NOTÍCIAS

Uso de água subterrânea vira alvo de alarmismo e distorce debate técnico

Uso de água subterrânea vira alvo de alarmismo e distorce debate técnico | Engeper Ambiental

Nas últimas semanas, portais noticiosos e redes sociais repercutiram a afirmação de que o uso excessivo de água subterrânea estaria ameaçando o fluxo dos rios brasileiros.

Embora o alerta técnico seja legítimo, a forma como foi apresentada simplifica um fenômeno complexo e desloca o debate para o campo do alarmismo, pouco contribuindo para a compreensão real do tema.

O estudo que embasa essa narrativa, publicado em 2025 com apoio da FAPESP e da Universidade de São Paulo, analisou dados de cerca de 18 mil poços e identificou situações específicas em que o nível dos aquíferos fica abaixo do dos rios, potencialmente provocando a chamada inversão de fluxo. O problema não está nos dados, mas na generalização indevida de conclusões regionais para o território nacional.

Um ponto central frequentemente ignorado é que rios e aquíferos fazem parte de um mesmo sistema hidrológico, cuja interação é complexa e depende de diversos fatores, como: tipo de aquífero, características geológicas locais, regime de chuvas, uso e ocupação do solo, volume de extração autorizado e capacidade de recarga natural. Em muitos casos, inclusive, os aquíferos contribuem positivamente para a manutenção do fluxo dos rios, especialmente durante períodos de estiagem, funcionando como uma reserva estratégica de água.

Segundo a Agência FAPESP, os casos mais críticos se concentram em áreas com alta pressão sobre os recursos hídricos, como partes do Matopiba e da bacia do São Francisco, onde entre 61% e 74% dos rios analisados apresentaram potencial de perda de vazão para o subsolo. Transformar esse recorte em um diagnóstico nacional ignora o funcionamento do sistema hidrológico brasileiro e desinforma a população ao sugerir que o simples uso de água subterrânea é, por si só, uma ameaça aos rios.

A legislação e a fiscalização desempenham papel fundamental nesse contexto. O Brasil possui um arcabouço legal sólido para a exploração de águas subterrâneas: a perfuração e operação de poços dependem de outorga emitida por órgãos ambientais competentes, estudos hidrogeológicos prévios, limites de vazão definidos tecnicamente, monitoramento e fiscalização contínuos. Quando essas normas são respeitadas, o uso da água subterrânea é considerado sustentável e seguro, não representando ameaça automática aos rios.

Especialistas ressaltam que os maiores riscos ambientais estão associados à exploração irregular, como poços clandestinos, retirada sem medição, ausência de licenciamento e falta de integração entre a gestão das águas superficiais e subterrâneas. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos, atualizados em 2025, indicam que a maior parte dos conflitos envolvendo aquíferos ocorre justamente onde há falhas de fiscalização, e não onde a legislação é cumprida.

Generalizações como a manchete “uso excessivo de água subterrânea ameaça os rios brasileiros” prejudicam o debate público. Elas podem gerar medo injustificado, descredibilizar o uso responsável dos recursos hídricos, confundir a população e prejudicar setores que atuam dentro da legalidade. O próprio estudo destaca que os efeitos observados não são homogêneos e estão concentrados em áreas com uso intensivo e gestão inadequada.

O debate público precisa considerar mais do que demonizar a água subterrânea. Ele deve focar em: fortalecimento da fiscalização, combate à exploração ilegal, integração entre políticas de águas superficiais e subterrâneas, incentivo ao monitoramento contínuo dos aquíferos e uso baseado em critérios técnicos e científicos. A água subterrânea é um recurso estratégico para o Brasil, especialmente em regiões sujeitas à estiagem. O verdadeiro desafio não é seu uso, mas a gestão adequada.

Portanto, a matéria original não apresenta informações falsas, mas oferece uma leitura parcial e sensacionalista de um tema complexo, omitindo aspectos essenciais como legislação, fiscalização e diferenças regionais. Uma comunicação responsável deve informar com precisão, evitando generalizações que podem gerar desinformação e comprometer o debate sobre a gestão sustentável dos recursos hídricos.

Fonte: Engeper Ambiental


ÚLTIMAS NOTÍCIAS:

CATEGORIAS

Confira abaixo os principais artigos da semana

Abastecimento de Água

Análise de Água

Aquecimento global

Bacias Hidrográficas

Biochemie

Biocombustíveis

Bioenergia

Bioquímica

Caldeira

Desmineralização e Dessalinização

Dessalinização

Drenagem Urbana

E-book

Energia

Energias Renováveis

Equipamentos

Hidrografia / Hidrologia

Legislação

Material Hidráulico e Sistemas de Recalque

Meio Ambiente

Membranas Filtrantes

Metodologias de Análises

Microplásticos

Mineração

Mudanças climáticas

Osmose Reversa

Outros

Papel e Celulose

Peneiramento

Projeto e Consultoria

Reciclagem

Recursos Hídricos

Resíduos Industriais

Resíduos Sólidos

Reúso de Água

Reúso de Efluentes

Saneamento

Sustentabilidade

Tecnologia

Tratamento de Água

Tratamento de Águas Residuais Tratamento de águas residuais

Tratamento de Chorume

Tratamento de Efluentes

Tratamento de Esgoto

Tratamento de lixiviado

Zeólitas

ÚLTIMAS NOTÍCIAS