Setor adota práticas como reúso de água e a transformação de dejetos em biogás, fertilizante e até tijolos. Monitoramento em tempo real da distribuição antecipa situações de estresse para o sistema
Inteligência artificial para monitorar redes de distribuição em tempo real, sensores para detecção de vazamentos e algoritmos para previsão de demanda do consumo de água são os instrumentos que as empresas de saneamento estão usando para tornar mais eficiente a operação. O uso é crucial num país onde cerca de 40% da água produzida não chega aos consumidores, perdendo-se ao longo do caminho. Ao mesmo tempo, as empresas têm implementado modelos de negócios baseados na economia circular (que visa reduzir o desperdício e a poluição), tornando a operação mais sustentável também financeiramente.
— São iniciativas que reduzem custos e criam novas fontes de receita para as concessionárias — diz Ivana Cota, advogada do Ciari Moreira Advogados.
A produção de biogás e biometano a partir de lodo de esgoto, transformando matéria orgânica em energia renovável, vem ganhando espaço nesse setor. O Brasil possui um potencial estimado de 120 milhões de m³ por dia de biogás, mas ainda utiliza uma pequena fração desse volume. O setor é intensivo em energia — responsável por cerca de 3% do consumo total de eletricidade do país. Essa dependência torna a eficiência energética um fator importante para a viabilidade econômica dos projetos.
O lodo tratado também se transforma em fertilizantes, e projetos de reúso permitem fornecer água não potável para indústrias, irrigação e data centers, reduzindo a pressão sobre os mananciais.
— Na Iguá, estamos investindo na digitalização das operações, monitoramento de redes e uso de dados para tomada de decisão — diz o CEO da Iguá, René Silva.
Atendimento digital
Uma das frentes em andamento é o uso de hidrômetros inteligentes e sistemas de telemetria, que permitem acompanhar o consumo de água em tempo real e identificar perdas ou irregularidades com maior precisão. Cerca de 45% do volume distribuído pela companhia já é monitorado por medição inteligente, índice que chega a 65% na operação do Rio de Janeiro. A empresa também tem aplicado a inteligência artificial e análise de dados para identificar fraudes.
Em Cuiabá, um sistema israelense, baseado em nuvem, integra dados de vazão, pressão, nível de reservatórios e sensores que ajudam a avaliar a qualidade da água. Em Sergipe, a empresa usa drones para monitorar as estruturas. O CEO da Iguá afirma que 85% das demandas dos clientes também já são resolvidas por autoatendimento digital, reduzindo o tempo médio de espera. A empresa reaproveita os resíduos do tratamento de esgoto para uso de energia renovável.
Aguinaldo Ballon, CEO da Cedae, que atua no Rio de Janeiro na captação, tratamento e distribuição de água, além de obras de infraestrutura, explica que o lodo proveniente do tratamento de água, diferentemente do lodo do esgoto, não tem massa e compostos químicos para gerar biogás. Mas a empresa vai dar uma destinação diferente a esses resíduos. O projeto da Cedae é secar esse lodo e transformá-lo em tijolos, que serão usados na construção civil. Com startups, a Cedae desenvolveu um projeto de inteligência artificial para monitorar e prevenir riscos à qualidade da água captada pela Estação de Tratamento de Água (ETA) Guandu.
— A plataforma antecipa situações de risco em mananciais e estações de tratamento, permitindo ações preventivas frente a eventos como chuvas intensas ou floração de algas — diz Ballon, lembrando que o sistema consegue antecipar em até sete dias essas situações, permitindo que a empresa prepare a estação de tratamento para se adequar às mudanças no meio ambiente.
Na Aegea, que controla a concessionária Águas do Rio, também já é feita a gestão inteligente das redes de água com sensores, telemetria e análise de dados para monitorar pressão, vazão e consumo em tempo real. Em algumas operações, a tecnologia inclui o uso de imagens de satélite e algoritmos de inteligência artificial para detectar vazamentos subterrâneos, além da implantação de válvulas inteligentes e modelagem hidráulica das redes.
— Esse conjunto de ações permitiu reduzir perdas. Somente em 2024, os programas de eficiência hídrica evitaram o desperdício de 5,3 bilhões de litros de água, volume suficiente para abastecer cerca de 1,3 milhão de pessoas por um ano — diz Radamés Casseb, CEO da Aegea Saneamento.
Água de reúso na indústria
Na economia circular, a companhia vem aproveitando resíduos gerados no tratamento de esgoto como fertilizantes ou em processos industriais, reduzindo o descarte em aterros sanitários. Há também projetos de aproveitamento energético do biogás produzido nas estações de tratamento.
Fonte: O globo



