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Petrobras e Shell financiam estudo inédito que mede estoque de carbono em solos e florestas brasileiras

Pesquisa pretende criar linha de base do estoque de carbono até 2030 e envolve universidades, setor de energia e debate sobre mercado climático

A Petrobras e a Shell anunciaram o financiamento de um amplo estudo científico para medir quanto carbono está armazenado nos solos e nas florestas de todos os estados brasileiros. Batizado de Carbon Countdown, o projeto prevê investimentos de R$ 108 milhões, sendo R$ 54 milhões aportados por cada empresa, com conclusão estimada para o ano de 2030. As informações são da Folha de São Paulo.

A iniciativa será conduzida em parceria com o Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon), instituto vinculado à reitoria da Universidade de São Paulo (USP), com participação direta de pesquisadores da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz).

Coordenador científico do Carbon Countdown, o professor Maurício Cherubin, do departamento de ciência do solo da Esalq-USP, explicou que o formato final do projeto surgiu após um longo processo de negociação com as empresas financiadoras.

“Foi uma negociação, um namoro, quase um casamento de longo prazo”, afirmou. Segundo ele, a Shell apresentou a ideia inicial há cerca de três anos e meio. “Eles compartilharam conosco uma ideia e demos sugestões. A partir daí, confiaram no nosso time para remodelar a ideia inicial, que não era exequível, no projeto que temos hoje.”

O principal objetivo do estudo é estabelecer uma linha de base nacional do estoque de carbono, indicando a média da quantidade do elemento retida nos solos e na vegetação brasileira. Essa informação é considerada estratégica pelo agronegócio, que questiona o uso de parâmetros internacionais para calcular o balanço de emissões de gases de efeito estufa no país.

“A conexão é total, e a justificativa é total”, disse Cherubin, ao comentar a relação do projeto com as demandas do setor. “Cada vez mais sentimos falta dessa linha de base.”

O dióxido de carbono (CO₂) é o principal gás associado ao aquecimento global, e sua retirada da atmosfera ocorre sobretudo por meio da fotossíntese realizada pelas florestas. Produtores rurais argumentam que parte relevante das emissões da agropecuária é compensada pela captura de carbono nas áreas vegetadas das propriedades. O Carbon Countdown prevê, por isso, a coleta de biomassa em áreas agrícolas para medir o carbono armazenado nas plantações.

O envolvimento de empresas do setor de óleo e gás em pesquisas climáticas, no entanto, é alvo de críticas. Em nota conjunta, especialistas do Instituto Internacional Arayara alertaram para possíveis conflitos de interesse.

“O fato de empresas de combustíveis fósseis financiarem um estudo climático pode levantar dúvidas sobre conflitos de interesse ou a agenda desses atores em moldar o mercado de carbono conforme seus próprios interesses”, afirmaram Hirdan Costa, John Würdig e Juliano Bueno.

Para eles, projetos desse tipo podem ser usados para justificar a continuidade das atividades das petroleiras, sob o argumento de investimentos em mitigação ou créditos de carbono.

Petrobras e Shell, por sua vez, informaram que os recursos destinados ao Carbon Countdown se enquadram como investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, conforme cláusulas dos contratos de exploração firmados com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).

Cherubin defendeu a participação das companhias no estudo e destacou a intenção de divulgar os resultados em artigos científicos.

“Elas têm uma responsabilidade frente às mudanças climáticas, são um setor importante nas emissões, e mais do que justo que também invistam recursos para ajudar a resolver esse problema”, declarou.

O projeto irá abranger diferentes usos do solo, como agricultura, pecuária, plantações de eucalipto e áreas degradadas, cobrindo todos os biomas e estados do país. Ao todo, estão previstas coletas em 6.500 pontos, com nove amostragens em cada local e análises que alcançarão até um metro de profundidade, totalizando mais de 250 mil amostras. Também serão analisadas 1.000 parcelas de florestas, cada uma com 900 metros quadrados.

A estimativa do carbono estocado na vegetação será baseada no número de plantas e no diâmetro médio das árvores. Algumas delas serão derrubadas para pesagem da biomassa e calibração dos cálculos. Segundo Cherubin, todos os cortes terão autorização prévia do Ibama.

Para Alexandre Breda, gerente de tecnologias de baixo carbono da Shell Brasil, o estudo busca dar mais robustez ao chamado “ativo carbono”. Ele afirmou que a exploração de combustíveis fósseis ainda deve persistir, mesmo com a necessidade de acelerar a transição energética.

“Não é um mundo de ‘ous’, é um mundo de ‘es’”, disse. “O mundo precisa de segurança energética, desfossilização e descarbonização, mas acho que tem um ‘pace’ para ser seguido.” Segundo Breda, o projeto pode colocar o Brasil em posição de liderança global na mensuração de carbono.

Na Petrobras, o acompanhamento será direto. O gestor de meio ambiente do centro de pesquisa da empresa, André Bueno, afirmou que a estatal vai monitorar todas as etapas do trabalho.

“A nossa equipe técnica vai acompanhar todas as metodologias empregadas, todos os resultados gerados e vai criticar, avaliar e validar essas informações”, declarou. Ele acrescentou que o processo será supervisionado por um comitê técnico e gestor, responsável por avaliar o andamento físico e financeiro do projeto.

Questionado sobre o uso futuro dos dados para compensar emissões da própria companhia, Bueno disse que essa é uma possibilidade.

“Existe a chance de aproveitar as conclusões para gerar créditos de carbono com áreas conservadas”, afirmou.

Outra alternativa mencionada é a geração de créditos a partir de biocombustíveis, com base na capacidade das plantas de estocar carbono durante o crescimento.

O Instituto Arayara, no entanto, reforçou a necessidade de cautela. Em nova manifestação, a entidade alertou para o risco de que os dados, mesmo abertos, sejam utilizados para legitimar volumes maiores de créditos de carbono em operações ainda associadas à exploração de combustíveis fósseis, prática frequentemente classificada como greenwashing no debate ambiental.

Fonte: Brasil 247


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