BIBLIOTECA

Quatro décadas de regulação ambiental para indústrias o que melhorou e o que de fato mudou

Quatro décadas de regulação ambiental para indústrias: o que melhorou e o que de fato mudou?

De uma resolução pioneira nos anos 1980 à nova Lei Geral de Licenciamento de 2025, o Brasil construiu um dos marcos regulatórios mais exigentes do mundo para efluentes industriais. Ainda assim, o setor que mais cresceu é também o que mais enfrenta dificuldades para se adaptar

De uma resolução pioneira nos anos 1980 à nova Lei Geral de Licenciamento de 2025, o Brasil construiu um dos marcos regulatórios mais exigentes do mundo para efluentes industriais. Ainda assim, o setor que mais cresceu é também o que mais enfrenta dificuldades para se adaptar

Em 1986, o Brasil publicou sua primeira norma nacional para controle de efluentes industriais. A Resolução CONAMA nº 20 foi pioneira: pela primeira vez, os corpos hídricos do país passaram a ser classificados e a ter condições mínimas estabelecidas para o descarte de resíduos líquidos por atividades produtivas. Ao longo dos anos, a legislação tornou-se cada vez mais restritiva. A Lei de Crimes Ambientais, de 1998, transformou o descarte irregular de efluentes em infração passível de multa administrativa de até R$ 50 milhões, além de obrigação de reparação civil e processo criminal, em três esferas paralelas.

Em 2005 e 2011, as Resoluções CONAMA 357 e 430 transformaram o que antes era uma obrigação genérica, em exigências técnicas para o controle de parâmetros como óleos e graxas, nitrogênio e fósforo, substâncias comuns nos efluentes da indústria alimentícia. As regras também aceleraram mudanças internas nas empresas: monitoramento contínuo, rastreabilidade operacional e maior profissionalização das áreas ambientais passaram a integrar a rotina de grandes indústrias e exportadoras.

O “Atlas Esgotos” da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico – ANA revela que mais de 110 mil km de rios brasileiros têm a qualidade comprometida por excesso de carga orgânica, e que apenas 39% do que é gerado diariamente no país  (9,1 mil t) é removido antes do lançamento nos corpos d’água. Isso explica por que a legislação ambiental evoluiu mais rápido do que a infraestrutura instalada para cumpri-la. Estações de tratamento de efluentes projetadas há 20 ou 30 anos foram dimensionadas para cumprir normas muito menos exigentes do que as vigentes e para volumes de produção muito menores. O sistema de tratamento de efluentes se tornou obsoleto,  as regras ficaram mais rígidas e a produção continuou crescendo.

Na indústria de alimentos, essa pressão é ainda mais evidente. O setor faturou R$ 1,388 trilhão em 2025 e se consolidou como o maior exportador mundial de alimentos industrializados em volume, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos – ABIA.

A resposta tradicional para esse contexto sempre foi a expansão física: novos tanques e novas linhas de tratamento. Mas esse modelo exige investimentos altos, prazos longos e intervenções em operações que não podem parar. A modernização tecnológica ganha espaço com tecnologias de intensificação biológica, automação e ganho de eficiência que ampliam a capacidade de tratamento sem aumentar a área física das plantas.

Com a Lei Geral do Licenciamento Ambiental em vigor e os estados regulamentando normas complementares, o desafio já não é entender a legislação, mas conseguir acompanhar tecnicamente o que ela exige.

“O Brasil tem legislação de primeiro mundo e tecnologia disponível para atender aos requisitos mais exigentes de lançamento de efluentes. Porém, muitas plantas de tratamento não acompanharam essa evolução e, com isso, quem paga a conta é o meio ambiente, a empresa e a sociedade. Não faz sentido uma legislação tão restritiva, se 39% da carga orgânica ainda chega aos rios sem tratamento adequado”, afirma a Dra. Paula Vilela, diretora técnica da ChartWater na América do Sul.

“A regulação criou o caminho. Agora é questão de percorrê-lo”, conclui a Dra.


ÚLTIMOS ARTIGOS:

CATEGORIAS

Confira abaixo os principais artigos da semana

Abastecimento de Água

Análise de Água

Aquecimento global

Bacias Hidrográficas

Biochemie

Biocombustíveis

Bioenergia

Bioquímica

Caldeira

Desmineralização e Dessalinização

Dessalinização

Drenagem Urbana

E-book

Energia

Energias Renováveis

Equipamentos

Hidrografia / Hidrologia

Legislação

Material Hidráulico e Sistemas de Recalque

Meio Ambiente

Membranas Filtrantes

Metodologias de Análises

Microplásticos

Mineração

Mudanças climáticas

Osmose Reversa

Outros

Papel e Celulose

Peneiramento

Projeto e Consultoria

Reciclagem

Recursos Hídricos

Resíduos Industriais

Resíduos Sólidos

Reúso de Água

Reúso de Efluentes

Saneamento

Sustentabilidade

Tecnologia

Tratamento de Água

Tratamento de Águas Residuais Tratamento de águas residuais

Tratamento de Chorume

Tratamento de Efluentes

Tratamento de Esgoto

Tratamento de lixiviado

Zeólitas

ÚLTIMAS NOTÍCIAS