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Seminário realizado na EESC-USP reúne profissionais para debate sobre o avanço na detecção, remoção e inativação de protozoários em amostras ambientais

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A equipe do Portal Tratamento de Água esteve em São Carlos / SP para acompanhar durante os dias 01 e 02 de dezembro passado o “4º Seminário Anual do Projeto Temático FAPESP – Processo N° 2012/50522-0”. Realizado no Anfiteatro Jorge Caron, promovido pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP) e apoiado pela fundação de amparo à pesquisa do estado de São Paulo (FAPESP). O evento tratou dos avanços na detecção, remoção e inativação de Cistos de Giardia spp. e Oocistos de Cryptosporidium spp. em amostras ambientais.

A cerimônia de abertura teve início às 9 horas da manhã e a mesa central contou com cinco especialistas : Profª Dra. Regina Maura Bueno Franco do Departamento de Biologia Animal da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) ; Prof. Dr. José Roberto Guimarães do Departamento de Saneamento e Ambiente da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) ; Prof. Dr. Luiz Antonio Daniel do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade de São Paulo (EESC/USP) ; Profª Dra. Lyda Patricia Sabogal Pazdo do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade de São Paulo (EESC/USP) e, como convidada, Dra. Maria Inês Zanoli Sato, Gerente do Departamento de Análises Ambientais da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB).

A primeira palestra foi ministrada pela convidada Dra. Maria Inês Zanoli Sato, que abordou os aspectos gerais dos protozoários, suas taxas de surtos, métodos de análise, ocorrência no meio ambiente, os aspectos legislativos que cerceiam à contaminação de ambientes aquáticos por protozoários e os limites seguros de proteção à saúde humana.

Das mais de dez espécies de Giardia existentes, a G.duodenalis e a G.enterica, tem como hospedeiro o ser humano, desta maneira, Dra. Sato ressalta a importância do estudo da biologia molecular para compreensão da epidemiologia deste parasita, e destaca o ciclo da Giardia duodenalis com ênfase em suas pontas : “Pertencente ao filo sarcomastigophora, tem seu ciclo iniciado pela ingestão de água ou alimentos contaminados, seguido da desencistação (abertura por condições ambientais favoráveis da membrana resistente que isola o protozoário do meio externo) propiciada pelo baixo pH do trato digestivo, proporcionando assim, seu alojamento na superfície da mucosa intestinal com consequente encistação (processo de formação da membrana resistente que isola o protozoário do meio externo) e liberação do cisto (forma infectiva) no ambiente”.

Sato explica que o tratamento adequado da água destinada ao consumo humano e do esgoto gerado pelo corpo social, tem um papel fundamental no combate a Giardia e ao Cryptosporidium, parasitas de veiculação hídrica que em suas formas infectivas causam em seu hospedeiro infecções sintomáticas e assintomáticas, sendo que as infecções sintomáticas por Giardia levam à quadros de diarreia crônica, fezes gordurosas e fétidas, cólicas abdominais e no caso das crianças perda de peso e desidratação, já a criptosporidiose causa diarreia, cólicas intestinais, vômito, em alguns casos o comprometimento respiratório e pode levar até à infecções pancreáticas.

Segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas) no período entre 1971 e 2006, observou-se que os protozoários foram os maiores responsáveis pelos surtos de doenças de veiculação hídrica em estados Norte Americanos, sendo que do total desses surtos, 86% ocorreram por Giardia e 9,1% por Cryptosporidium. Após o período mencionado, os casos Norte Americanos apresentaram queda de quase 50% em relação ao período anterior, queda abrupta essa dada pela evolução tecnológica empregada nos processos de tratamento de água e efluentes.

Estudos realizados por estudantes da EESC-USP, apontaram que em escala global, de 2004 a 2010, o número de casos de surtos de veiculação hídrica por protozoários classificou a Oceania como líder no ranking das regiões estudadas, seguida pelas Américas, Europa e Ásia. A prudência tomada na interpretação dos dados apresentados deve ser alta, dado o contexto de que muitos casos não são registrados, em consequência acabam não contabilizados. O mesmo ocorre com a monitorização das doenças diarreicas agudas ao redor do globo, que podem apresentar baixos índices em regiões que estão passando por surtos pela falta de notificações dos casos. Desta forma, essa falta de notificações ocasiona o empobrecimento nos dados gerados e maior falta de controle em locais de extrema necessidade.

Os Métodos clássicos de análise dos protozoários, mencionados por Inês, têm como primeiro passo a coleta e concentração da amostra. A concentração é necessária pois os patógenos apresentam-se em pequena quantidade no ambiente (com exceção dos locais onde estejam ocorrendo surtos). Uma vez coletada e concentrada, faz-se necessária a purificação desta amostra, ou seja, seu “clean-up”, já que ao concentra-la não só os patógenos escolhidos para o estudo são aglomerados. Por fim é realizada a detecção e quantificação dos Oocistos, dada ênfase nos fatores de virulência, para isso, utilizam-se técnicas que não se baseiam no cultivo desses organismos.

Dra. Sato explana resultados de estudos em que, com exceção da água tratada, os valores de Cistos são muito maiores que os de Oocistos, pois apesar das amostras de águas superficiais ou de esgotos possuírem maior quantidade de Giardia, a remoção deste organismo ocorre com maior facilidade do tratamento físico-químico da água. A especialista concluiu sua apresentação expondo estudos de casos sobre a quantidade de Cistos e Oocistos em amostras ambientais provenientes de diversas regiões do planeta.

