Em um país que concentra cerca de 12% da água doce superficial do planeta, o acesso à água tratada ainda é desigual e, em muitos casos, insuficiente diante de crises climáticas.
Secas prolongadas na Amazônia e enchentes no Sul do Brasil já comprometeram o abastecimento de água para milhões de pessoas.
Sistemas tradicionais de saneamento, centralizados e de alta complexidade, nem sempre conseguem responder com rapidez a contextos de emergência ou alcançar regiões mais remotas. “Isso, por si só, já representa um estado de alerta”, afirma Fernando Silva, CEO da PWTech, startup brasileira de tecnologia voltada ao tratamento de água, em entrevista ao Um Só Planeta.
Crise
A intensificação de eventos climáticos extremos tem transformado o acesso à água em um desafio. Para Silva, o país ainda reage majoritariamente de forma emergencial, no entanto, há uma mudança em curso.
“Ainda há uma predominância de respostas emergenciais, mas vejo uma tendência para a implantação de estratégias não centralizadas de forma estruturante”, diz.
A própria PWTech desenvolveu sistemas de purificação portáteis, com menos de 20 quilos, capazes de tratar até 10 mil litros de água por dia. Esse volume é suficiente para abastecer comunidades inteiras em situações críticas.
O diferencial está na lógica de operação: equipamentos plug and play, que podem ser instalados rapidamente, com baixa necessidade de engenharia e capazes de funcionar com diferentes fontes de água e energia, incluindo, a solar.
“Nossos equipamentos atuam em contextos em que a infraestrutura tradicional não chega ou não responde com a agilidade necessária em situações de crise”, explica o executivo.
Isso permite levar água tratada a locais isolados, como comunidades ribeirinhas, áreas rurais e regiões afetadas por desastres naturais ou conflitos, contextos onde a logística costuma ser o obstáculo inicial.
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Aplicabilidade
Embora o uso em emergências chame atenção, a atuação dessas tecnologias vai além, segundo a empresa que opera em mais de 35 países. São projetos que vão de ações humanitárias ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU) a aplicações em setores como construção civil, agronegócio e saúde.
Em canteiros de obras, por exemplo, os sistemas são usados para garantir abastecimento local sem depender de infraestrutura externa. Em operações humanitárias, permitem resposta rápida a crises, reduzindo riscos sanitários associados à água contaminada.
O detalhe é que em cenários de enchentes, onde a água disponível costuma apresentar contaminação microbiológica e presença de sedimentos, os equipamentos são adaptados para incluir etapas adicionais de filtragem.
“Nossos sistemas utilizam membranas de alta capacidade de filtração, capazes de eliminar 100% dos vírus e bactérias, garantindo água dentro dos padrões de potabilidade”, afirma Silva.
Impacto ambiental
Além de garantir acesso imediato, a tecnologia também tem implicações ambientais positivas. Um único equipamento pode reduzir a necessidade do uso de caminhões-pipa, que emitem CO₂, e substituir o consumo diário de milhares de garrafas plásticas.
“Um equipamento pode tratar até 10 mil litros por dia, o equivalente a cerca de 40 mil garrafas de 250 ml que deixam de ser consumidas diariamente”, destaca o CEO.
O projeto tem ações de adaptação e mitigação, dois eixos do debate climático. Fernando Silva, por sua vez, avalia que a segurança hídrica segue subestimada.
“Garantir acesso à água de qualidade é essencial para a resiliência das comunidades diante de impactos que já estão em curso”.
Desafio
Apesar do potencial, ampliar o alcance dessas soluções ainda depende de fatores estruturais. No Brasil, os principais entraves estão na articulação institucional e nos modelos de financiamento, que ainda privilegiam grandes obras centralizadas.
“Para ampliar o alcance, é fundamental fortalecer a integração com políticas públicas e ampliar mecanismos de financiamento que considerem soluções descentralizadas”, afirma Silva.
Especialistas também apontam a participação do setor privado como primordial para viabilizar projetos em larga escala, especialmente em regiões como a Amazônia, onde limitações logísticas tornam o modelo tradicional ainda mais desafiador.
Fonte: Só um Planeta



