Conferência reúne mais de 50 países em “coalizão dos dispostos” para acelerar transição energética
A Colômbia articula uma nova frente internacional para destravar o principal impasse das negociações climáticas globais: o abandono dos combustíveis fósseis.
Ao lado da Holanda, o país convocou uma conferência em Santa Marta, no fim de abril, com mais de 50 nações dispostas a avançar sem esperar consenso nas cúpulas da ONU.
A iniciativa surge como resposta direta à frustração com encontros como a COP28 e a COP30, marcados por impasses e pela dificuldade de avançar em compromissos concretos sobre petróleo, gás e carvão.
“Coalizão dos dispostos” exclui grandes emissores
O novo fórum reúne países que representam cerca de um quinto da produção global de combustíveis fósseis e um terço da demanda.
Entre eles estão Reino Unido, União Europeia, Canadá, Brasil e nações vulneráveis à crise climática, como ilhas do Pacífico.
Ficam de fora, porém, alguns dos maiores emissores e produtores do mundo, como Estados Unidos, China, Índia e Rússia, além de países do Golfo.
A exclusão é deliberada.
A ministra do Meio Ambiente colombiana, Irene Vélez Torres, afirmou que o objetivo é avançar sem o bloqueio de nações que resistem à transição energética. Segundo ela, o mundo vive um “ponto de inflexão histórico”.
Guerra e preços expõem fragilidade do modelo fóssil
O contexto geopolítico reforça a urgência da iniciativa. A escalada de tensões no Oriente Médio, incluindo o conflito envolvendo Irã, eelevou os preços de energia e evidenciou a dependência global de combustíveis fósseis.
Segundo especialistas, essa dependência afeta não apenas a conta de energia, mas também a inflação, a segurança alimentar e a estabilidade econômica.
Há sinais de mudança. Em países europeus, cresce a adoção de energia solar, veículos elétricos e bombas de calor.
Dados recentes indicam avanço das renováveis, com aumento na geração solar e eólica, enquanto o uso de carvão e gás recua em várias regiões.
Alternativa ao modelo da ONU
A conferência de Santa Marta não pretende substituir o sistema multilateral da Organização das Nações Unidas, mas funcionar como um mecanismo paralelo mais ágil.
Especialistas avaliam que o modelo de consenso da ONU tem permitido que países contrários à redução de fósseis atrasem decisões. A nova coalizão busca contornar esse bloqueio e propor caminhos concretos para a transição energética.
Entre os resultados esperados estão relatórios técnicos com diretrizes científicas e propostas de financiamento para países em desenvolvimento.
Transição energética enfrenta dilemas econômicos
Apesar do discurso ambicioso, o desafio é complexo. Alguns países participantes, como Noruega e Nigéria, ainda planejam expandir a produção de petróleo e gás, impulsionados pela alta recente dos preços.
Além disso, há preocupação com o financiamento da transição, especialmente para países mais pobres. A redução de recursos internacionais, em parte redirecionados para gastos militares, agrava o cenário.
Representantes de países vulneráveis defendem mecanismos que garantam acesso a tecnologia e financiamento sem aumentar o endividamento.
Colômbia tenta liderar mudança de paradigma
A própria Colômbia tenta dar o exemplo ao interromper novas licenças para exploração de combustíveis fósseis e investir em setores como turismo, agricultura e energias renováveis.
A estratégia busca reduzir a dependência de uma economia baseada na extração de recursos naturais e reposicionar o país no cenário internacional como liderança climática.
Pressão social e papel de comunidades locais
A conferência também incluirá uma cúpula paralela com participação de povos indígenas e movimentos sociais.
Esses grupos cobram uma transição energética justa, que não reproduza desigualdades nem pressione seus territórios com novas formas de exploração, como mineração de minerais críticos.
Um teste para o futuro da política climática
A reunião em Santa Marta é vista como um experimento para destravar a ação climática global. Se bem-sucedida, pode inaugurar um novo modelo de cooperação internacional baseado em alianças voluntárias.
Em um cenário de crises energéticas, guerras e metas climáticas ameaçadas, a iniciativa coloca na mesa uma escolha cada vez mais urgente: manter a dependência de combustíveis fósseis ou acelerar a transição para uma economia de baixo carbono.
Fonte: Veja



