Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) transformou resíduos de pescado em biofertilizante. Além disso, o projeto conquistou um prêmio internacional na categoria Scale Up do Innovation Awards Roullier 2025-2026.
A inovação, voltada à economia circular e à nutrição vegetal, garantirá ao projeto mentoria de uma multinacional francesa e acesso a estrutura de pesquisa na Europa.
A solução foi idealizada pelo pesquisador Guilherme Lenz, sob a orientação do professor Arcangelo Loss, e é voltada à nutrição vegetal e à economia circular. A startup baseada no estudo superou primeiramente a seletiva nacional, no Brasil, e depois consagrou-se na etapa mundial, realizada na França.
Com a conquista, a empresa receberá mentoria com especialistas do Groupe Roullier, visibilidade de mercado, facilitação para novos experimentos e incubação técnica com acesso aos equipamentos do Centre Mondial de l’Innovation do Groupe Roullier.
- Leia também: MME e MMA publicam portaria para ampliar uso de resíduos na produção de biocombustíveis
Inovação biotecnológica com restos de peixe como adubo na agricultura
A pesquisa valoriza resíduos de pescado na agricultura por meio da produção e aplicação de biofertilizantes. Tradicionalmente, a indústria destina os descartes dessa cadeia à fabricação de farinha e óleo de peixe.
Essas aplicações apresentam baixo valor agregado quando comparadas ao potencial biotecnológico desses resíduos. Além disso, parte desse material ainda é descartada de forma inadequada em aterros sanitários. Como consequência, o processo gera impactos ambientais relevantes.
Contudo, a alta concentração de proteínas, lipídios, aminoácidos e minerais nos resíduos motivou uma nova forma de tratar os restos de peixe como adubo para a produção de alface.
O GEEHSA (Grupo de Estudos em Engenharia Hidráulica e Saneamento Aquícola) validou o processo de produção em ambiente laboratorial. Posteriormente, o NEPEA (Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia) executou os estudos agronômicos dentro de casas de vegetação.
Para avaliar a consistência dos efeitos em diferentes condições sazonais, foram conduzidos dois experimentos independentes com o cultivo de alface, correspondentes às estações de verão e de inverno.
“Os trabalhos desenvolvidos avaliaram biofertilizantes produzidos a partir de resíduos de pescado, tanto na forma líquida quanto microencapsulada em pó, em experimentos conduzidos em casa de vegetação com cultivo de alface”, explica Guilherme Lenz.
De acordo com o pesquisador, os resultados demonstraram que os bioinsumos sustentam a produtividade de modo equivalente à adubação convencional, reduzindo a dependência de fertilizantes químicos.
“Foi observado efeito bioestimulante, com melhoria em parâmetros fisiológicos das plantas, sugerindo maior eficiência na absorção e uso de nutrientes”, complementa.
Impactos no solo com o uso de restos de peixe como adubo
As avaliações da pesquisa incluíram a medição da produtividade vegetal, o estado nutricional das plantas, os atributos químicos do solo e a análise do microbioma do solo por meio de sequenciamento molecular.
Os dados revelaram que os biofertilizantes atuam de forma integrada. Enquanto a adubação de matriz mineral estimula uma maior presença de microrganismos com potencial patogênico, o insumo orgânico promoveu alterações benéficas na biologia do solo.
Nos canteiros testados, houve um aumento expressivo de grupos bacterianos e fúngicos associados à ciclagem de nutrientes, decomposição e biocontrole de pragas.
“De maneira geral, os resultados indicam que a utilização de restos de peixe como adubo na forma de bioinsumos agrícolas pode contribuir simultaneamente para a valorização de resíduos e economia circular, manutenção da produtividade agrícola, melhoria da qualidade biológica do solo e promoção de sistemas agrícolas mais sustentáveis e resilientes”, pontuou o pesquisador premiado.
Fonte: NDMais

