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Dá para despoluir um rio

Projetos bem-sucedidos mostram que para revitalizar rios é preciso unir três peças fundamentais: estrutura completa de saneamento, coleta de lixo e a participação da sociedade

SÃO PAULO – A história se repete em quase todo o mundo. Nada mais sensato que construir uma cidade perto de um rio. É ele que fornece água para a população, serve como meio de transporte e lazer.  Mas, por algum motivo, as cidades crescem e o rio passa a ser o local para descarte de lixo e esgoto. É nesse momento que ele se transforma completamente. Não há mais vida por lá. Ele está poluído, morto, e se torna foco de desconforto e doenças para a população.

O problema já é recorrente e deve aumentar. Um levantamento feito pela Comissão Mundial de Águas mostrou que os 500 maiores rios do planeta já enfrentam problemas com a poluição. De acordo com um estudo feito pela ONG Food and Water Watch, cidades com mais de 3,5 bilhões de habitantes vão enfrentar problemas de abastecimento de água, já em 2025, como consequência da poluição dos rios.

A boa notícia é que é possível recuperar um rio poluído. Basicamente, é preciso remover a fonte de contaminação, ou seja, garantir que o esgoto não seja lançado no rio sem o devido tratamento, retirar os contaminantes e contar com a vigilância da população.

“Se cuidarmos de todos os processos que envolvem os serviços de saneamento, da captação ao abastecimento e por consequência a coleta e tratamento dos esgotos, teremos nossos rios limpos. Hoje a principal dificuldade, no Brasil, é a falta de estrutura para tratar e devolver os esgotos gerados pela população aos rios de maneira eficiente e adequada”, afirma Fernando Santos-Reis, fundador da Odebrecht Ambiental.

São projetos demorados e caros, que envolvem obras de ampliação do sistema de saneamento das cidades e uso de tecnologia das mais variadas, como sistemas de filtragens supermodernos e bactérias.

Uma história secular

O caso mais emblemático de despoluição ocorreu na Inglaterra com o rio Tâmisa, que já em 1670 teve sua água declarada imprópria para consumo. Os primeiros projetos de recuperação começaram em 1850, mas todos eles com pouco ou nenhum sucesso.

Anos depois, em 1957, a quantidade de oxigênio na água era tão baixa que ele foi considerado um rio morto. O cheiro de ovos podres era tão forte que o rio recebeu o apelidou de Grande Fedor.

Foi exatamente na mesma época do apelido nada pomposo que as tentativas de recuperação do rio começaram a ganhar mais força. Na década de 1960 começaram as construções de várias estações de tratamento e dez anos depois o rio já apresentava seus primeiros sinais de recuperação: não havia mais cheiro de ovos e os primeiros peixes começaram a surgir.

Por rios mais limpos

Outros rios de grandes cidades do mundo passaram por processos longos de recuperação, devolvendo à população qualidade de vida e baixando índices de doenças como cólera e outras.

Apesar dos bons exemplos pelo mundo, muitos outros rios ainda precisam ser recuperados. Aqui no Brasil, o caso mais aguardado é a despoluição do rio Tietê, em São Paulo. Iniciado em 1992, o projeto Tietê, de despoluição do rio já está na terceira etapa, mas ainda não há nenhuma mudança significativa sentida pela população.

Um caso bem-sucedido aqui no Brasil, ocorreu na cidade de Rio Claro, no interior paulista. O projeto implementado pela Odebrecht Ambiental – empresa responsável pelo tratamento de esgoto da cidade – começou em 2013 e o resultado já pode ser observado.

Ao todo, foram 600 dias de trabalho que garantiram a construção de 21 quilômetros de redes de esgoto e mais de dez milhões de litros de esgoto deixaram de ser lançados por dia no córrego da Servidão. Apenas a título de curiosidade, na obra foram usados mais de 3.600 tubos e escavados mais de 140.000 m³ de vala.

“Antes disso, Rio Claro já tinha despoluído, em 2011, o rio que dá nome a cidade. Com a construção de uma estação de tratamento de esgotos e das redes que tiraram o esgoto de toda a margem do ribeirão Claro, a cidade celebrou o fato de ter trazido a vida de volta para o rio tão emblemático para o município” recorda Fernando Santos-Reis.

Como ocorreu no rio Tâmisa, em Londres, o programa de despoluição do córrego da Servidão, em Rio Claro, eliminou um problema crônico e histórico do município: o mau cheiro nas principais vias da cidade.

Mais do que isso, a despoluição do córrego da Servidão trouxe não só benefícios para a cidade, como também para toda a região. Isso porque, o córrego é um afluente do rio Corumbataí e o trabalho feito na cidade de Rio Claro pôde ser percebido também no município de Piracicaba, que utiliza o mesmo manancial para captação de água.

A população é que manda

Outro exemplo que também já está mostrando resultados ocorreu em Cachoeiro do Itapemirim, cidade com 200 mil habitantes no Espírito Santo. Lá, desde 2014, um projeto implementado pela Odebrecht Ambiental tem como base o diagnóstico da situação dos córregos e a participação da população para informar sobre possíveis ligações irregulares de esgoto.

Atualmente, 90% dos córregos na cidade já estão saneados, e mais de 98% das residências contam com serviço de esgoto completo. Mesmo assim, ainda é possível identificar lançamentos irregulares de esgoto, lixo e entulho nos córregos da cidade.

“A conservação do meio ambiente é um esforço conjunto. Percebemos que a sociedade se engaja e se sente responsável quando entende que os responsáveis pelos serviços públicos também demostram empenho” reforça Fernando. “De qualquer forma, é parte do nosso desafio, além da prestação dos serviços, despertar o censo de pertencimento e levar educação ambiental para os lugares onde estamos presentes”, conclui.

Para reverter a situação, o projeto contou com a participação da população, que passou por workshops, mutirão de revitalização de nascentes e, como parte interessada para a melhoria da qualidade da água dos córregos, integrou um canal direto para denunciar irregularidades. Em pouco mais de dois anos de projeto, já é possível notar a diferença.

Fonte: Juntos pela água