No Brasil, projetos industriais vêm demonstrando que é possível fornecer água com segurança, previsibilidade e qualidade adequada para usos industriais, reduzindo a dependência de fontes potáveis em atividades que não exigem água destinada ao consumo humano
Durante décadas, o esgoto foi tratado apenas como um passivo ambiental. Agora, uma mudança de paradigma começa a ganhar força no Brasil: transformar efluentes tratados em fonte estratégica de abastecimento de água para a indústria. Em um cenário de aumento da demanda, expansão industrial e pressão crescente sobre os mananciais, o reuso deixa de ser uma alternativa pontual para ocupar espaço central na infraestrutura hídrica do futuro.
A água tem papel central na discussão sobre mudanças climáticas, em que episódios de estiagens duradouras ameaçam impactar não apenas a vida, mas também as atividades industriais intensivas no seu uso.
As evidências, contudo, revelam pressões crescentes sobre a disponibilidade hídrica em regiões altamente urbanizadas e industrializadas, resultado de uma transformação estrutural em curso, que requer a construção de modelos mais inteligentes, eficientes e circulares de uso da água.
Nesse contexto, ampliar a oferta de água sem ampliar proporcionalmente a captação nos mananciais passa a ser um imperativo econômico, ambiental e operacional. É justamente nesse ponto que o reuso de água ganha relevância estratégica.
O crescimento do setor de saneamento na última década cria condições singulares para o país liderar essa agenda.
A produção de água de reuso a partir do tratamento de esgoto doméstico já é uma solução tecnicamente consolidada e amplamente utilizada em diversos países. No Brasil, projetos industriais vêm demonstrando que é possível fornecer água com segurança, previsibilidade e qualidade adequada para usos industriais, reduzindo a dependência de fontes potáveis em atividades que não exigem água destinada ao consumo humano.
Essa lógica produz benefícios múltiplos. Ao utilizar água de reuso em processos industriais, preservam-se fontes de água potável para abastecimento da população, reduz-se a pressão sobre rios e reservatórios e amplia-se a eficiência geral do sistema hídrico. Mais do que uma solução ambiental, trata-se de uma estratégia de racionalidade econômica.
Setores intensivos em consumo de água, como siderurgia, mineração, química, papel e celulose, energia e infraestrutura, dependem cada vez mais de estabilidade no abastecimento para garantir previsibilidade operacional e competitividade. Em um ambiente de maior pressão sobre recursos naturais e de crescente exigência por padrões ESG, diversificar fontes de abastecimento deixa de ser apenas uma escolha sustentável e passa a integrar a gestão de risco das empresas.
Em diferentes partes do mundo, a água de reuso já se consolidou como ativo estratégico para a indústria. Países que enfrentam maior pressão hídrica incorporaram políticas de economia circular da água como parte de sua estratégia de desenvolvimento produtivo e segurança operacional. O avanço dessa agenda demonstra que desenvolvimento econômico e uso mais eficiente dos recursos naturais não são objetivos incompatíveis – ao contrário, tornam-se cada vez mais interdependentes.
No Brasil, o potencial é particularmente expressivo. Estimativas internacionais indicam que uma pessoa pode gerar entre 100 e 160 litros de esgoto por dia, volume que, após tratamento adequado, pode ser convertido em fonte contínua e confiável para atividades industriais. Isso significa que grandes centros urbanos passam a representar também importantes polos produtores de água industrial sustentável.
O avanço do marco regulatório do saneamento no Brasil contribui para criar condições favoráveis a esse movimento. A ampliação dos investimentos no setor, associada à maior previsibilidade regulatória, abre espaço para projetos estruturantes capazes de integrar saneamento, inovação e desenvolvimento industrial em uma mesma agenda de longo prazo.
Mais do que responder a desafios de disponibilidade hídrica, o reuso ajuda a redesenhar a lógica de utilização da água no país. Em vez de ampliar indefinidamente a pressão sobre mananciais, passa-se a incorporar princípios de circularidade, recuperação de recursos e eficiência sistêmica.
O Brasil tornou-se referência global em energias renováveis ao combinar disponibilidade de recursos naturais, capacidade técnica e visão estratégica de longo prazo. Temos condições semelhantes para avançar também na produção sustentável de água industrial.
Transformar esgoto tratado em ativo econômico não é apenas uma resposta à crescente demanda por água. É uma oportunidade concreta de impulsionar inovação, fortalecer a competitividade da indústria brasileira e construir uma nova agenda de desenvolvimento sustentável para as próximas décadas.
Autor: * João Emilio Gonçalves é diretor-presidente da Apura, e Alexandre Perufo é diretor-executivo da Apura
Fonte: Um Só Planeta

