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Entre o ‘regular’ e o alerta qualidade do rio Sorocaba preocupa especialistas

Entre o ‘regular’ e o alerta: qualidade do rio Sorocaba preocupa especialistas

Mesmo com índices considerados aceitáveis, pressão urbana e poluição indicam risco de agravamento no curto prazo

A classificação “regular” da qualidade da água do rio Sorocaba, apontada por levantamento recente da SOS Mata Atlântica, está longe de representar tranquilidade. Embora o índice indique que o rio ainda pode ser utilizado para abastecimento público após tratamento, especialistas alertam que o cenário exige atenção e pode se agravar diante do crescimento urbano acelerado. Para muitos, o rio ainda é visto como um obstáculo no cotidiano da cidade. Poucas vezes, porém, é tratado como um recurso essencial que precisa ser preservado.

O professor da área ambiental André Cordeiro explica que a classificação “regular” está diretamente relacionada à capacidade de tratamento da água para consumo humano. Na prática, isso significa que a água pode ser tratada por métodos convencionais e se tornar potável.

“Hoje, a água do rio Sorocaba tem condições de tratabilidade sem exigir custos muito acima do esperado. Mas é uma situação de alerta. Qualquer aumento na carga de poluição pode encarecer o tratamento ou até exigir a busca por outras fontes”, afirma.

Segundo ele, Sorocaba apresenta um cenário relativamente melhor quando comparado a municípios de porte semelhante no Estado de São Paulo, principalmente devido ao alto índice de tratamento de esgoto. Ainda assim, o rio sofre com problemas recorrentes, como o lançamento irregular de efluentes, o desmatamento das margens e a poluição difusa, muitas vezes carregada pela chuva a partir de áreas urbanas e agrícolas.

O engenheiro ambiental Renan Angrizani de Oliveira chama atenção para um dos indicadores mais críticos: a queda nos níveis de oxigênio dissolvido ao longo do curso do rio, especialmente em trechos urbanos.

Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH), monitorados pela Cetesb, mostram uma deterioração progressiva da qualidade da água. Em Votorantim, os índices são considerados bons, com média de 7,85 mg/L. No entanto, ao entrar em Sorocaba, a situação piora: o nível cai para 5,37 mg/L no Jardim Leocádia e atinge apenas 1,54 mg/L na região do Habiteto, o pior ponto registrado. “A redução do oxigênio dissolvido é um indicador crítico de poluição, geralmente associado à presença de matéria orgânica de esgoto”, explica Angrizani.

A percepção dessa mudança também é sentida por quem convive com o rio no dia a dia. O vendedor José Carlos, que pesca no local desde a infância, relata a diminuição de peixes ao longo dos anos.

“Parece que os peixes estão indo embora. A gente não percebe a qualidade da água piorando, mas os bichos sentem”, afirma.

Ainda segundo ele, houve períodos de abundância, mas atualmente a pesca se tornou mais difícil.

“Hoje levo meus filhos e parentes, mas não é mais como antes.”

Problemas no entorno

Além do trecho urbano, outro ponto de atenção é a Represa de Itupararanga, responsável por parte do abastecimento regional. A área sofre influência de esgoto insuficientemente tratado em municípios vizinhos, além do uso de fertilizantes e agrotóxicos, que acabam sendo levados pela chuva e contribuem para a degradação ambiental.

O engenheiro ambiental Renan Angrizani de Oliveira reforça que, apesar dos avanços no saneamento, o lançamento de esgoto ainda é o principal fator de impacto sobre o rio. Mesmo diante desse cenário, o rio apresenta certa capacidade de recuperação em trechos posteriores, como a partir de Iperó, onde o aumento da vazão e a menor pressão urbana favorecem uma melhora relativa da qualidade da água antes de seu encontro com o rio Tietê.

Os especialistas são unânimes ao apontar que o principal desafio não está apenas na ampliação do tratamento de esgoto, mas no modelo de ocupação urbana. A impermeabilização do solo, a redução da mata ciliar e o crescimento desordenado elevam a carga de poluentes e dificultam a recuperação do curso d’água. “O saneamento ajuda, mas não resolve tudo. A forma como a cidade cresce impacta diretamente a qualidade da água”, ressalta o professor da área ambiental André Cordeiro.

Se o cenário atual persistir, a tendência é de agravamento. Entre as possíveis consequências estão o aumento no custo do tratamento, dificuldades no abastecimento e uma degradação ambiental cada vez mais visível.

“A tendência é piorar. E isso pode acontecer mais rápido do que se imagina”, alerta o especialista.

Assim, o termo “regular”, que aparece na classificação, pode mascarar um problema mais sério. A água ainda é utilizável, mas por pouco tempo, caso não haja mudanças.

Fonte: Jornal Cruzeiro


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