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PFAS na água riscos à saúde, panorama regulatório e desafios para o setor de saneamento

PFAS na água: riscos à saúde, panorama regulatório e desafios para o setor de saneamento

As substâncias per e polifluoroalquiladas, conhecidas pela sigla PFAS, estão entre os contaminantes emergentes que mais preocupam autoridades ambientais, pesquisadores e profissionais do setor de saneamento.

Frequentemente chamados de “químicos eternos”, esses compostos apresentam elevada persistência ambiental e podem permanecer por longos períodos no solo, na água e nos organismos vivos.

A preocupação cresce à medida que estudos científicos associam a exposição a determinados PFAS a efeitos sobre o sistema imunológico, metabolismo, funções hepática e renal, desenvolvimento fetal e infantil e, no caso de alguns compostos, risco de câncer.

Ao mesmo tempo, o cenário regulatório internacional passa por mudanças importantes. Enquanto Estados Unidos e União Europeia adotam estratégias distintas para estabelecer limites e reduzir a exposição, o Brasil ainda não possui um valor máximo permitido específico para PFAS na água destinada ao consumo humano.

Para o setor de saneamento, esse cenário representa um desafio técnico e regulatório: como gerenciar um contaminante que pode estar presente nos mananciais, mas que ainda não possui um limite nacional específico de potabilidade?

O que são PFAS?

PFAS é o termo utilizado para designar uma grande família de compostos químicos sintéticos. Essas substâncias são utilizadas desde a década de 1940 em diferentes aplicações industriais e produtos de consumo, incluindo revestimentos antiaderentes, embalagens para alimentos, tecidos impermeáveis, espumas de combate a incêndio e processos industriais.

Uma das principais características dos PFAS é a presença de ligações carbono-flúor extremamente estáveis. Essa estabilidade confere aos compostos elevada resistência à degradação, característica que explica tanto sua utilidade industrial quanto sua persistência ambiental.

Quando liberados no ambiente, determinados PFAS podem atingir águas superficiais e subterrâneas, deslocar-se por sistemas hídricos e chegar a áreas de captação utilizadas para abastecimento público.

Para os sistemas de tratamento de água, portanto, a presença dessas substâncias exige atenção desde a avaliação do manancial até a definição das estratégias de monitoramento e tratamento.

Por que os PFAS são um desafio para o tratamento de água?

Os processos convencionais empregados em sistemas de abastecimento — como coagulação, floculação, sedimentação, filtração e desinfecção — não foram projetados especificamente para a remoção de PFAS.

Isso significa que a simples aplicação de uma sequência convencional de tratamento não necessariamente garante a eliminação desses compostos.

Entre as tecnologias que podem ser empregadas para a remoção de determinados PFAS estão:

  • carvão ativado granular (CAG);
  • carvão ativado em pó (CAP);
  • resinas de troca iônica;
  • processos de separação por membranas, como a osmose reversa.

A eficiência, entretanto, depende de diversos fatores, incluindo o tipo de PFAS presente, suas características químicas, concentração, matriz da água, tempo de contato e condições operacionais do sistema.

Por isso, a identificação da contaminação e a caracterização do manancial são etapas fundamentais antes da escolha da tecnologia de tratamento.

Riscos à saúde associados à exposição

A avaliação dos efeitos dos PFAS sobre a saúde humana avançou significativamente nos últimos anos. Estudos epidemiológicos e toxicológicos relacionam a exposição prolongada a determinados compostos da família, especialmente PFOA e PFOS, a diferentes efeitos adversos.

Entre os principais efeitos investigados estão alterações no sistema imunológico, metabolismo lipídico, sistema endócrino e funções hepática e renal.

Também existem evidências relacionadas ao desenvolvimento fetal e infantil e à ocorrência de determinados tipos de câncer.

O PFOA, por exemplo, foi classificado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) como carcinogênico para humanos, enquanto o PFOS foi classificado como possivelmente carcinogênico.

Outro aspecto importante é a persistência de alguns PFAS no organismo humano. Compostos como PFOA e PFOS apresentam elevada persistência biológica, fazendo com que exposições repetidas, mesmo em concentrações relativamente baixas, possam contribuir para a acumulação ao longo do tempo.

Panorama regulatório internacional

A regulamentação dos PFAS varia significativamente entre países e blocos econômicos.

Nos Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) publicou, em 2024, uma regra nacional estabelecendo limites máximos de contaminantes para determinados PFAS na água potável. Entre os parâmetros estabelecidos estavam limites de 4 partes por trilhão (ppt) para PFOA e PFOS.

Entretanto, o cenário regulatório norte-americano passou a ser marcado por disputas judiciais e propostas de alteração da regulamentação, demonstrando como decisões relacionadas aos PFAS podem sofrer influência de mudanças políticas, avaliações técnicas e processos judiciais.

Na União Europeia, a abordagem segue uma direção diferente. A Diretiva (UE) 2020/2184 estabelece parâmetros para PFAS na água destinada ao consumo humano, utilizando uma abordagem preventiva e considerando também a necessidade de reduzir a presença dessas substâncias ao longo das cadeias produtivas.

O Canadá também estabeleceu um valor de referência para a soma de diferentes PFAS, enquanto a Austrália e o Japão vêm atualizando suas respectivas diretrizes e estratégias de gerenciamento.

Esse movimento internacional demonstra que os PFAS deixaram de ser tratados exclusivamente como contaminantes industriais e passaram a integrar de maneira mais ampla as políticas de segurança da água.

E como está o Brasil?

