De acordo com o presidente da empresa de saneamento de Campinas, futura Estação Produtora de Água de Reúso (EPAR) devolverá aos rios água com 99% de grau de pureza
Ao longo dos últimos cinco anos, a Sanasa realizou uma série obras que anteciparam em dez anos a universalização do saneamento básico em Campinas. Os resultados obtidos pela empresa de economia mista têm sido reconhecidos por diferentes premiações, a mais recente conferida pelo Instituo Trata Brasil, que pelo terceiro ano consecutivo considerou Campinas como a metrópole tricampeã nacional em serviços de saneamento oferecidos à população. Na última semana, o presidente da Sanasa, Manuelito Magalhães Júnior, visitou o Correio Popular, onde foi recebido pelo presidente-executivo do jornal, Ítalo Hamilton Barioni. Na ocasião, ele falou tanto das conquistas obtidas quanto dos futuros projetos da empresa, todos comprometidos em assegurar o desenvolvimento da cidade. Segundo ele, uma importante iniciativa será a conclusão do retrofit da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Anhumas, que será transformada em uma “fábrica de água” de reúso, com 99% de grau de pureza. “Será a maior do gênero no Hemisfério Sul”, afirma Magalhães Júnior.
A Sanasa acaba de conquistar o tricampeonato nacional em saneamento, segundo análise do Instituto Trata Brasil. O que é mais difícil: alcançar esse nível de eficiência ou mantê-lo?
Olha, eu diria para você que, no setor de saneamento, a gente torce para os outros melhorarem também. Quer dizer, a gente não quer ficar sempre à frente. A gente quer que mais gente alcance o mesmo patamar que Campinas alcançou. E por que isso? Porque significa que a gente está melhorando a vida das pessoas. Outras empresas, outros operadores de saneamento estão melhorando a qualidade de vida em outras cidades, para outras pessoas. Na semana passada, eu estava vendo um material em um grande site brasileiro falando que Campinas está atraindo turismo. Uma das características é a qualidade do saneamento que propicia qualidade de vida para a população. Então, eu diria para você que é muito difícil chegar aonde chegamos.
Tanto é difícil que, quando a gente compara os indicadores de Campinas com os indicadores do Brasil, nós verificamos que estamos muito melhor que a média do país. Não estamos melhores do que os piores, nós estamos melhor do que a média. E a média inclui os bons, inclusive nós. Chegar é muito difícil, mas se manter é mais difícil ainda. Eu sempre brinco em relação à questão de perdas. Digo que é uma escada que, à medida que você vai subindo, os degraus vão ficando mais altos.
Quer dizer, a dificuldade vai aumentando. Quando você sai de um índice de perda em torno de 40%, para você reduzir para 30%, o teu nível de investimento é X. Para ir de 30% para 20%, teu nível de investimento é 2X. E para abaixo de 20% ele vai crescendo exponencialmente. E aí, a cada ano que passa, você tem que investir para não voltar para trás, não é nem para melhorar.
O primeiro investimento que você faz é para não voltar para trás, para não perder aquele investimento que você já fez. Então, é por isso que eu brinco que, à medida que você vai subindo, o degrau vai ficando mais alto, a dificuldade vai aumentando. Hoje nós somos referência no combate às perdas. Em janeiro, nós atingimos um indicador de 15,2%. Melhor que muitas cidades.
Você pega Chicago, que é uma grande metrópole, que tem 22% de perdas. Você pega Paris, Londres, 17%, 18%, 19%. Então, Campinas tem muito do que se orgulhar do trabalho que a Sanasa desenvolve e dos indicadores que Campinas alcançou, porque essa premiação não é da Sanasa, é da cidade. Às vezes a gente confunde. O que é analisado no ranking do Trata Brasil são as 100 cidades mais populosas do país. E Campinas é a metrópole tricampeã.
É o terceiro ano seguido que ela aparece como a primeira colocada entre as metrópoles brasileiras, o que realmente é muito significativo. Significa que o trabalho está tendo resultados e, mais que isso, é um trabalho que tem continuado, porque se não fosse assim, haveria regressão.
Em relação à questão das perdas de água, ainda é possível baixar o índice atual? Que número seria factível?
