NOTÍCIAS

Governança e capacidade institucional pilares para o avanço do saneamento público (1)

Governança e capacidade institucional: pilares para o avanço do saneamento público

Painel do 54º Congresso Nacional da Assemae destaca desafios estruturais, fortalecimento técnico e defesa da gestão pública como caminho para a universalização do saneamento no Brasil

O painel “Gestão pública, governança e capacidade institucional” reuniu representantes de autarquias municipais, governo federal, agências reguladoras e especialistas do setor para debater os desafios estruturais do saneamento público brasileiro durante o 54º Congresso Nacional de Saneamento da Assemae. Coordenado por Alessandro Tetzner, vice-presidente da Assemae, o encontro destacou a necessidade de fortalecer a governança, ampliar a capacidade técnica dos municípios e garantir sustentabilidade financeira para que os investimentos em saneamento sejam efetivamente executados.

Márcio Leão Coelho, Secretário Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades   defendeu que o avanço do saneamento depende de quatro pilares fundamentais: governança regulatória, capacidade institucional e administrativa, sustentabilidade financeira e transparência. Segundo ele, a previsibilidade econômica do setor está diretamente ligada à segurança jurídica, ao respeito aos contratos firmados e à estabilidade regulatória, com agências autônomas e protegidas de interferências políticas.

Márcio também apresentou os investimentos previstos no Novo PAC, com recursos destinados ao esgotamento sanitário, abastecimento de água, prevenção de desastres e financiamento de projetos. Durante sua fala, destacou que a principal dificuldade enfrentada pelo Ministério ainda é a baixa qualidade técnica dos projetos encaminhados pelos municípios, o que acaba dificultando a seleção e aprovação dos investimentos. Segundo ele, o governo federal tem trabalhado para reduzir os prazos de análise, mas reforçou que é fundamental que os projetos estejam estruturados e tecnicamente consolidados antes de chegarem ao Ministério.

Na sequência, Adriano Graeff, diretor-geral da Água de Ivoti, apresentou a realidade do município gaúcho, onde mais de 96% da população possui acesso à água tratada.

Ele detalhou a estrutura operacional da cidade, com poços artesianos, reservatórios e quilômetros de redes de abastecimento, utilizando o caso de Ivoti para demonstrar como a gestão pública precisa ir além da operação cotidiana.

Graeff destacou que a gestão envolve controle de perdas, faturamento, atendimento ao cliente e qualidade da água, enquanto a governança exige planejamento, fiscalização, conselhos e regulação. Segundo ele, municípios menores enfrentam dificuldades estruturais importantes, como ausência de corpo técnico qualificado, indefinição tarifária e falta de regulamentações consolidadas.

Adriano também ressaltou os entraves políticos enfrentados na construção dessas estruturas e afirmou que o diálogo com gestores públicos é indispensável para consolidar políticas de saneamento.

Ao abordar a experiência de Ivoti, relembrou que o município levou cerca de quatro anos para estabilizar o abastecimento contínuo, em um processo interrompido pela pandemia, mas sustentado pela insistência na formação de equipes e na estruturação da gestão. Para ele, garantir água nas torneiras exige resolutividade, comunicação, qualificação contínua, vínculos institucionais e resiliência.

Representando o Samae de Caxias do Sul, Edson da Rosa apresentou os investimentos realizados pelo município nos últimos anos e reforçou o papel social do saneamento público. Entre os destaques, citou os mais de 2,4 mil quilômetros de rede, as usinas fotovoltaicas, os projetos educativos e o programa “Aqui em Casa Tem Água”, que subsidia caixas d’água para famílias.

Edson relembrou os impactos das enchentes de maio de 2024 e da estiagem enfrentada pelo município, afirmando que o Samae vem investindo fortemente em infraestrutura preventiva, como o programa Canaliza Caxias, com dezenas de obras voltadas à redução de alagamentos.

Ao defender a permanência dos serviços sob gestão pública, afirmou que empresas privadas não costumam assumir o acompanhamento social das comunidades e reforçou que o congresso também serve como espaço de mobilização contra a privatização do saneamento.

O presidente da Funasa, Lenildo Dias de Morais, afirmou estar há apenas 15 dias à frente da fundação e definiu o congresso como um espaço de aprendizagem. Em sua fala, defendeu que o saneamento deve ser tratado a partir da humanização, relacionando diretamente saneamento básico e saúde pública.

Lenildo destacou a necessidade de transformar políticas de governo em políticas de Estado, garantindo continuidade dos projetos independentemente das mudanças de gestão municipal ou federal. Segundo ele, a Funasa pretende ampliar o apoio técnico aos municípios de até 50 mil habitantes, auxiliando principalmente na elaboração de projetos e na qualificação documental, já que muitos processos acabam sendo recusados por deficiência técnica. O presidente também citou a intenção de retomar projetos paralisados, fortalecer parcerias institucionais e ampliar ações voltadas ao saneamento rural e ambiental, incluindo propostas ligadas ao Fundo Amazônia.

A fala de Neri Chilanti, diretor técnico da Comusa de Novo Hamburgo, aprofundou o debate sobre gestão pública eficiente. Para ele, governança define o rumo estratégico, enquanto a gestão é responsável por executar as ações necessárias para alcançar os objetivos.