Após às 14h foram apresentados trabalhos relacionados aos avanços na Detecção, Remoção e Inativação de Cistos de Giardia spp. e Oocistos de Cryptosporidium spp. através de diferentes processos de tratamento. As apresentações duraram entre 10 e 20 minutos, e contaram com a participação dos seguintes trabalhos: “Ocorrência e remoção dos protozoários patogênicos Giardia spp. e Cryptosporidium spp. em sistemas de tratamento de esgoto sanitário”, realizado pela aluna de doutorado Priscila Ribeiro dos Santos com orientação do Prof. Dr. Luiz Antonio Daniel ; “Infectividade de Cistos de Giardia duodenalis após ozonização em água bruta” pela aluna de doutorado Liane Yuri Kondo Nakada orientada pelo Prof. Dr. José Roberto Guimarães; “Espécies de Cryptosporidium e grupos genéticos de Giardia detectados no Rio Atibaia, Campinas/SP por métodos moleculares” pelo aluno de doutorado Nilson Branco com orientação da Profª Drª Regina Maura Bueno Franco e coorientação de Romeu Cantusio Neto (SANASA/Campinas); “Remoção de Giardia spp. e Cryptosporidium spp. em águas de abastecimento utilizando flotação: estudo em escala de bancada e desafios de detecção”, realizado pelo Mestre Fernando César Andreoli com orientação da Profª Drª Lyda Patricia Sabogal Paz, e por fim o “Estudo da remoção de Cistos de Giardia spp. e Oocistos de Cryptosporidium spp. em processo de tratamento combinado (anaeróbio/físico-químico) de água residuária”, realizado pela aluna de doutorado Gabriela Laila de Oliveira, com orientação do Prof. Dr. Luiz Antonio Daniel.

No início do segundo dia de apresentações a Profª Regina Maura Bueno Franco, coordenadora do projeto temático FAPESP, tratou da nova classificação de Cryptosporidium e implicações na área de saneamento. Os tópicos abordados na apresentação foram: a relevância atual do Cryptosporidium, esclarecimento das espécies aceitas atualmente, classificação taxonômica até 2014/15 e atual; discussão sobre a morfologia no desenvolvimento do protozoário em meio acelular e sua multiplicação em biofilme.

Com distribuição mundial os protozoários abordados no seminário são contabilizados pela ONU como responsáveis por mais de 4 milhões de casos de diarreia e 1,6 milhão de mortes anuais no mundo, sendo que a maioria são de crianças com idade até 5 anos, por conseguinte, as mortes ocasionadas por estes parasitas lotam diariamente 32 ônibus escolares.

O Cryptosporidium possui 30 espécies aceitas e foi considerado durante muito tempo uma exceção da sub-classe de protistas apicomplexos Coccidia por não conter algumas características comuns a esta sub-classe, tais como a falta de esporocistos, sua localização fora do citoplasma do enterócito, entre outras. Cerca de 8 espécies deste protozoário já causaram ao redor do mundo surtos de veiculação hídrica, isso representa certo risco para os segmentos populacionais que possuem alterações em seu sistema imunológico, tais como: os portadores do vírus HIV, pessoas transplantadas, pacientes oncologicos e portadores de insuficiência renal ou hepática. No Brasil, a falta da solicitação do exame pelos médicos ocasiona dificuldade do diagnóstico clínico dos casos.

No final da década de 70 e início dos anos 80, o Cryptosporidium foi caracterizado como um parasita oportunista, pois sua contração por pessoas que apresentavam a síndrome da imunodeficiência adquirida levava a quadros diarreicos devastadores, com defecações que chegavam à 20 litros de fezes diários, levando o paciente em poucos meses ao óbito; Na década de 90, emerge como importante protozoário de veiculação hídrica através do surto de Milwaukee nos EUA, custando aos cofres públicos cerca de US$ 96 milhões ; Dos anos 2000 em diante, a ausência de fármacos efetivos é notória, levando a criação do paradoxo de que nenhum dos anticoccidianos táticos tem ação sobre o Cryptosporidium, mesmo este pertencendo à sub-classe Coccidia; Por fim, de 2011 à 2016, inicia-se a comprovação da multiplicação do Cryptosporidium em meio acelular e biofilmes, gerando grandes complicações no que tange o sistema de distribuição de água, explana a Draª Franco.

Em estudos recentes sobre os estados morfológicos do Cryptosporidium em meio acelular, vários grupos de pesquisa chegaram à conclusão de que na verdade este protozoário não é um Coccidio, mas sim uma Gregarina. Conforme a credibilidade dos estudos iniciais realizados por pesquisadores Brasileiros foram consolidando-se, outros grupos “inspirarados” compararam sequencias dos genes 18sRNA, e os resultados obtidos apresentaram certa semelhança do Cryptosporidium às gregarinas. Em 2014 foi proposta a transferência de sub-classe, que no ínicio deste ano foi oficializada em uma publicação da revista Water Research.

O encerramento do seminário contou com comentários gerais sobre o tema abordado e a estimativa sobre futuras tecnologias empregadas nos processos de tratamento de águas e efluentes pelos especialistas convidados, visando um maior controle dos protozoários acercados nesta apresentação.

Pedro Carvalho Oliveira
pedro@webapp233877.ip-104-237-133-206.cloudezapp.io
Depto. Técnico


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