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Indústria de celulose busca novas fronteiras de valor

Indústria de celulose busca novas fronteiras de valor

Para ampliar competitividade, setor explora outras aplicações para a matéria-prima e fontes adicionais de receita

Em meio às discussões sobre preços, oferta e demanda, a indústria de celulose toca em paralelo uma agenda igualmente relevante para os rumos do setor. Trata-se da busca por novas formas de manter e ampliar a competitividade das empresas – seja por meio da criação de fluxos que gerem novas fontes de receita, seja pela conversão de celulose em produtos mais rentáveis.

“Tradicionalmente, o aumento de valor vem do aumento da produção, que reduz o custo operacional por unidade”, afirma Sami Riekkola, vice-presidente executivo de celulose, energia e circularidade da Valmet, em entrevista ao Valor.

Essa lógica pode ser vista nos projetos que foram ou estão sendo implementados no Brasil. O país se tornou o grande polo de investimentos dessa indústria pela disponibilidade de terras e produtividade das florestas.

A Suzano inaugurou em 2024 o projeto Cerrado, em Ribas do Rio Pardo (MS), com capacidade de 2,55 milhões de toneladas anuais – atualmente a maior do mundo para celulose branqueada de eucalipto. A unidade, porém, está em vias de ser superada pela fábrica que a chilena Arauco está construindo em Inocência (MS). Batizada de Sucuriú, a unidade terá capacidade de 3,5 milhões de toneladas anuais quando pronta. O início das operações está previsto para o segundo semestre de 2027.

“Mas esse valor também pode vir de um melhor aproveitamento da matéria-prima”, provoca Riekkola.

O subproduto mais óbvio é a lignina, componente da madeira que é separado durante o processo de polpação. Uma grande parte da indústria, sobretudo no Hemisfério Sul, já possui um sistema que queima esse composto nas caldeiras de recuperação para geração de bioenergia.

O executivo, porém, vê espaço para ampliar seu uso. A Valmet desenvolveu o LignoBoost, um processo que extrai a lignina e a transforma em produto comercializável. As aplicações possíveis incluem bioplásticos, asfalto, dispersantes industriais e materiais para baterias, mas o mercado em escala ainda engatinha.

O gargalo histórico era o odor característico do processo, que inviabilizava o uso em produtos de maior valor, como plásticos e componentes automotivos. Em parceria com o instituto de pesquisa sueco RISE, a Valmet desenvolveu um processo de deodorização e opera um piloto na Suécia.

Uma unidade pré-comercial, capaz de produzir entre uma e seis toneladas por dia, já opera na Mercer Rosenthal, na Alemanha. Extrair a lignina também libera capacidade na caldeira de recuperação, permitindo aumentar a produção sem novos equipamentos, acrescenta Riekkola.

Diferentemente de uma siderúrgica ou cimenteira, as fábricas de celulose emitem majoritariamente CO2 de origem biogênica – carbono absorvido pela floresta durante o crescimento das árvores. Isso abre dois caminhos para o gás capturado. No primeiro, chamado de sequestro geológico, o CO2 armazenado resulta em remoção líquida de carbono da atmosfera, iabilizando contratos de crédito de carbono no mercado voluntário. O segundo envolve a utilização industrial do gás como matéria-prima para a produção de metanol e outros produtos químicos, desde que atinja o grau de pureza exigido para síntese química.

Futuramente, Riekkola acredita na possibilidade de fábricas negativas em carbono.

“Nos últimos 10 a 15 anos o setor reduziu o consumo de água pela metade e substituiu energia fóssil por fontes renováveis. Com avanços em tecnologia, controle, otimização e eletrificação, teremos mais eficiência e melhor desempenho ambiental”, afirma.

A Valmet e a Linde Engineering trabalham em um projeto de pré-tratamento de gases para um cliente não identificado, com capacidade prevista de captura de 2 milhões de toneladas de CO2 por ano. A tecnologia já tem precedentes em escala industrial em outros setores. Uma planta de cimento na Alemanha captura mais de 1 milhão de toneladas por ano, e uma petroquímica no Canadá chegará a 2,3 milhões de toneladas após entrar em operação.

Em outra frente, a empresa finlandesa também trabalha no desenvolvimento do BioTrac, um processo de pré-tratamento que abre a estrutura celulósica da biomassa, separando celulose, lignina e hemicelulose para processamento posterior. O sistema pode ser adaptado para diferentes matérias-primas – cavacos, resíduos de serraria, palha de trigo, bagaço, palha de arroz, cachos de frutos vazios – e para diferentes produtos, a depender do objetivo da empresa.

Dentre os usos possíveis, o mais discutido é para fazer etanol de segunda geração. Há também os “pellets” densificados com valor calorífico cerca de 30% superior ao “pellet” branco convencional, posicionados como substituto do carvão em geração de calor e energia. Outras saídas incluem biogás, biometano, combustível sustentável para aviação (SAF) e produtos químicos verdes.

As barreiras para escalar essas tecnologias, porém, ainda são significativas. A sueca SCA trabalha há cinco anos no plano para a construção de uma fábrica de biocombustíveis verdes ao lado da unidade de Östrand, afirma Håkan Wänglund, diretor de tecnologia e desenvolvimento da SCA Östrand. Embora veja a iniciativa como promissora, gargalos na tecnologia e custo de construção elevados são entraves para sua aplicação, diz.

Além disso, o diretor afirma que a instabilidade do ambiente regulatório também é um desafio para o avanço desse tipo de investimento.

“As normas precisam ser mais firmes e estáveis. Precisamos saber quais serão as regras pelos próximos 10 ou 20 anos.”

Enquanto esse caminho amadurece, uma rota mais conhecida e já trilhada por diversas empresas do setor é a da diversificação de portfólio. Converter celulose em produtos de maior valor agregado – como embalagens, papéis para higiene, fraldas, absorventes e tecidos – permite aos produtores reduzir a exposição à volatilidade da commodity e melhorar a rentabilidade.

Essa é uma aposta que a Klabin já faz há algum tempo. Com exposição equilibrada entre celulose de mercado, tanto fibra curta (eucalipto) quanto fibra longa (pinus), papéis e embalagens, a companhia construiu um modelo pensado para não depender de um único mercado. “O foco nesses produtos especiais continua sendo um posicionamento importante para a companhia e que o mercado vê com diferenciação”, afirma Ricardo Cardoso, diretor industrial da Klabin.

A estratégia ganha ainda mais relevância num momento em que o principal mercado para a celulose dá sinais de transformação. A China, que responde por 43% da demanda global pela fibra, acelerou sua produção interna após a crise imobiliária de 2021, que liberou madeira antes destinada à construção civil.

Segundo estimativas da Hawkins Wright, a capacidade produtiva interna chinesa cresceu 10,5 milhões de toneladas nos últimos cinco anos, o que reduziu as importações. Entre 2010 e 2020, as compras externas cresciam cerca de 1,5 milhão de toneladas por ano. De 2020 para cá, esse ritmo caiu para aproximadamente 500 mil toneladas anuais.

“Tem uma transição acontecendo que precisa ser melhor entendida”, diz Cardoso. “Desde já precisamos nos adequar a essas mudanças futuras”, complementa o executivo.

Fonte: Valor


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