Neri afirmou que a solução do saneamento brasileiro passa diretamente pela qualidade da gestão e reforçou que controlar indicadores é essencial para avaliar resultados e eficiência da máquina pública. Utilizando experiências da Comusa, apresentou processos de reestruturação administrativa, capacitação continuada e reorganização de equipes.

Um dos exemplos citados foi o caso de um funcionário que, após anos trabalhando apenas na manutenção de bombas, passou a compreender o impacto social do seu trabalho após processos de qualificação interna. Chilanti também relembrou experiências de apoio técnico prestado a outros estados, como Roraima, defendendo que capacitação, gestão de pessoas, combate a perdas e desburocratização são elementos centrais para o fortalecimento das autarquias públicas.

Já Antônio Carlos Lobão trouxe uma reflexão crítica sobre o novo marco legal do saneamento. Resgatando a história da própria Assemae, ele comparou o atual cenário ao mito do rei Midas, argumentando que o saneamento passou a ser visto como oportunidade de transformar água em lucro.

Segundo Lobão, o discurso de que o novo marco resolveria os problemas do setor e atrairia investimentos privados acabou se tornando um “mito”, já que muitos processos de privatização resultaram em aumento tarifário e judicialização. Para ele, os indicadores brasileiros demonstram que os serviços públicos de saneamento possuem capacidade técnica e não devem ser tratados como ineficientes. Em sua avaliação, transformar a água em ativo financeiro faz com que ela perca seu valor essencial enquanto direito básico da população.

Seguindo a mesma linha crítica, Damião Ribeiro dos Santos, diretor do Saae de Carinhanha, defendeu que o saneamento público não é o problema, mas parte da solução. Ele afirmou que o novo marco legal não solucionou os gargalos históricos do setor e alertou para o avanço das PPPs e privatizações após a aprovação da Lei 14.026.

Damião apresentou dados sobre cobertura de água tratada no país e lembrou que o Brasil ainda necessita de investimentos bilionários para alcançar as metas do Plansab. Citando casos como Tocantins e Rio de Janeiro, afirmou que experiências de privatização geraram desequilíbrios financeiros e aumentos tarifários, reforçando que o grande desafio do setor continua sendo financiamento e regulação adequados.

Encerrando o painel, Célio Bartole Pereira, da ANA, destacou que governança e gestão precisam caminhar juntas para que os serviços atinjam eficiência e universalização. Ele reforçou a importância da regulação, inclusive nos serviços prestados diretamente pelos municípios, citando os dispositivos previstos na Lei nº 11.445/2007.

Segundo Célio, o desafio do setor não é apenas regular, mas garantir uma regulação de qualidade, baseada em princípios de governança e boas práticas institucionais. Entre as alternativas apresentadas, destacou as diretrizes da Norma de Referência nº 4, que prevê critérios de comprovação, metodologias de avaliação e programas de incentivo voltados ao fortalecimento das entidades reguladoras.

Ao longo de todo o painel, ficou evidente um consenso entre os participantes: a universalização do saneamento depende menos de soluções imediatistas e mais da construção contínua de capacidade técnica, governança sólida, planejamento de longo prazo e fortalecimento das estruturas públicas responsáveis pelos serviços.

Fonte: Assemae


ÚLTIMAS NOTÍCIAS:
Recuperação dos ecossistemas da bacia do Rio Doce (MG e ES) receberá investimento de R$ 232,7 milhões

Recuperação dos ecossistemas da bacia do Rio Doce (MG e ES) receberá investimento de R$ 232,7 milhões

A recuperação dos ecossistemas aquáticos da Bacia do Rio Doce contará com um investimento de R$ 232,7 milhões por meio do Projeto de Restauração Ecológica de Ecossistemas Aquáticos Prioritários, recursos do Acordo de Reparação do Rio Doce. Coordenado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), o programa terá duração inicial de cinco anos, com possibilidade de prorrogação por até duas décadas.

Continuar lendo »

CATEGORIAS

Confira abaixo os principais artigos da semana

Abastecimento de Água

Análise de Água

Aquecimento global

Bacias Hidrográficas

Biochemie

Biocombustíveis

Bioenergia

Bioquímica

Caldeira

Desmineralização e Dessalinização

Dessalinização

Drenagem Urbana

E-book

Energia

Energias Renováveis

Equipamentos

Hidrografia / Hidrologia

Legislação

Material Hidráulico e Sistemas de Recalque

Meio Ambiente

Membranas Filtrantes

Metodologias de Análises

Microplásticos

Mineração

Mudanças climáticas

Osmose Reversa

Outros

Papel e Celulose

Peneiramento

Projeto e Consultoria

Reciclagem

Recursos Hídricos

Resíduos Industriais

Resíduos Sólidos

Reúso de Água

Reúso de Efluentes

Saneamento

Sustentabilidade

Tecnologia

Tratamento de Água

Tratamento de Águas Residuais Tratamento de águas residuais

Tratamento de Chorume

Tratamento de Efluentes

Tratamento de Esgoto

Tratamento de lixiviado

Zeólitas

ÚLTIMAS NOTÍCIAS