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O perigo que não tem cor contaminantes invisíveis e o novo risco da água no século XXI

O perigo que não tem cor: contaminantes invisíveis e o novo risco da água no século XXI

A água pode parecer limpa. Mas a nova geração de contaminantes não tem cor — e os sistemas criados para protegê-la ainda não foram projetados para enxergá-los

Durante décadas, o debate sobre água girou em torno da escassez. Reservatórios baixos, secas prolongadas, falta de infraestrutura. O desafio parecia essencialmente volumétrico: ter ou não ter água suficiente. Esse enquadramento está ficando incompleto — e a ciência vem demonstrando, com crescente precisão, por quê. À medida que os métodos de detecção se tornam mais sofisticados, emerge uma nova fronteira de risco que não aparece nos noticiários sobre seca nem nos relatórios de estresse hídrico: a qualidade da água. Substâncias persistentes, partículas microscópicas e contaminantes difusos estão sendo encontrados em rios, aquíferos, oceano e até na água tratada que chega às torneiras.

A água pode parecer limpa. Mas o perigo, cada vez mais, não tem cor.

A nova geração de contaminantes hídricos tem uma característica em comum: a invisibilidade. Entre os grupos que mais preocupam cientistas e reguladores estão os PFAS — substâncias per- e polifluoroalquiladas — utilizados por décadas em produtos industriais e de consumo, de espumas anti-incêndio a revestimentos resistentes à água. Esses compostos praticamente não se degradam na natureza, o que lhes rendeu o apelido de “forever chemicals” (ou químicos eternos). Estudos associam a exposição prolongada a PFAS a uma série de riscos potenciais à saúde, levando governos a revisar padrões regulatórios e ampliar programas de monitoramento. O problema é que, uma vez presentes no ambiente, sua remoção é complexa e custosa. A contaminação por PFAS representa um passivo de longo prazo — acumulado silenciosamente ao longo de décadas de uso industrial praticamente irrestrito.

Os microplásticos representam um desafio diferente, mas igualmente perturbador. Partículas plásticas microscópicas já foram detectadas em água doce, em ambientes marinhos, em sedimentos, em alimentos e até em partes do corpo humano. A onipresença dessas partículas permeia múltiplos sistemas ambientais e coloca questões às quais a ciência ainda está trabalhando para responder com precisão. O que já está claro é que a crise da poluição plástica deixou de ser apenas visual — tornou-se onipresente. E a água, como vetor central do ciclo ambiental, é o principal meio pelo qual esses contaminantes se movem, se acumulam e, eventualmente, chegam à cadeia alimentar.

Há ainda a poluição difusa, especialmente associada ao uso de insumos agrícolas — agrotóxicos e fertilizantes — e de hormônios e fármacos — liberados pela urina no esgoto —, que se dispersam pelo território por meio do escoamento superficial e da infiltração no solo, alcançando rios, aquíferos e o oceano de forma muito mais difícil de rastrear e controlar do que uma descarga industrial pontual. Esse tipo de contaminação desafia os modelos tradicionais de monitoramento e exige uma integração entre políticas agrícolas, ambientais e hídricas que ainda é rara na prática institucional da maioria dos países.

O problema se aprofunda quando se consideram os limites dos sistemas existentes. Grande parte das estações de tratamento de água e esgoto foi projetada para remover contaminantes convencionais — matéria orgânica, sólidos suspensos e patógenos. A nova geração de poluentes emergentes apresenta desafios adicionais que essas infraestruturas, em sua maioria, não foram dimensionadas para enfrentar. PFAS, microplásticos e fármacos podem exigir tecnologias mais avançadas, como carvão ativado de alta eficiência, osmose reversa e processos oxidativos avançados — soluções que já existem, mas que demandam investimentos significativos e planejamento de longo prazo. O desafio regulatório é igualmente complexo: a ciência avança mais rápido do que os sistemas de monitoramento e as normas de qualidade conseguem acompanhar.

O Brasil ainda possui janelas importantes de prevenção, mas os sinais de alerta já se multiplicam em diversas bacias hidrográficas. O país enfrenta, simultaneamente, a necessidade de ampliar o acesso ao saneamento básico, fortalecer o monitoramento de contaminantes emergentes e integrar políticas de agricultura, indústria e recursos hídricos em uma agenda coerente. A palavra-chave é antecipação. Países que esperam a contaminação se consolidar enfrentam custos de remediação exponencialmente maiores — e danos à saúde pública que se acumulam muito antes de qualquer estatística oficial conseguir mensurá-los.

Se a escassez hídrica é visível e dramática, a crise da qualidade da água tende a ser silenciosa — e, por isso, mais persistente. O avanço científico trouxe um paradoxo incômodo: quanto melhor enxergamos a água em nível microscópico, mais percebemos a complexidade do desafio que se acumula sob a superfície. Soluções tecnológicas e regulatórias existem, mas exigem velocidade, investimento e governança coordenada em uma escala que o debate público ainda não incorporou com a seriedade necessária. No século da água, a quantidade e a qualidade deixaram de ser debates separados. São duas faces do mesmo risco sistêmico — e tratá-las de forma isolada é, em si, uma forma de subestimar o problema.

PFAS são extremamente persistentes no ambiente e já estão presentes em sistemas hídricos em múltiplas regiões do mundo. Microplásticos foram detectados em água doce, em ambientes marinhos e no corpo humano. A poluição agrícola difusa é um dos principais desafios do monitoramento hídrico global. Sistemas tradicionais de tratamento frequentemente não removem contaminantes emergentes. A regulação global da qualidade da água tende a se tornar cada vez mais rigorosa. Fontes: UNEP, OMS, literatura científica internacional.

POR – ELENI LOPES, DIRETORA DE REDAÇÃO

Fonte: Estadão


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