Olha, a gente trabalha com o que classificamos como indicador econômico das perdas. O que é isso? Você chega num limite a partir do qual não vale a pena continuar investindo muito para diminuir, porque o esforço que você faz é muito maior do que o benefício que você vai obter. Mas no caso específico de Campinas e de outras cidades da região metropolitana, esse indicador econômico de perdas ainda está muito distante do ideal. Por quê? Porque a água é um bem escasso.
E quando ele é escasso, você tem que valorizá-lo. E a forma de valorizar é minimizando as perdas. Quando eu falo de um índice de perda de 40%, isso significa que de cada 100 litros de água que eu retiro dos rios, eu só consigo levar para casa das pessoas 60. O restante é perdido, seja pela ineficiência do processo de tratamento da água, seja muito provavelmente por causa dos vazamentos, por causa dos canos furados ao longo do caminho. No caso de Campinas, significa que a cada 100 litros que eu trato, perco 15 e entrego 85.
Quanto mais entrego, mais eu reduzo esse nível porque estou economizando produto químico, estou economizando energia elétrica. Ou seja, é dinheiro que você não está jogando fora, não está deixando ele se perder nos vazamentos. Então, é muito importante ter um programa eficiente de controle de perdas. Em Campinas, o programa começou em 1994. De 1994 a 2020, Campinas saiu do índice de perdas de 39%, que era igual ao do Brasil, para 21,5%. De 2020 para 2025, nós saímos de 21,5% para 15,2%.
Ou seja, a gente conseguiu fazer um esforço enorme para reduzir seis pontos percentuais em cerca de cinco anos. Como eu disse no começo, isso exige um volume de investimento grande. Em 1994, a população de Campinas era de 800 mil habitantes. Em 2026, de 1 milhão e 200 mil habitantes, 50% maior. No entanto, em 1994 eu retirava dos rios cerca de 108 bilhões de litros de água. Hoje eu retiro 106 bilhões. A população cresceu 50% e a gente diminuiu a necessidade de tirar água do rio.
Ou seja, além do ganho financeiro, o controle de perdas proporciona ganho ambiental?
Não tem dúvida. A gente está ajudando a preservar a vitalidade das bacias hidrográficas com o programa de redução de perdas. Então, é muito importante que continuemos investindo. Nós acabamos de anunciar um financiamento obtido junto do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] de R$ 252 milhões. Nós vamos trocar cerca de 204 quilômetros de rede de distribuição de água. Nós trocamos 500 quilômetros em cinco anos, e agora vamos trocar 204 quilômetros nos próximos dois anos e meio.
Essas obras vão usar aquele sistema não destrutivo?
Sim, pelo método não destrutivo. Vamos beneficiar 15 bairros, dois deles muito emblemáticos para a cidade: Centro e Cambuí. Nós temos tubulações com mais de 70 anos de idade nesses bairros. Portanto, você imagina a necessidade de manutenção que a gente tem. Além desses dois bairros, outros 13 também serão beneficiados por essa nova fase do programa de redução.
Quando as obras terão início?
Nós estamos no processo de finalização dos pacotes para começar o processo licitatório. Nós queremos começar isso até o final desse ano de 2026.
Quando falamos em redução de perdas, isso nos remete também à redução do desperdício de água. Como está a campanha de conscientização que a Sanasa desenvolve nesse sentido?
A gente tem, ao longo do tempo, reduzido essa média de consumo As pessoas estão mais conscientes. Particularmente, o que acontece é que as gerações mais novas, as crianças, os adolescentes, começam a controlar o consumo dentro das suas residências. São muito mais efetivos em relação a isso do que nós. Eles são muito antenados com isso. A gente desenvolve alguns programas de educação ambiental. Nós temos o Centro de Conhecimento da Água, que fica no Parque das Águas, que também é conhecido como Museu da Água.
A gente recebe todos os dias visita de escolas de Campinas e região. Os estudantes vão até lá e têm uma imersão no ciclo do saneamento, não só no tratamento de água, como também na questão do esgotamento sanitário, que é muito importante. Campinas também é líder nesse segmento. Campinas não é líder somente porque coleta e trata seu esgoto, porque já alcançou a chamada universalização do saneamento. É líder também na produção de água de reúso, que é o melhor tratamento que tem, que é o chamado tratamento terciário.
