Presentes em uma série de produtos cotidianos, substâncias químicas persistentes, associadas a riscos à saúde e ao ambiente, acumulam-se na água, no solo e nos organismos vivos
O governo do Reino Unido anunciou um plano nacional para ampliar o controle sobre os PFAS, conhecidos como “químicos eternos”, substâncias sintéticas associadas a riscos ambientais e à saúde humana. Ao mesmo tempo, pesquisadores apresentaram uma nova tecnologia de filtragem capaz de remover esses poluentes da água até 100 vezes mais rápido do que os métodos atualmente usados, avanço considerado promissor diante da crescente contaminação global.
Os PFAS (substâncias perfluoroalquil e polifluoroalquil) são utilizados desde a década de 1940 para conferir resistência à água, gordura e calor a diversos produtos, como roupas impermeáveis, embalagens de alimentos, cosméticos, eletrônicos, utensílios antiaderentes e espumas contra incêndio. A estrutura química extremamente estável faz com que esses compostos permaneçam no ambiente por milhares de anos e se acumulem no organismo de humanos e animais.
Estudos associam parte dessas substâncias a doenças graves. A Organização Mundial da Saúde classificou o PFOA como cancerígeno e o PFOS como possivelmente cancerígeno, com evidências que os relacionam a tumores, doenças cardiovasculares, infertilidade e malformações congênitas. Mesmo assim, mais de 12 mil variantes continuam em circulação, muitas ainda com efeitos pouco conhecidos.
Plano britânico amplia monitoramento e busca alinhamento europeu
O plano anunciado nesta semana pelo governo britânico prevê ampliar o monitoramento ambiental, identificar áreas com maior contaminação e estimular a redução do uso dessas substâncias pela indústria. Entre as medidas estão o aumento de 50% na análise de amostras de água na Escócia e no País de Gales, além da intensificação do monitoramento de solos e da fauna costeira na Inglaterra para mapear focos de poluição.
A estratégia também inclui consultas para estabelecer limites legais para PFAS no abastecimento público de água, testes em embalagens de alimentos e a criação de uma plataforma digital para ampliar a conscientização da população sobre os riscos dessas substâncias.
A ministra britânica do Meio Ambiente, Emma Hardy, afirmou que os PFAS representam “um desafio de longo prazo não apenas para a saúde humana, mas também para ecossistemas essenciais”, e disse que o governo pretende reduzir seus impactos enquanto busca alternativas mais seguras.
O Reino Unido também pretende aproximar sua legislação das regras europeias até 2028. A União Europeia discute uma proposta de proibição ampla dessas substâncias, com exceções apenas para usos considerados essenciais.
Críticas e divergências sobre ritmo das ações
Apesar de receber apoio de parte da comunidade científica, o plano foi alvo de críticas de organizações ambientais, que consideram as medidas insuficientes diante da gravidade do problema. Grupos afirmam que a estratégia britânica é mais branda do que iniciativas já adotadas por países como Dinamarca e França, que proibiram o uso de PFAS em produtos como roupas e cosméticos e avançaram na descontaminação de áreas afetadas.
Levantamentos recentes indicam que praticamente todos os corpos d’água da Inglaterra apresentam níveis de PFAS acima dos limites de segurança propostos. As substâncias também já foram detectadas em tecidos e órgãos de golfinhos, lontras, aves, peixes e botos no país. Pesquisas indicam ainda que esses compostos estão presentes no sangue da maior parte da população mundial.
Especialistas defendem que a ampliação do monitoramento não deve atrasar medidas regulatórias mais rigorosas. Outros pesquisadores, porém, avaliam que a estratégia britânica representa um avanço por adotar uma abordagem integrada para compreender a disseminação e os impactos dessas substâncias.
Avanço tecnológico promete acelerar descontaminação da água
Enquanto governos discutem limites e regulações, a ciência busca soluções para tratar a contaminação já existente. Pesquisadores liderados pela Universidade Rice, nos Estados Unidos, desenvolveram um sistema de filtragem baseado em um material formado por camadas de cobre e alumínio capaz de capturar PFAS com alta eficiência.
Em testes laboratoriais, o material apresentou capacidade de retenção até mil vezes superior a outros adsorventes e conseguiu remover grandes quantidades dos compostos em poucos minutos, desempenho cerca de 100 vezes mais rápido do que filtros comerciais de carbono.
O método também permite reutilizar o material filtrante e destruir parte da estrutura química dos poluentes durante o processo de regeneração, reduzindo a formação de resíduos tóxicos secundários. A tecnologia já demonstrou eficácia em amostras de água de rios, torneiras e estações de tratamento, e pesquisadores avaliam sua aplicação futura em sistemas de abastecimento e saneamento.
Apesar do potencial, cientistas ressaltam que a inovação ainda está em fase inicial e não substitui a necessidade de reduzir a produção dessas substâncias. O consenso entre especialistas é que o enfrentamento dos PFAS exigirá ações combinadas de regulação, inovação tecnológica e mudanças nos processos industriais para evitar que esses compostos continuem se acumulando no ambiente e na cadeia alimentar.
Fonte: Um só planeta



