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Solví vai transformar lixo de São Paulo em combustível para caminhões da coleta

Solví vai transformar lixo de São Paulo em combustível para caminhões da coleta

Empresa captou R$ 800 milhões via Eco Invest para expandir produção de biometano e substituir frota a diesel

Parte do lixo produzido pela cidade de São Paulo percorre 33 quilômetros pela Rodovia dos Bandeirantes até chegar ao aterro de Caieiras, onde 10 mil toneladas de resíduos são depositadas por dia, o equivalente a 60% de tudo que a capital paulista descarta. Dentro do aterro, esse lixo se decompõe e libera biogás que, desde 2024, é purificado e vendido como biometano para o mercado industrial.

A próxima etapa do plano da Solví, empresa que opera Caieiras e outros 43 aterros pelo Brasil, é usar biometano também para abastecer os caminhões que coletam o lixo de São Paulo, fechando um ciclo em que o lixo se torna o combustível do veículo que o recolhe.

Para isso, a empresa captou R$ 800 milhões via Eco Invest, programa do Tesouro Nacional para atração de capital privado para projetos de transição ecológica. Foram R$ 400 milhões com o Bradesco e outros R$ 400 milhões com o Itaú para ampliar a capacidade do aterro, impermeabilização de compartimentos onde o lixo é depositado, contruir novas plantas de biometano e para um projeto de recuperação energética de resíduos, que deve entrar em operação em 2029.

Já a Loga, sua subsidiária responsável pela coleta de lixo de metade da cidade de São Paulo, tomou um empréstimo do BNDES de R$ 500 milhões. Parte dos recursos serão usados para para substituir a frota movida a diesel por caminhões que rodam a biometano.

A Solví registrou R$ 4,9 bilhões de faturamento em 2025, crescimento de 20% em relação ao ano anterior. A meta para 2030 é dobrar a receita, sustentada por um plano de investimentos de R$ 5 bilhões nos próximos cinco anos.

“Nosso negócio principal são os aterros sanitários. Deles vêm o biogás transformado em biometano, que é para onde estamos olhando”, diz Frederico Guimarães, diretor financeiro da Solví.

Novos negócios

A Solví tem mais de 50 anos e nos últimos anos diversificou os negócios para além da coleta e gestão de resíduos, de olho na transição energética. Hoje, a empresa opera 11 termelétricas a biogás, com capacidade instalada de 60 megawatts, suficiente para abastecer até 30 mil residências.

Em 2024, a empresa adquiriu a Cetrel, responsável pelo tratamento de efluentes do Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia, um negócio com faturamento de R$ 800 milhões e que opera exclusivamente para a indústria química.

Mas o que melhor representa a ambição da empresa com a transição energética é o biometano, gás renovável produzido a partir de resíduos orgânicos que substitui o gás natural, um combustível de origem fóssil. O Brasil produz 600 mil metros cúbicos desse gás por dia – e dois terços vêm dos aterros sanitários.

A Solví opera hoje três plantas de biometano: em Caieiras (SP), em Minas do Leão (RS) e em São Leopoldo (RS), esta última recém-concluída. Em 2025, as duas primeiras geraram R$ 150 milhões em receita.

É pouco mais de 3% do faturamento do grupo. Mas o potencial de expansão é expressivo. Dos 44 aterros operados pela Solví, 13 têm escala suficiente para viabilizar economicamente uma planta de biometano. “Temos 10 plantas para serem construídas. Essa, sem dúvida, é uma das principais avenidas de crescimento do grupo”, diz Guimarães.

A ponta que fecha esse ciclo é a Loga, concessionária da coleta de São Paulo desde 2004. Em 2024, o contrato foi renovado por mais 20 anos, com uma série de investimentos previstos.

Um deles é a substituição gradual da frota de caminhões a diesel por veículos movidos a gás de origem renovável. “Nossa meta é que a frota da Loga seja 100% movida a biometano produzido em Caieiras”, diz Guimarães.

O resultado, quando implementado, será um circuito completo de economia circular: o lixo de São Paulo vai para Caieiras, gera biogás, que é purificado e se torna biometano, que abastece os caminhões que coletam o lixo de São Paulo.

Financiamento

A parte do Bradesco na operação do Eco Invest (R$ 400 milhões) foi estruturada pelo Bradesco BBI por meio de uma emissão de debêntures verdes. Os títulos têm prazo de 10 anos e remuneração de DI + 1,70% ao ano. A emissão foi feita pela Solví Essencis, subsidiária onde os projetos estão alocados, com fiança da Solví Participações, a holding do grupo.

A consultoria ERM emitiu um relatório de segunda opinião independente atestando o alinhamento dos projetos aos requisitos do programa e às normas da Associação Internacional do Mercado de Capitais (ICMA, na sigla em inglês), que define os padrões globais para títulos verdes. O Bradesco também realizou visitas técnicas ao aterro de Caieiras.

Na debênture verde da Solví, descumprimentos geram vencimento antecipado da dívida. O principal gatilho é o desvio de finalidade: se os recursos forem usados para algo diferente dos descritos no contrato. A falha na entrega de relatórios e indicadores ambientais no prazo também pode disparar o vencimento.

“Pela natureza do negócio, a Solví tem uma elegibilidade natural. A mesma operação trata resíduos, captura biogás, produz biometano. É, intrinsecamente, tudo o que o Eco Invest quer fomentar”, avalia Caio Andrade, responsável pela área de ESG do Bradesco BBI.

O aterro de Marituba

Uma das operações da Solví tem um histórico de problemas ambientais e sociais. O aterro de Marituba, na região metropolitana de Belém, no Pará, foi inaugurado em 2015, como substituto do lixão do Aurá, em Ananindeua. Desde o início, moradores da região relataram problemas com o mau cheiro, que piorava em períodos de chuvas fortes, comuns na região, e acusavam aumento de doenças e contaminação de igarapés.

A empresa tem licenças de operação amparadas por uma série de prorrogações judiciais. A mais recente, assinada pelo Tribunal de Justiça do Pará, autoriza o funcionamento até junho de 2027.

O mesmo tribunal chegou a condenar a Guamá Tratamento de Resíduos, subsidiária da Solví que opera o aterro, a uma multa de R$ 2 milhões por “atividades lesivas ao meio ambiente e não cumprimento de obrigações legais”. Mas a punição nunca chegou a ser efetivada: o processo se arrastou além do prazo legal e a Justiça do Pará extinguiu a punibilidade por prescrição intercorrente.

Segundo Ângelo Marcelo, líder comunitário do bairro Albatroz, nos arredores do aterro, as coisas não mudaram muito desde então. “Há um descaso por parte da empresa e há muito tempo não vemos nenhum tipo de atuação aqui nas comunidades”, diz.

A empresa diz que trata com seriedade todas as manifestações das comunidades do entorno e mantém medidas permanentes de prevenção, controle e monitoramento ambiental, como sistemas de impermeabilização e cobertura do solo, drenagem e tratamento de chorume, monitoramento ambiental, barreira vegetal e captação do biogás para aproveitamento energético e controle das emissões atmosféricas.

Como resultado, as manifestações recebidas pelo canal oficial “Alô, Guamá” caíram cerca de 90% nos últimos quatro anos, segundo a Solví. As mensagens recebidas são monitoradas pelo Ministério Público do Pará e respondidas em até 72 horas.

Fonte: Reset


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