WRI Brasil defende protocolo unificado baseado na legislação nacional e em padrões internacionais para ampliar a confiança de mercados como China e União Europeia
O Brasil já dispõe de ferramentas para monitorar o desmatamento e rastrear a origem da carne bovina e da soja, mas a falta de integração entre esses sistemas pode comprometer a competitividade do agronegócio em um cenário de exigências ambientais cada vez maiores por parte dos mercados internacionais. Essa é a principal conclusão do estudo “Rastreando a responsabilidade: fortalecendo o monitoramento do desmatamento nas cadeias de suprimento de soja e carne bovina do Brasil”, divulgado nesta semana pelo WRI Brasil. A notícia foi citada no boletim diário do ClimaInfo.
A análise aponta que, em vez de desenvolver novos mecanismos de controle, o país deveria integrar as iniciativas já existentes em um protocolo comum, capaz de harmonizar critérios de rastreabilidade e monitoramento do desmatamento. Segundo a organização, isso poderia fortalecer a credibilidade das cadeias produtivas brasileiras e facilitar o acesso a mercados estratégicos, como a China e a União Europeia, que vêm ampliando as exigências relacionadas à origem dos produtos agropecuários.
“O desafio não é criar novos instrumentos, mas tornar essa base mais integrada, acessível e aplicável às decisões de produção, compra, financiamento e investimento, transformando a legalidade, a rastreabilidade e a transparência em confiança e vantagem competitiva”, afirma o WRI Brasil no estudo.
A proposta é criar um marco de referência unificado que combine a legislação ambiental brasileira com padrões internacionais de cadeias livres de desmatamento e conversão da vegetação nativa (DCF, na sigla em inglês). Para a entidade, uma base técnica comum ajudaria a aproximar diferentes sistemas de monitoramento já utilizados no país e serviria de referência para negociações comerciais.
A China, principal destino das exportações brasileiras de soja e carne bovina, é apontada como um dos mercados que podem se beneficiar desse alinhamento. Segundo o estudo, um protocolo unificado poderia dar mais previsibilidade às relações comerciais, facilitar a comprovação de conformidade ambiental pelos exportadores brasileiros e embasar futuros acordos bilaterais.
Gargalos na pecuária e na soja
O estudo também identifica desafios específicos nas duas cadeias produtivas. Na pecuária, o principal obstáculo continua sendo a rastreabilidade dos fornecedores indiretos — propriedades que comercializam animais para outras fazendas antes da venda aos frigoríficos. Para ampliar a transparência da cadeia, o WRI Brasil recomenda expandir o uso das Guias de Trânsito Animal (GTA) e avançar em sistemas de identificação individual dos animais.
Já na cadeia da soja, a análise aponta que parte das iniciativas de monitoramento acompanha apenas as áreas efetivamente cultivadas, sem considerar toda a propriedade registrada no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Segundo o estudo, mecanismos considerados mais completos já existentes no país incluem plataformas estaduais, como a desenvolvida pelo Pará, e protocolos utilizados na Amazônia e no Cerrado que cruzam informações do CAR com alertas de desmatamento e listas de áreas embargadas.
Para Mariana Oliveira, diretora do programa de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil, a adoção de um sistema integrado representa mais do que uma resposta às exigências dos compradores internacionais.
“Mais do que responder a exigências externas, é uma oportunidade para o Brasil transformar a transparência e a confiabilidade em pilares da estratégia de desenvolvimento”, afirmou a Bloomberg Línea. “O Brasil tem condição de participar e fazer essa transformação, não apenas para seguir fornecendo commodity, mas para ser protagonista nessa construção de cadeias de produção e comércio mais resilientes, competitivas e sustentáveis.”
Na avaliação do WRI Brasil, a integração dos sistemas de monitoramento pode representar uma oportunidade para que o país fortaleça sua posição nas discussões internacionais sobre comércio e sustentabilidade, ao mesmo tempo em que amplia a transparência das cadeias produtivas e contribui para reduzir o risco de desmatamento associado à produção agropecuária.
Fonte: Um só planeta

