moléculas inspiradas em estruturas naturais permanecem entre as principais fontes da inovação farmacêutica
A destruição das florestas tropicais costuma ser medida pela extensão das áreas derrubadas, pelo volume de carbono lançado na atmosfera e pelo número de espécies ameaçadas. Esses indicadores mostram a gravidade da crise, mas não revelam todas as perdas envolvidas. Em plantas, fungos, microrganismos e animais encontram-se substâncias e informações genéticas que alimentam pesquisas médicas e podem dar origem a novos tratamentos. Quando uma floresta desaparece antes que sua diversidade seja estudada, parte desse patrimônio também desaparece, muitas vezes sem que a ciência chegue a saber o que foi perdido.
Uma análise divulgada pela organização internacional Zero Carbon Analytics, em julho de 2026, deu dimensão econômica a esse risco. As florestas tropicais podem guardar até US$ 1,2 trilhão em medicamentos ainda não descobertos. O valor se refere apenas ao potencial farmacêutico das plantas com flores presentes nesses ecossistemas. Não inclui a diversidade de fungos, microrganismos e animais terrestres, nem os recursos encontrados nos oceanos e nos ambientes de água doce. Mesmo restrito a uma parte da biodiversidade conhecida, o cálculo expõe o custo de destruir ecossistemas que continuam amplamente inexplorados pela ciência.
A perda da biodiversidade deixa, assim, de ser apresentada apenas como uma tragédia ambiental distante da vida cotidiana. Ela atinge a capacidade da medicina de responder a doenças, produzir antibióticos, aperfeiçoar tratamentos contra o câncer e enfrentar novos desafios sanitários. A floresta derrubada pode conter uma espécie que jamais será catalogada, uma molécula que não chegará ao laboratório ou um princípio ativo que poderia aliviar o sofrimento de milhões de pessoas. O dano não se resume ao presente. Ele elimina possibilidades que fariam parte do futuro da saúde humana.
A natureza na origem dos medicamentos
A indústria farmacêutica avançou com a química sintética, a biotecnologia e o sequenciamento genético, mas continua profundamente ligada aos produtos naturais. Uma revisão publicada no Journal of Natural Products, abrangendo os medicamentos desenvolvidos entre 1981 e 2019, mostrou que substâncias extraídas da natureza, seus derivados e moléculas inspiradas em estruturas naturais permanecem entre as principais fontes da inovação farmacêutica. No tratamento do câncer, essa relação é ainda mais expressiva. Três em cada quatro medicamentos oncológicos descobertos entre 1940 e 2014 tiveram origem direta ou inspiração em compostos naturais.
A importância dessas substâncias decorre da própria diversidade da vida. Ao longo de milhões de anos, organismos desenvolveram compostos químicos para se defender de predadores, combater infecções, competir por recursos e adaptar-se a diferentes ambientes. Muitas dessas moléculas interagem com processos biológicos que também existem no corpo humano. A pesquisa farmacêutica procura identificar essas interações, isolar compostos promissores e transformá-los em medicamentos seguros e eficazes. A tecnologia amplia esse trabalho, mas não substitui a diversidade biológica que lhe fornece matéria-prima e modelos químicos.
O jaborandi, planta nativa das florestas tropicais brasileiras, oferece um exemplo conhecido. De suas folhas é extraída a pilocarpina, utilizada no tratamento do glaucoma e da xerostomia, a secura bucal que pode afetar pacientes submetidos à radioterapia. O paclitaxel, empregado contra diferentes tipos de câncer, foi isolado inicialmente do teixo-do-Pacífico. Outros medicamentos usados contra infecções, hipertensão e doenças cardíacas também surgiram do estudo de plantas, fungos, bactérias e animais. São resultados concretos de uma relação que começou muito antes da indústria moderna e continua presente nos laboratórios mais avançados.
Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Chemistry & Biodiversity reforçou que a biodiversidade ainda constitui uma fronteira decisiva para a descoberta de medicamentos. Novas técnicas de análise, inteligência artificial, biologia molecular e cultivo de microrganismos permitem revisitar substâncias antes descartadas e alcançar organismos que não podiam ser estudados pelos métodos tradicionais. Quanto maior a capacidade científica de investigar a natureza, mais evidente se torna a contradição de destruir os ecossistemas justamente quando a tecnologia amplia as possibilidades de compreender seu potencial.