Nós estamos fazendo o retrofit da estação Anhumas, que estará concluído até o segundo semestre de 2027. Cerca de 52% do esgoto da cidade recebe o tratamento terciário, que é o de melhor qualidade possível, produzindo água de reúso com 99% de indicador de pureza. Isso ajuda os rios, ajuda as cidades que vêm depois. Nós estamos criando no Anhumas uma verdadeira fábrica de água, como se diz em Portugal. Depois de totalmente finalizado, será o maior projeto de água de reúso do Hemisfério Sul.
A Sanasa está concorrendo a um prêmio internacional no momento. Que premiação é essa?
Uma consultoria inglesa, a Global Water Intelligence, organiza um prêmio internacional todo ano. Nós inscrevemos o nosso projeto de combate a perdas de água com uso da inteligência artificial. É uma iniciativa realizada em parceria com a empresa Amanco, fabricante de tubos, e com a Microsoft. Para a nossa felicidade, nós fomos indicados como finalistas, junto com outras cinco empresas do mundo inteiro. O resultado vai ser conhecido no dia 19 de maio. Estamos na expectativa. Isso é motivo de muita felicidade para nós, porque esse projeto de inteligência artificial é muito interessante. Hoje, metade da cidade é monitorada por sensores. Os dados captados vão para um software que usa inteligência artificial.
A tecnologia informa qual região tem um potencial vazamento. As pessoas estão acostumadas a identificar vazamentos quando veem a água escorrendo, mas a imensa maioria dos vazamentos é invisível. A água infiltra no solo e vai solapando. O problema só é identificado quando o solo afunda e um carro cai dentro. Com o uso da IA, identificamos o vazamento precocemente. O programa já funciona há 18 meses. Nós já economizamos 1 bilhão e 300 milhões de litros de água. É um volume sensacional. Mas isso não é resultado apenas do uso da tecnologia. Tem também o trabalho dos nossos colaboradores nesse processo.
Com esse nível de precisão que o senhor descreveu, imagino que o tempo de resposta da Sanasa para reparar foi reduzido, o que tende a causar menos transtornos ao consumidor, não?
Então, é por isso que a gente está feliz, porque se a gente age mais rápido, não espera o problema crescer. A gente consegue se antecipar ao problema, o que significa que eu tenho menos perda de água e menos dano para a população. Não vai abrir um buraco, não vai ter um transtorno, nem vazamento na rua. Então, a gente consegue ser mais eficiente.
Além da questão do controle de perdas, que outros indicadores são considerandos na avaliação do Instituto Trata Brasil?
Olha, nós recebemos nota 10 em todos os quesitos. No abastecimento de água, 99,95% da população é atendida. A gente não usa dados aproximados porque é preciso lembrar que tem um pedacinho da população de Campinas, que está em ocupações irregulares, etc, que ainda não é atendido. E precisamos alcançar essas pessoas, para oferecer melhor qualidade de vida a elas. Nós temos hoje mais de 97% de coleta e afastamento de esgoto e mais de 94% de tratamento de esgoto. São indicadores que nenhuma outra metrópole tem.
O nosso nível de investimento também é mais do que o dobro do nível de investimento no Brasil. No setor de saneamento, você não alcança isso só com desejo, você precisa investir. E isso nós fizemos ao longo desses cinco anos, que foi uma recomendação do prefeito Dario Saadi. A gente trabalha não para buscar prêmios, mas para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Saneamento, a gente não pode esquecer, é saúde. Se você abrir, por exemplo, o site do Instituto Trata Brasil, você vai ver lá uma série de estudos mostrando como a renda das pessoas que têm saneamento é maior do que a renda de quem não tem. Como a escolaridade das pessoas que têm saneamento é maior do que a escolaridade de quem não tem saneamento. Quer dizer, esse serviço traz um conjunto de benefícios para toda a sociedade. Isso nos traz retorno social, econômico e ambiental.
O senhor citou que os serviços da Sanasa ainda não conseguem chegar a alguns pontos, como as áreas de ocupação. A área rural também representa dificuldade?
