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A IA vai disputar água com agricultura irrigada. Como evitar problemas

A IA vai disputar água com agricultura irrigada. Como evitar problemas?

A IA vai disputar água com agricultura irrigada. Como evitar problemas?

Novos data centers precisam contemplar custos com recuperação de nascentes, controle de erosão e investimentos nas comunidades para evitar passivos futuros

A expansão dos data centers e da inteligência artificial traz o setor de tecnologia para disputar as mesmas bacias hidrográficas da agricultura irrigada.

Por isso, a recuperação de nascentes e o controle da erosão precisam entrar no orçamento dos projetos, e não apenas em seus relatórios de sustentabilidade.

Na agricultura, há dois tempos. O produtor de culturas perenes investe no preparo do solo, na formação do trabalho, na água e na infraestrutura, e espera anos pelo retorno. Já nas culturas anuais, o ciclo entre plantio e venda é mais curto.

Por muito tempo, o setor de tecnologia se apresentou como parte do segundo grupo: crescimento rápido, poucos ativos financeiros e margens escaláveis. A inteligência artificial muda essa lógica.

A computação em nuvem tem endereços, demanda terrestre, linhas de transmissão, equipamentos, minerais críticos, sistemas de resfriamento e água.

Financiar IA passou a financiar significativamente a infraestrutura de longo prazo, sujeita a riscos locais, disponibilidade de recursos e possibilidades sociais. É uma atividade mais próxima do primeiro relógio da agricultura.

No Brasil, a expansão ocorrerá principalmente por uma razão doméstica: o país ainda processa no exterior parte relevante dos dados que consome internamente. Estimativas de mercado indicam que entre 50% e 60% da carga de computação em nuvem usada por empresas brasileiras roda em servidores fora do País. Para atender à demanda local, a capacidade instalada teria de passar de cerca de 700 MW para aproximadamente 2.500 MW.

A questão, portanto, não é que haja novos data centers, mas sob quais condições eles serão construídos.

No primeiro semestre de 2026, o Brasil alcançou 706 MW de capacidade instalada, após adicionar 106 MW em seis meses. Outros 660 MW estiveram em construção, segundo dados da JLL, empresa especialista em dados da área imobiliária.

A carteira de projetos é ainda maior: os pedidos em análise no Ministério de Minas e Energia passaram de 19,8 GW, em setembro de 2025, para 26,2 GW em novembro, conforme dados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Nem todos saemão do papel, mas a escalada da demanda exige planejamento.

Hoje, os data centers ainda têm participação pequena no consumo de água do País. A Brasscom, entidade que representa os data centers no Brasil, estima que o setor respondeu por 0,003% do uso consuntivo nacional em 2022, cerca de 2 bilhões de litros. A agricultura irrigada representou 53% e o abastecimento humano, 24%.

Expansão para o Cerrado

A mídia nacional, porém, diz um pouco sobre o risco. Água é um recurso local: está em uma bacia, depende de um manancial, de uma estação do ano e de uma outorga. O ponto central não é apenas o volume consumido pelo setor, mas sua participação no balanço hídrico de cada território.

Campinas, São Paulo e Barueri concentram hoje 585 MW, mais da metade da capacidade operacional brasileira. Na próxima semana tenderemos a buscar terras mais baratas, subestações disponíveis e energia contratável. No Brasil, isso deve direcionar parte dos investimentos ao interior e ao Cerrado, onde a agricultura irrigada se consolidou nas últimas décadas.

O consumo direto de água de um data center pode ser otimizado, mas sua dependência da hidrologia local é total. Um contrato de energia renovável de longo prazo no Cerrado depende, em última instância, do regime de chuvas e da segurança hídrica da bacia.

Isso exige uma mudança contábil, não apenas de discursos. O capital natural precisa compor o custo do produto. Assim como uma saca de café incorpora apenas, água e infraestrutura de conservação, um token de IA incorpora uma bacia que sustenta a operação. Quando esse custo não aparece na estrutura financeira, ele se transforma em passivo futuro.