Um patrimônio que desaparece antes de ser conhecido
Grande parte da biodiversidade do planeta ainda não foi descrita, e uma parcela muito menor foi examinada em busca de propriedades medicinais. Nas florestas tropicais, onde se concentra uma enorme variedade de espécies, o desmatamento avança mais rapidamente do que o trabalho de catalogação e pesquisa. A destruição do habitat pode eliminar populações inteiras e reduzir a diversidade genética mesmo quando a espécie não desaparece por completo. Para a pesquisa farmacêutica, essa redução importa porque indivíduos da mesma espécie podem produzir compostos diferentes conforme sua constituição genética e as condições do ambiente.
A análise da Zero Carbon Analytics calculou que o desmatamento tropical ocorrido desde 2001 já colocou em risco cerca de US$ 86 bilhões em valor comercial associado a futuros medicamentos. A Amazônia ocupa posição central nesse levantamento. Seu potencial farmacêutico foi estimado em aproximadamente US$ 214,7 bilhões, dos quais cerca de US$ 22 bilhões podem ter sido comprometidos pela perda de florestas nas últimas décadas. Esses números não expressam apenas uma oportunidade de mercado. Por trás deles estão tratamentos que poderiam reduzir internações, prolongar vidas e oferecer respostas a doenças para as quais ainda não existem terapias adequadas.
O valor social dos medicamentos que permanecem ocultos nas florestas tropicais foi estimado em cerca de US$ 7 trilhões. Essa dimensão inclui os benefícios produzidos para pacientes, famílias e sistemas de saúde, muito além da receita obtida pelas empresas. Um medicamento eficaz pode evitar anos de sofrimento, reduzir gastos hospitalares, permitir que pessoas retomem suas atividades e continuar beneficiando a sociedade depois do término de sua patente. Por isso, o custo farmacêutico da perda da biodiversidade não pode ser medido somente pelo lucro que deixará de ser obtido. Seu efeito mais grave recai sobre vidas humanas e sobre a capacidade coletiva de enfrentar doenças.
A comparação apresentada nas reportagens da Exame e do ClimaInfo ajuda a compreender a escala do problema. O potencial máximo de US$ 1,2 trilhão é quase cinco vezes superior aos recursos mobilizados mundialmente para conter a pandemia de Covid-19. Durante a emergência sanitária, governos, empresas e instituições científicas concentraram esforços excepcionais na busca de vacinas, medicamentos e estruturas de atendimento. Ao mesmo tempo, a destruição cotidiana das florestas continua eliminando recursos biológicos que poderão ser indispensáveis diante de novas epidemias, do aumento da resistência aos antibióticos e da expansão de doenças crônicas.
A contradição da indústria farmacêutica
Em fevereiro de 2026, a Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) publicou sua avaliação sobre empresas e biodiversidade. O relatório mostrou que todas as atividades econômicas dependem da natureza e também produzem impactos sobre ela. A perda da diversidade biológica já representa um risco para empresas, cadeias produtivas e estabilidade financeira. No setor farmacêutico, essa dependência é particularmente clara, pois a inovação utiliza recursos genéticos e conhecimentos extraídos de ecossistemas que continuam sendo degradados.
Apesar dessa relação direta, a participação das maiores empresas farmacêuticas no financiamento da conservação permanece reduzida. Entre as quinze companhias de maior receita mundial examinadas pela Zero Carbon Analytics, apenas duas informaram investimentos diretos e quantificados especificamente destinados à biodiversidade. O contraste é difícil de ignorar. Um setor que depende de plantas, fungos, microrganismos e informações genéticas investe pouco na proteção dos ambientes que sustentam suas futuras descobertas.
Essa distância não resulta apenas das decisões de cada empresa. O modelo econômico favorece ganhos imediatos e transfere para a sociedade os custos da degradação ambiental. Florestas são derrubadas porque sua conversão em pastagens, lavouras, áreas de mineração ou empreendimentos urbanos produz retorno financeiro rápido. O valor de uma espécie ainda não estudada, de uma molécula desconhecida ou de um medicamento que poderá surgir décadas depois não aparece nas contas de quem decide destruir o ecossistema. O lucro é apropriado no presente, enquanto o prejuízo ambiental, científico e sanitário é distribuído por toda a sociedade e pelas gerações futuras.