A gente consegue dar hoje um bom atendimento para a área rural de Campinas, mas a legislação mudou há pouco tempo. Antigamente, a gente não era obrigado a atender as zonas rurais. Hoje, as operadoras de saneamento são obrigadas a atender as zonas rurais, tanto que a gente tem projetos para levar água e esgoto para algumas regiões. Estamos fazendo, por exemplo, o esgotamento na região do Vale das Garças, em Barão Geraldo. Chegamos à região do Gargantilha, que permaneceu por 40 anos recebendo água por caminhãopipa. Hoje, as pessoas abrem a torneira, têm água. Agora nós estamos levando também o esgotamento sanitário.
Gostaria que o senhor comentasse sobre dois aspectos, ambos importantes para a questão do abastecimento de água de Campinas e região: a construção das barragens em Pedreira e Amparo e a captação de água do Rio Jaguari.
Então, esses projetos das barragens são independentes, mas complementares. Elas estão sendo construídas pelo Governo do Estado, e devem estar concluídas no ano que vem. E serão cheias até 2028. Mas essas barragens, por si só, não resolvem o problema do abastecimento na grande maioria das cidades da região. Então, você precisa construir o que se convencionou chamar, ao longo do tempo, de sistema adutor regional. Nós estamos trabalhando com o Governo do Estado, desde 2021, no desenvolvimento desses projetos.
Chegamos ao ponto que eu considero ótimo para Campinas. Após a construção das barragens, serão construídos três sistemas adutores. Um deles vai trazer água das barragens por cerca de sete quilômetros e entregar para Campinas. Vai entregar para Sanasa na altura do bairro Gargantilha, para fazermos o tratamento dessa água.
A distribuição será feita por um sistema de adução com 16 quilômetros de extensão, até a interligação com o macro-anel, que por sua vez faz a adução para toda a cidade. Portanto, é um projeto complementar, interdependente do projeto do Governo do Estado, com o qual colaboramos. Como é que nós estamos em relação a isso? O Governo do Estado deve soltar uma PPP [Parceria Público-Privada] até meados do ano. E nós estamos com os nossos projetos prontos, para que sejam executados de forma concomitante, para que estejam concluídos em dois ou três aos.
A área onde vai ser a nova estação de tratamento de água a gente já adquiriu. Então, esse é um projeto que garante segurança hídrica para a cidade de Campinas pelas próximas décadas seguramente. Isso é muito importante. A gente está saindo agora de uma situação crítica no Cantareira, e Campinas não teve nenhum problema com falta d’água. Isso porque nós fizemos os investimentos que a gente precisava ter feito, não só em reservação de água potável, como também em redução de perda.
É por isso que a gente pode enfrentar de cabeça erguida esse momento. Mas, quanto mais a gente se prevenir, melhor. Então, esse é um projeto que acrescenta a possibilidade de a gente trazer água de outro manancial, que a gente chamou do Sistema Produtor Campinas-Jaguari, exatamente para que Campinas possa, nas próximas décadas, continuar crescendo sem percalços no abastecimento de água.
Existe uma corrente que critica a Sanasa por ser uma empresa “muito alavancada”. Como o senhor recebe esse tipo de avaliação?
O setor de saneamento, naturalmente, é alavancado. Porque a alavancagem cumpre um papel social muito importante. Qual é esse papel? Você não pode exigir da população economicamente ativa, em um determinado momento, que ela pague por uma estação de tratamento de água ou esgoto que vai durar 50 anos. Você tem que diluir isso ao longo do tempo. Isso permite que outras gerações também participem da divisão dos custos. E qual é a forma de fazer isso? Com financiamento.
É para isso que serve financiamento. Você distribui isso ao longo de 20, 30 anos. Então, o setor de saneamento é naturalmente alavancado. É assim no mundo inteiro. E quem não estiver alavancado é porque não está investindo. Porque você não consegue executar obras apenas com os recursos de quem está pagando tarifa naquele momento.
Agora, é óbvio, tem que ter ponderação e bom senso na gestão de uma empresa como a Sanasa. A gente passou por um momento muito difícil no Brasil, com a taxa de juros saindo de 2% e chegando a 15%. Isso causa um impacto violento em qualquer empresa. Aliás, é só abrir os jornais que a gente vê um monte de empresa com bastante dificuldade. O que a gente tem feito é ter bom senso e pés no chão. Tem horas que você tem que acelerar, mas tem horas que você tem que buscar certo equilíbrio, certa sustentabilidade. Nesse ponto a Sanasa está muito tranquila.
