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Dessalinização é alternativa para combater a crise hídrica

Aproveitamento da água da chuva, reúso, construções sustentáveis, dessalinização e despoluição são algumas das medidas possíveis para que a falta d’água não se torne rotina

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O Espírito Santo viveu a pior seca dos últimos 40 ano sem 2015. A estiagem, que durou mais de 60 dias, preocupou os capixabas e levou o governo a declarar a existência de “cenário de alerta”. As consequências da falta de chuvas foram desde o fechamento temporário da hidrelétrica em Santa Maria de Jetibá, na região serrana; racionamento de água em diversos municípios e até a redução da programação do carnaval em diversas cidades do interior do Espírito Santo.

A estiagem foi sentida com mais intensidade principalmente no norte do Espírito Santo, onde foi registrado períodos com baixa pluviosidade desde a década de 50. No entanto, a gravidade da seca atual trouxe efeitos inéditos até mesmo para a Grande Vitória, com prejuízos ao leito do rio Jucu em Vila Velha (que teve seu curso interrompido pela primeira vez em 30 anos) e ao rio Santa Maria da Vitória, responsável por mais de 30% do abastecimento da Região Metropolitana da Grande Vitória.

Além disso, com a seca e o calor, o prejuízo no campo chegou a R$ 1,4 bilhão. As lavouras de café foram as mais prejudicadas. De acordo com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), em todo o estado, as perdas nas lavouras de café variaram de 20% a 32%; na produção de leite, entre 23% e 28%; e na fruticultura, entre 20% e 30%. Isso representou perda de cerca de R$ 960 milhões na cafeicultura, R$ 300 milhões na fruticultura e R$ 130,7 milhões na pecuária de leite.

Segundo Luiz Fernando Schettino, professor de Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), demorou a se pensar na crise hídrica como prioridade. “A construção de barragens é importante para ganhar tempo até que a cobertura florestal seja feita. Mas é preciso fiscalização e conscientização para impedir, por exemplo, a técnica de irrigação inadequada. Do mesmo modo, é de suma importância que as indústrias invista em técnicas, como o reúso e a captação de água das chuvas”, pontuou o professor.


LEIA NA ÍNTEGRA: ESPECIALISTA EXPLICA OS EFEITOS DA REGULARIZAÇÃO DA ÁGUA DO MAR DESSALINIZADA.


Dessalinização 

Dados da Agência Nacional de Águas (ANA) mostram que a demanda por uso de água no Brasil deve aumentar em 30% até 2030. Isso não é ficção. Para que o país não passe por crises hídricas no futuro, pesquisadores, empresas e órgãos públicos buscam soluções para evitar o desperdício. Aproveitamento da água da chuva, reúso, construções sustentáveis, dessalinização e despoluição são algumas das medidas possíveis para que a falta não se torne rotina.

A água, em si, está longe de ser um bem escasso – cerca de 70% da superfície terrestre é coberta por H2O e há, ainda, grande quantidade do líquido em aquíferos e mananciais subterrâneos. O que falta é água potável para consumo humano – apenas 0,92% da água terrestre está disponível para nosso uso – e para alimentar a indústria e a agricultura, que é responsável por 70% do consumo de água na Terra.

A solução parece simples: por que, então, não tornar potável esse imenso volume de água hoje salgada e imprópria para consumo?

“Dessalinização e reutilização de água são soluções de abastecimento de água não convencionais, ambientalmente corretas, e estão em linha com a economia circular de água, além de oferecerem uma solução para a escassez hídrica”, afirma o professor Luiz Fernando Schettino.

O especialista lembra que há risco de contaminação ambiental pelos rejeitos do processo de dessalinização.

“Esta também não é uma alternativa barata, principalmente por necessitar de grande quantidade de energia. Diante do alto custo, ela só é indicada em locais onde fontes de água doce são realmente escassas”, pondera.