O relatório da IPBES de 2026 reforça que compromissos voluntários são insuficientes quando as regras econômicas continuam premiando atividades destrutivas. A indústria farmacêutica precisa assumir responsabilidades compatíveis com sua dependência da biodiversidade, financiando conservação, apoiando pesquisas nos países de origem dos recursos genéticos e reduzindo impactos em suas cadeias produtivas. Também cabe aos governos estabelecer normas que impeçam a apropriação privada dos benefícios enquanto os custos de proteger as florestas permanecem concentrados nos países tropicais e nas comunidades que vivem nesses territórios.
O Brasil entre a riqueza biológica e a dependência tecnológica
A posição brasileira nessa discussão é marcada por uma contradição histórica. O país abriga a maior biodiversidade do planeta e reúne ecossistemas capazes de fornecer substâncias de enorme interesse para a medicina. Entretanto, uma parcela considerável da tecnologia, dos investimentos e das patentes farmacêuticas continua concentrada no exterior. A riqueza biológica, sozinha, não garante que os benefícios científicos, econômicos e sociais permaneçam no país.
Transformar biodiversidade em medicamentos exige pesquisa de longo prazo, laboratórios equipados, coleções biológicas, formação de cientistas e capacidade industrial. Exige também a participação das universidades públicas, dos institutos de pesquisa e das comunidades que conhecem e manejam espécies utilizadas tradicionalmente. Quando esses elementos não são fortalecidos, o país corre o risco de fornecer matéria-prima e informações genéticas, enquanto as etapas mais lucrativas da inovação ocorrem fora de seu território.
A proteção da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, da Caatinga, do Pantanal e do Pampa deve integrar uma política de soberania sanitária e tecnológica. Conservar não significa manter a biodiversidade isolada da sociedade, mas criar condições para seu uso sustentável, para a pesquisa científica e para a distribuição justa dos benefícios. O conhecimento tradicional pode orientar investigações importantes, mas não deve ser apropriado sem reconhecimento e participação das populações que o construíram ao longo de gerações.
O potencial farmacêutico das florestas também mostra por que a destruição ambiental não pode ser justificada como requisito inevitável do desenvolvimento. Ao substituir ecossistemas diversos por atividades de retorno imediato, o país pode eliminar recursos muito mais valiosos do que aqueles obtidos com a derrubada. A escolha não ocorre entre preservar a natureza e promover a economia. O verdadeiro conflito está entre um modelo de exploração de curto prazo e outro capaz de combinar conservação, ciência, saúde pública e desenvolvimento nacional.
Conservar a biodiversidade é proteger a saúde
Se o desmatamento tropical continuar no ritmo observado desde o início do século, novas perdas farmacêuticas se acumularão até 2050. Em sentido contrário, interromper a destruição das florestas até 2030 poderia preservar dezenas de bilhões de dólares em futuros medicamentos. Mais importante do que o valor financeiro é a permanência das possibilidades científicas. Uma floresta conservada pode continuar sendo estudada por diferentes gerações, com técnicas que ainda serão desenvolvidas e perguntas que a ciência ainda não formulou.
A conservação precisa ser acompanhada por fiscalização ambiental, ampliação das áreas protegidas, restauração de ecossistemas, combate às atividades ilegais e financiamento contínuo da pesquisa. Também requer políticas que valorizem povos indígenas e comunidades tradicionais, responsáveis pela proteção de extensos territórios e detentores de conhecimentos fundamentais sobre espécies e ambientes. Sem essas medidas, a biodiversidade continuará sendo tratada como um estoque gratuito, disponível para apropriação privada enquanto existir e abandonado quando sua proteção exigir investimentos.
O custo farmacêutico da perda da biodiversidade revela uma dimensão pouco considerada da crise ambiental. Cada área destruída reduz o campo de pesquisa da medicina e pode afastar respostas para doenças que ainda desafiam a humanidade. Os US$ 1,2 trilhão estimados nas florestas tropicais dão visibilidade econômica a esse patrimônio, mas não encerram seu significado. O que está em jogo é a capacidade de produzir conhecimento, desenvolver tratamentos e preservar vidas. Ao permitir que espécies desapareçam antes de serem conhecidas, a sociedade não perde apenas parte da natureza. Perde também parte de seu próprio futuro.
Fonte: EcoDebate

