Em boa parte da Arábia Saudita, abrir a torneira significa receber água que começou sua viagem no litoral e atravessou o deserto.
A água do mar passa por usinas de dessalinização e entra numa rede de 14.217 quilômetros de dutos, que conecta as costas do país a cidades distantes. Em 2024, a produção combinada chegou a cerca de 11,5 milhões de m³ por dia.
Como a água do mar vira abastecimento no deserto?
O processo começa na captação costeira, em áreas do Mar Vermelho e da costa leste saudita. A água salina passa por tratamento para remover sais e impurezas, com destaque para tecnologias como osmose reversa e processos térmicos ainda presentes em parte da matriz.
O relatório da Saudi Water Authority informa que a antiga SWCC, braço operacional temporário da autoridade, produz diariamente 11,5 milhões de m³ de água a partir de fontes como mar e aquíferos. Essa escala transforma a costa em ponto de partida para uma rede nacional de abastecimento.

Por que a água do mar virou infraestrutura nacional?
A Arábia Saudita tem clima árido, forte pressão urbana e grande distância entre parte das cidades e o litoral. Em vez de depender apenas de aquíferos ou chuvas irregulares, o país construiu um sistema onde a dessalinização funciona como fonte permanente para regiões costeiras e interiores.
Segundo a Saudipedia, a produção combinada de usinas públicas e privadas chegou a cerca de 11,5 milhões de m³ por dia em 2024. A mesma base informa que existem 35 usinas nas costas leste e oeste, além de 41 sistemas de dessalinização no país. A dependência do mar aparece em três pontos principais:
- A dessalinização reduz a pressão direta sobre aquíferos em áreas de alta demanda urbana.
- As usinas costeiras permitem transformar uma fonte abundante, mas salgada, em água potável.
- A rede de transmissão leva água tratada para cidades distantes da costa e áreas industriais.
Como os dutos levam a água a centenas de quilômetros?
Depois do tratamento, a água precisa vencer distância, calor, relevo e pressão hidráulica. É nesse ponto que a dessalinização deixa de ser apenas uma tecnologia costeira e depende de engenharia de transmissão, com adutoras, reservatórios e estações de bombeamento.
O Guinness World Records registrou a rede da SWCC como a maior rede de dutos de água do mundo, com 14.217 km, verificada em 15 de novembro de 2023. O registro também cita capacidade diária de 19.429.486 m³ no sistema de transmissão. Essa infraestrutura depende de soluções pensadas para grandes vazões:
- Dutos extensos conectam usinas costeiras a cidades do interior.
- Estações de bombeamento mantêm a pressão necessária em longas distâncias.
- Reservatórios ajudam a equilibrar oferta, consumo e variações de demanda.
- Materiais e revestimentos precisam resistir a calor, pressão e corrosão.

O que a salmoura muda na relação com o oceano?
A dessalinização não entrega apenas água potável. Ela também gera salmoura, um rejeito mais concentrado em sais que precisa ser lançado, tratado ou reaproveitado com critérios ambientais. Em mares semiabertos e regiões costeiras sensíveis, esse ponto é central para a oceanografia aplicada.
Um estudo sobre sustentabilidade da dessalinização no Golfo destaca que grandes volumes de salmoura exigem atenção aos impactos ambientais. A gestão envolve diluição, escolha do ponto de descarte, monitoramento de salinidade e proteção de ecossistemas costeiros.

Por que a água do mar muda o futuro do deserto?
A rede saudita mostra que o oceano pode virar uma fonte estratégica para países áridos, mas não sem custo técnico e ambiental. Cada metro cúbico produzido depende de energia, membranas, manutenção, controle de salinidade e transmissão por longas distâncias.
O caso da Arábia Saudita indica uma mudança maior na relação entre litoral e interior. A água do mar deixou de ser apenas limite geográfico e passou a funcionar como base de abastecimento, levando o deserto a depender cada vez mais de engenharia costeira, eficiência energética e gestão ambiental.
Fonte: Oeste Geral