Dentre as técnicas disponíveis para a dessalinização, destacam-se a osmose inversa, destilação multiestágios, dessalinização térmica e congelamento. O processo da dessalinização por osmose inversa, na qual a água passa por membranas filtrantes, é responsável, por exemplo, pelo abastecimento de água no Arquipélago de Fernando de Noronha há mais de uma década.

Pioneirismo no Espírito Santo

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No Brasil, o Programa Água Doce (PAD), do Ministério do Meio Ambiente (MMA), investe em sistemas de dessalinização para oferecer água com qualidade a populações de baixa renda em comunidades do semiárido. Segundo a Associação Internacional de Dessalinização (IDA), o tratamento já é utilizado em 150 países, como Austrália, Estados Unidos, Espanha e Japão.

No Espírito Santo, o projeto de dessalinização da água do mar, lançado pela ArcelorMittal Tubarão, rendeu à empresa o prêmio “Projeto Inovador” durante o Congresso IDA – International Desalination Association. Este, que é o principal evento mundial de dessalinização e tratamento avançado do mundo, foi realizado em outubro deste ano, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

A ideia de implantar o projeto veio durante a seca que o Espírito Santo enfrentou. A estrutura vai custar cerca de R$ 50 milhões e vai gerar mais de 220 novos postos de trabalho. A planta de tratamento de água do mar em grande escala da produtora de aço capixaba terá as obras de implantação iniciadas no primeiro semestre do ano que vem, com previsão de conclusão até 2021. O sistema de dessalinização da água do mar será instalado na usina, em Serra, com capacidade para produzir até 500m³/h de água industrial para uso nos seus processos operacionais.

O sistema de dessalinização a ser implantado na ArcelorMittal Tubarão prevê captação da água do mar e sua transformação em água industrial por meio do processo de osmose reversa, tecnologia consagrada e aplicada em países como Israel, Espanha, Austrália, Argentina e Estados Unidos. A solução de sal em água resultante do processo de dessalinização, a chamada salmoura, será devolvida ao mar por um canal de retorno já existente na usina.

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Além de reduzir a demanda de água do Rio Santa Maria da Vitória, um dos principais mananciais que abastece, hoje, parte dos municípios da Grande Vitória, a fonte alternativa de água garantirá maior segurança para a própria empresa, diante de eventuais cenários de escassez hídrica no futuro.

Atualmente, a ArcelorMittal Tubarão utiliza água doce do Rio Santa Maria da Vitória, distribuída pela Cesan, representando 3,5% de água consumida na empresa. Além disso, 97,8% são reutilizados internamente.

Com o processo de dessalinização serão gastos cerca de 3MW de energia elétrica, produzida pela própria ArcelorMittal Tubarão, que é autossuficiente. Isso representa menos de 1% da sua geração total de energia.

Gestão Hídrica

Considerada referência em gestão hídrica no Espírito Santo, a ArcelorMittal Tubarão conta com um sistema que permite que cerca de 96,5% da água utilizada pela unidade sejam captadas do mar. Os 3,5% restantes são fornecidos pela Cesan, mas a tendência é que esse percentual se reduza cada vez mais.

A empresa também tem desenvolvido uma série de iniciativas alinhadas à estratégia governamental e o Plano Estadual de Recursos Hídricos: iniciou a operação de quatro novos poços de águas subterrâneas; e ampliou o aproveitamento da água proveniente da Estação de Tratamento de Água de Reúso interna.

Também está realizando um Projeto de Recuperação de Nascentes da Bacia do Santa Maria da Vitória, em parceria com o Comitê de Bacia do Santa Maria da Vitória, Incaper, Seama, Ministério Público Estadual e da Região de Santa Leopoldina, e Prefeitura de Santa Leopoldina. O projeto busca estudar as melhores técnicas de recuperação de nascentes e realizar o cercamento de 55 nascentes na região de Crubixá, em Santa Leopoldina.

Fonte: Folha Vitória.