Brasil ganha espaço na disputa internacional por minerais estratégicos, enquanto Senado aprova política para o setor e BNDES financia centro de processamento em Minas Gerais
O BNDES acaba de aprovar um investimento de R$ 77,5 milhões para um centro de terras raras em Poços de Caldas (MG). A notícia veio poucos dias após o Senado aprovar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. À primeira vista, podem parecer decisões restritas ao setor de mineração. Mas elas fazem parte de uma disputa muito maior.
As chamadas terras raras e os minerais críticos são essenciais em inúmeras inovações tecnológicas. De chips avançados (necessários para o desenvolvimento de IAs) a carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares. Por isso, controlar o acesso a esses recursos se tornou uma questão de grande valor geopolítico no cenário internacional contemporâneo, sobretudo em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.
O Brasil possui as segundas maiores reservas conhecidas de minerais críticos do mundo. Porém, ainda explora pouco esse potencial. Isso torna o país um alvo do interesse estadunidense para garantir acesso privilegiado a esses recursos. A disputa pelas terras raras envolve quem terá acesso às tecnologias do futuro, quem controlará partes estratégicas das cadeias industriais e quem ficará com os benefícios e os impactos dessa nova corrida mineral.
A disputa entre Estados Unidos e China
O mercado de minerais críticos hoje é extremamente concentrado na China, que é responsável por cerca de 90% do processamento desses minerais e possui as maiores reservas conhecidas. Há um esforço do governo americano em reduzir sua dependência econômica em relação aos chineses. Portanto, assegurar acesso a fontes alternativas de minerais críticos tornou-se um interesse vital para os Estados Unidos. Nesse cenário, a possibilidade de explorar as grandes reservas do Brasil têm despontado como uma alternativa valiosa nesse contexto geopolítico.
Não é à toa que a Estratégia Nacional de Defesa dos EUA afirma que as Américas são parte da zona de influência do país, que buscará garantir a manutenção de sua preponderância na região. Esse compromisso é apresentado como o Corolário Trump da Doutrina Monroe, que ficou conhecida como “doutrina Donroe”. Além de manter a primazia da influência americana na região, os EUA querem garantir acesso privilegiado aos recursos estratégicos da região, como o petróleo venezuelano e os minerais críticos brasileiros.
As relações bilaterais entre Brasil e EUA têm sido marcadas por tensão e pela imposição de tarifas arbitrárias e desproporcionais às exportações brasileiras, apesar do suposto bom relacionamento entre Trump e Lula. Elas têm tido como um de seus principais objetivos forçar os países a buscar acordos de renegociação com os Estados Unidos, que têm incluído exigências sobre minerais críticos, como a facilitação de investimentos dos EUA em toda a cadeia produtiva do recurso. Recentemente, o Brasil foi alvo de uma nova leva de tarifas e da interrupção das negociações para a remoção das tarifas aplicadas sobre o país.
O interesse americano no Brasil
No último ano, houve um aumento significativo nas solicitações para obtenção de licenças para exploração de reservas de minerais críticos. Elas são oriundas sobretudo de empresas estrangeiras, com destaque para empresas americanas, canadenses e australianas.
Recentemente, a única empresa de exploração de minerais críticos no país, a Serra Verde, foi vendida para uma empresa americana, na qual o governo dos EUA possui participação. Em abril deste ano, a USA Rare Earth anunciou a aquisição por US$ 2,8 bilhões e, três meses depois, o Departamento de Comércio dos EUA anunciou que tem planos de investir US$ 1,6 bilhão na USA Rare Earth, em troca de 16 milhões de ações da empresa. A Serra Verde é hoje a única empresa fora da Ásia capaz de prover os quatro principais minerais para ímãs de alto desempenho: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
Antes da venda, a Serra Verde operou em parceria com a empresa chinesa Shenghe Resources, com a qual possuía um contrato de dez anos. Ela chegou a exportar, em um ano, 85% de sua produção para a cadeia de produção chinesa. O contrato com a empresa chinesa foi encerrado em 2025, sete anos antes do previsto. O anúncio do encerramento foi seguido do aumento do empréstimo feito à Serra Verde pela americana International Development Finance Corporation.
Em agosto de 2026, o Departamento da Guerra dos EUA anunciou um pacote de US$ 750 milhões em investimentos para a aquisição de minerais críticos oriundos do projeto Pela Ema, em Serra Verde. Esse recurso seria parte de um projeto de US$ 1,55 bilhão em investimentos. No acordo, o governo americano também se comprometeu a comprar pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras nos próximos cinco anos.
Os minerais críticos são muito importantes para a indústria de defesa americana, inclusive para a produção de aviões-caça e mísseis, que estão com baixo estoque por conta dos conflitos na Ucrânia e no Irã. O Departamento da Guerra e outras autarquias americanas também têm investido em projetos relacionados a minerais críticos no continente africano, porém o Brasil tem recebido os maiores montantes de investimento.
O governo brasileiro se manifestou com preocupação sobre o acordo estabelecido e estuda acionar o Poder Judiciário para vetá-lo, uma vez que o acordo prevê a exportação dos recursos sem exigir que pelo menos parte do processo industrial seja realizado no país. Ainda assim, poucos dias depois do anúncio, houve a retomada das negociações comerciais entre Estados Unidos e Brasil sobre as tarifas aplicadas ao país.