No Brasil, a Portaria GM/MS nº 888/2021, que estabelece os procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade, ainda não estabelece um valor máximo permitido específico para PFAS.

Essa ausência de um parâmetro nacional não significa, entretanto, que a presença desses compostos deva ser ignorada.

Para operadores de sistemas de abastecimento, indústrias e órgãos responsáveis pela gestão dos recursos hídricos, o avanço das pesquisas e das regulamentações internacionais representa um sinal de que o monitoramento preventivo pode se tornar cada vez mais importante.

A identificação de possíveis fontes de PFAS na bacia hidrográfica é uma das primeiras medidas que podem contribuir para a avaliação do risco.

Entre as áreas que merecem atenção estão locais com histórico de atividades industriais, aeroportos e instalações onde foram utilizadas espumas formadoras de filme aquoso, conhecidas como AFFF, além de determinadas áreas de disposição de resíduos.

Monitoramento deve fazer parte da gestão de risco

Na ausência de um limite nacional específico, o monitoramento pode funcionar como uma ferramenta de antecipação.

A estratégia deve considerar não apenas a análise da água tratada, mas também o histórico e as características do manancial, as potenciais fontes de contaminação e a possibilidade de variações temporais nas concentrações.

A definição de um programa analítico adequado é especialmente importante porque os PFAS constituem uma família extensa de compostos. A escolha dos parâmetros a serem analisados deve estar alinhada aos objetivos da investigação, às características da área e à capacidade analítica disponível.

Nesse contexto, o acompanhamento dos avanços regulatórios internacionais também pode contribuir para orientar programas preventivos no Brasil.

Tecnologias de remoção: carvão ativado, resinas e membranas

Quando a presença de PFAS é confirmada e a remoção se torna necessária, a seleção tecnológica deve considerar as características específicas da água e dos contaminantes identificados.

O carvão ativado é uma das alternativas utilizadas para determinados PFAS. Tanto o carvão ativado granular quanto o carvão ativado em pó podem ser empregados, embora apresentem diferentes configurações operacionais e mecanismos de aplicação.

As resinas de troca iônica também podem apresentar elevada eficiência para determinados compostos e condições de tratamento.

Já a osmose reversa utiliza membranas capazes de proporcionar elevada rejeição de diversos contaminantes, sendo uma alternativa relevante em determinadas aplicações. Entretanto, assim como ocorre com outras tecnologias, sua implantação envolve avaliação de custos, consumo energético, geração de concentrado e necessidade de gerenciamento dos rejeitos.

Portanto, não existe uma solução universal. A escolha deve ser realizada a partir da caracterização da água, do perfil dos contaminantes e dos objetivos de tratamento.

O desafio vai além da tecnologia

O problema dos PFAS não se resume à capacidade de removê-los da água.

Uma estratégia efetiva envolve prevenção, identificação das fontes, monitoramento, avaliação de risco e tratamento, quando necessário.

Essa abordagem é particularmente importante porque uma tecnologia instalada na estação de tratamento pode reduzir a concentração dos contaminantes na água de abastecimento, mas não necessariamente elimina a fonte de contaminação existente no ambiente.

Para o setor de saneamento, isso reforça a importância da integração entre gestão de recursos hídricos, controle de fontes de poluição e tratamento de água.

O que o setor de saneamento deve observar?

Mesmo sem um limite máximo permitido nacional específico, alguns pontos podem ser incorporados à gestão preventiva de sistemas potencialmente expostos aos PFAS:

1. Identificação de fontes potenciais

Mapear atividades industriais, áreas de disposição de resíduos, aeroportos e locais com histórico de utilização de espumas de combate a incêndio.

2. Monitoramento

Avaliar a necessidade de análises específicas em mananciais e sistemas de abastecimento que apresentem risco potencial de exposição.

3. Caracterização do contaminante

Identificar quais PFAS estão presentes e em quais concentrações antes de definir uma estratégia de remoção.

4. Avaliação tecnológica

Comparar carvão ativado, resinas de troca iônica, osmose reversa e outras alternativas considerando eficiência, custos operacionais, geração de resíduos e características da água.

5. Acompanhamento regulatório

Monitorar as mudanças nas normas internacionais e brasileiras, especialmente aquelas relacionadas à qualidade da água potável e à restrição do uso de PFAS.

O que esperar dos próximos anos?

O debate sobre PFAS deve continuar avançando à medida que novos estudos toxicológicos, métodos analíticos e tecnologias de tratamento sejam desenvolvidos.

A tendência internacional indica maior atenção não apenas aos compostos individualmente, mas também à presença de múltiplos PFAS e à necessidade de reduzir a exposição da população.

Para o Brasil, a discussão tende a ganhar relevância à medida que órgãos reguladores, empresas de saneamento, indústrias e instituições de pesquisa ampliem o conhecimento sobre a ocorrência desses contaminantes nos recursos hídricos nacionais.

Nesse cenário, esperar exclusivamente por uma regulamentação específica pode significar perder oportunidades de prevenção.

Para o setor de saneamento, o caminho mais estratégico é tratar os PFAS como um risco emergente que já pode ser investigado, monitorado e tecnicamente gerenciado, mesmo antes da definição de um padrão nacional específico de potabilidade.

A segurança da água depende não apenas de cumprir limites regulatórios, mas também da capacidade de antecipar riscos, compreender as características dos contaminantes e selecionar soluções de tratamento adequadas para cada realidade.

Fonte: elaborado por Portal Tratamento de Água com auxílio de IA.


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