Aproveitando o tema gestão, a Sanasa também foi reconhecida pela transparência de seus dados. Qual a importância disso para a companhia?
É muito importante. A Sanasa é uma companhia de capital aberto e ela tem que seguir a legislação das sociedades anônimas, regulada pela CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. Ela tem que seguir a legislação de responsabilidade das estatais, fora todas as outras legislações que o setor público tem que seguir. É muito gratificante, muito importante quando você tem o trabalho reconhecido pela ANEFAC [Associação Nacional de Executivos].
O que a entidade faz? Ela analisa os balanços publicados das maiores empresas e classifica de acordo com o porte de cada uma. Pelo segundo ano consecutivo, entre as empresas com faturamento até R$ 5 bilhões, a Sanasa tem seus demonstrativos financeiros apontados como os mais transparentes. Significa que qualquer um que abra o balanço da Sanasa – aliás, acabamos de publicá-lo no Correio Popular – pode encontrar todas as informações que necessita para fazer uma boa avaliação da empresa.
Não é à toa que nós conseguimos acesso aos melhores financiamentos que existem. A Sanasa nunca tinha tido uma parceria com o Banco Mundial, e pela primeira vez nós estamos tendo. A Sanasa nunca tinha tido financiamento do BNDES, pela primeira vez nós estamos tendo. Por que isso é importante? Porque, ao ser transparente, ao ser sério, você abre portas que antes nunca se abriram.
O senhor pensou em algum momento propor a abertura de parte do capital da Sanasa?
A Sanasa é uma empresa de economia mista, mas ela não tem ações na bolsa. Eu gosto muito desse modelo de economia mista para o setor de saneamento. Deu certo no Brasil. Deu certo em Campinas, deu certo no Paraná, com a Sanepar; deu certo em Minas, com a Copasa; deu certo em São Paulo, com a Sabesp, que foi uma empresa de economia mista durante quase 50 anos.
São os melhores exemplos que o Brasil tem em termos de saneamento. Mas essa não é uma decisão do presidente. Essa é uma decisão da sociedade, através de seus representantes. Portanto, eu diria para você que eu procuro me afastar dessa discussão e cumprir a missão que nos foi dada pelo prefeito da cidade, que é de mudar a cara do saneamento em Campinas.
Campinas, como o senhor pontuou, tem uma situação privilegiada em termos de saneamento básico. Mas esse cenário não é igual para todas as cidades. Há localidades no país nas quais o esgoto corre a céu aberto e o fornecimento de água é precário. A Sanasa tem algum programa que possa contribuir para melhorar as condições de saneamento nesses locais?
Tem e ela já cumpre. Todos os meses a gente recebe delegações de outros municípios. Semana passada, por exemplo, eu recebi pessoalmente uma delegação da Nigéria. Os nigerianos passaram o dia inteiro aqui, conhecendo como é que a gente opera o saneamento, o que a gente faz. Saíram daqui muito interessados no modelo de gestão da Sanasa.
Estamos sempre sendo chamados a colaborar com outras empresas nessa trajetória de evolução. Agora mesmo, nos próximos dias, vai ter um seminário sobre a nova reforma tributária, que trará impactos para todos os setores, inclusive o de saneamento. De todos os municípios brasileiros, quem está mais avançado em relação a essa questão tributária no saneamento é a Sanasa. Nosso pessoal está indo dar cursos em várias cidades, a pedido da Agência Nacional de Água. Por quê? Porque nós nos preparamos para isso. Isso é um reconhecimento a excelência do trabalho executado pelos nossos funcionários.
Os resultados apresentados pela Sanasa são altamente positivos, como o senhor destaca. O senhor não teme que essa performance gere uma pressão pela privatização da empresa no futuro?
A Sanasa é uma das maiores empresas de saneamento do Brasil. Eu perguntaria o seguinte: qual é o maior obstáculo que existe para a privatização da Sanasa? A qualidade do serviço prestado pela empresa. Quando olhamos as pesquisas qualitativas, constatamos que o maior defensor da Sanasa é a própria população, são os próprios clientes. Então, o maior obstáculo para qualquer projeto de privatização da Sanasa é a população de Campinas.