Incentivos fiscais

O ReData, regime tributário especial para data centers aprovado pelo Senado em 1º de setembro de 2026, prevê cerca de R$ 5,2 bilhões em desoneração no primeiro ano e aproximadamente R$ 1 bilhão anual nos dois anos seguintes. Em contrapartida, exige que ao menos 10% do processamento seja destinado ao mercado interno, percentual de 8% para projetos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

A legislação também estabelece Índice de Eficiência Hídrica de até 0,05 litro de água por kWh no resfriamento dos equipamentos. É uma regra importante, mas limitada ao consumo dentro da operação. Ela não mede o que o empreendimento faz para proteger, recuperar ou aumentar a resiliência do manancial que o abastece.

O País ofereceu incentivos fiscais e metas de processamento local e eficiência. Faltou integrar a segurança hídrica da bacia ao desenho dos projetos. Sem isso, o risco reaparece mais à frente como disputa por outorga, conflito de uso, judicialização e custo financeiro.

Compensações

Uma alternativa é a inserção hídrica: investimentos na recuperação e na resiliência da mesma bacia onde a empresa capta água, opera ou contrata energia. Diferentemente da compensação genérica, esse modelo regular que água não é uma mercadoria intercambiável. Recuperar um volume em outra região não resolve uma estimativa no Cerrado.

A eficiência continua sendo a primeira camada: reduzir o consumo, ampliar o consumo, escolher sistemas de eficiência adequados e divulgar indicadores como o WUE (Water Usage Effectiveness). Mas, em bacias sob pressão, isso não é suficiente. É preciso investir também no controle de perdas urbanas, aproveitamento de efluentes, eficiência de transparência, proteção de nascentes, conservação do solo, recuperação de matas ciliares e áreas úmidas.

Não é possível prometer que cada hectare restaurado produzirá um determinado volume de água: os efeitos variam conforme solo, cobertura vegetal, clima e localização na bacia. Iniciativas consistentes precisam de linha de base, monitoramento e verificação independente, com padrões reconhecidos, como o VWBA (Contabilidade Volumétrica de Benefícios Hídricos ou Contabilidade Volumétrica de Benefícios Hídricos).

Os ganhos mensuráveis podem incluir menor carga de sedimentos, melhoria da qualidade da água, maior infiltração, recarga em áreas adequadas e mais resiliência durante períodos de estiagem.

Onde fica o produtor?

O produtor rural é parte central dessa pesquisa. É ele quem mantém terra, nascentes, mata ciliar e só nas áreas a montante. Um programa bem estruturado pode transformar a conservação, hoje frequentemente tratado apenas como obrigações regulatórias, em contrato de prestação de serviços hidrológicos, com receita previsível, prazo e uma contraparte capitalizada.

Para o produtor, é uma fonte de renda em áreas que não geram receitas. Para a empresa de tecnologia, é uma forma de reduzir o risco que ameaça ativos de longo prazo: indisponibilidade de água, energia ou licença para operar.

Os instrumentos já existem: comitês e agências de bacia, cobrança pelo uso da água, a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais e programas regionais, como o Programa Café Produtor de Água, em Araguari, através da parceria da COOCACER e do CNC – Conselho Nacional do Café. O desafio é dar escala, estrutura financeira e previsibilidade a esses mecanismos.

O momento de definir a contrapartida é durante o licenciamento e a outorga. O investimento do empreendimento no plano de bacia precisa ter metas, prazo e verificação, pactuados no comitê de bacia e não negociados caso a caso depois que a obra começa.

A diferença é econômica. Uma contrapartida prevista em regra é um custo de capital que pode ser calculado e financiado. Uma exigência negociada do projeto vira risco regulatório, que o investidor precifica ou evita.

O produtor rural conhece essa lógica. Comprar terra não basta: é preciso planejado de forma planejada, energia, estradas, armazenamento e conservação do solo antes de colher a primeira safra.

A infraestrutura de IA exige o mesmo horizonte. O investimento não pode terminar no portão do data center. Ele precisa incluir a água, o solo, o plantio e a qualidade ambiental da bacia que permite a operação.

O Brasil precisará ampliar sua capacidade de processamento de dados. Ainda há tempo para decidir se essa expansão será construída sobre um território conhecido e preparado, ou se os riscos serão tratados apenas quando houver deficiências e conflitos como ocorridos em outras partes do mundo.

Fonte: TheAgriBiz


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