A população de Campinas não quer que ela seja privatizada. Em qualquer pesquisa de opinião que você faça, isso aparece. Há 50 anos, a cidade tomou a decisão de criar uma empresa de saneamento. A Sanasa tem hoje um padrão de eficiência, uma busca por eficiência, que permite que ela preserve essa característica, seja no modelo público, seja no privado. No momento, com certeza, a decisão é por mantê-la como empresa pública.
Quais são os dados da pesquisa de satisfação do cliente que a empresa tem atualmente?
Olha, na última pesquisa que a gente realizou, esse índice atingiu 95% de satisfação do cliente, que é sensacional para o setor de utilities. É um número fantástico.
O senhor falou sobre a importância da geração da água de reúso. Qual o volume produzido atualmente pela Sanasa?
Hoje nós temos cerca de 20%, 22% do esgoto da cidade transformado em água de reúso. Esse volume não é necessariamente utilizado como água de reúso. Boa parte disso você devolve para o manancial, porque senão as cidades que vêm depois não têm água suficiente. Então, além de devolver parte para a natureza, nós usamos essa água para combater incêndio, lavar ruas, irrigar praças etc.
Em relação ao tratamento da água, que tipo de tecnologia a Sanasa usa para remover os poluentes?
Nós usamos, no tratamento terciário, o que tem de mais avançado, que são as membranas ultrafiltradas. Mas a gente está sempre antenado em relação a novas tecnologias. Existem algumas soluções que a gente vai testando, mas tem muita coisa que é embrionária, que você não consegue dar vazão em termos de escala industrial. Outro dia estava vendo televisão, e estava passando uma solução para remover um determinado poluente. Mas aquilo funciona em laboratório. Quando se leva para a escala industrial, não necessariamente ele funciona. Mas estamos atentos e temos parcerias com universidades, com centros de pesquisa, para saber o que tem de mais avançado. Hoje, as nossas estações de água de reúso operam com a melhor tecnologia disponível.
O senhor, que é soteropolitano, receberá no próximo dia 9 de abril o título de cidadão campineiro, por proposição do vereador Carmo Luiz. Como o senhor recebe essa homenagem?
Para mim, é muito importante. Como vocês sabem, eu não sou de Campinas, sou de Salvador. Eu vim para Campinas para estudar. Quando a gente sai de casa para estudar, sempre pensa em voltar para casa. E eu vim, fiquei, constitui família, passei um tempo fora da cidade trabalhando, mas fui convidado pelo prefeito Dário Saadi, o que muito me honrou, para presidir a Sanasa. Eu acho que esse título é o reconhecimento pela liderança de um trabalho. Não é o trabalho que eu fiz, porque esse trabalho não é meu. Esse trabalho é coletivo. Eu tenho uma equipe que trabalha muito bem. Equipe de diretores, equipe de gerentes, de engenheiros, de coordenadores, de economistas, de trabalhadores do setor de desenvolvimento, agentes operacionais, etc. Toda essa equipe trabalhou para universalizar o saneamento em Campinas dez anos antes do prazo. É realmente um reconhecimento a um trabalho coletivo. Mas para mim, pessoalmente, é muito importante.
Uma palavra sobre o seu Esporte Clube Bahia?
Olha, estou esperando o time decolar. Está melhor do que estava. Eu gosto muito do Rogério Ceni [técnico], eu me identifico muito com ele, porque é um cara obstinado. Ele está 24 horas pensando no trabalho. Eu, obviamente, não fico 24 horas pensando no trabalho, mas a cada oportunidade que tenho, vou linkando uma coisa com a outra, para melhorar o trabalho. Nesse sentido, eu me identifico muito com ele. Às vezes a gente está aqui conversando, batendo um papo, alguém fala alguma coisa, eu falo, opa, isso aqui poderia ter uma consequência interessante. Várias coisas que a gente tem feito surgiram assim, de conversas simples, despretensiosas, mas que a gente vai transformando e dando ideia e melhorando a ideia, porque a interação com as pessoas faz com que você melhore o que você pensa.
O Bahia é um dos seus hobbies?
Eu diria que é o hobby que eu mais gosto. É uma paixão de criança.
Fonte: Correio
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