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Projetos de lei preveem que governo será sócio de empresas de minerais críticos

Projetos de lei preveem que governo será sócio de empresas de minerais críticos

Mineradoras dizem que, se aprovada, proposta afugentaria investidores estrangeiros Projeto governista também proíbe a exportação de matérias-primas para indústria bélica

A bancada governista da Câmara dos Deputados e um ex-secretário de Geraldo Alckmin apresentaram na última sexta-feira (10) dois projetos de lei que visam colocar o Estado como sócio de empresas no setor de minerais críticos. Os textos foram criticados pelas mineradoras.

Em seu projeto, a bancada governista na Câmara propõe a criação de um sistema de partilha parecido com o do pré-sal, em que mineradoras privadas de minerais críticos precisam ser sócias do governo brasileiro.

A proposta prevê que 10% a 80% dos minerais extraídos devem ser compartilhados com o governo. Além disso, o projeto traz que que o Serviço Geológico do Brasil mudará de nome, para TerraBras, e ficará com no mínimo 50% do produto da lavra de projetos de empresas privadas com as quais firmar parcerias.

A proposta define que a Terrabras será responsável por implantar, operar e manter unidades de beneficiamento e processamento de minerais críticos no país, além de estocar terras raras para segurança do abastecimento nacional. Empresas que operarem com a Terrabras também precisarão compartilhar tecnologia com a estatal, um ponto sensível para companhias privadas.

Além disso, o texto proíbe a exportação de minerais críticos para a indústria bélica, hoje uma das indústrias mais interessadas nessas matérias-primas. Nióbio, níquel, cobre e terras raras, por exemplo, são essenciais para a fabricação de equipamentos militares, como aeronaves, drones e armamentos.

O texto é assinado por todos os deputados federais do PT, além de outros sete deputados de PV, PSOL e PCdoB. Na justificativa do projeto, eles dizem que, “ao assegurar que ativos estratégicos permaneçam sob controle nacional, o regime fortalece a segurança nacional”. “A possibilidade de formação de reservas estratégicas garante ao país autonomia para enfrentar crises internacionais ou oscilações bruscas no mercado global”, afirmam.

O segundo projeto, apresentado pelo deputado Rodrigo Rollemberg (PSB), exsecretário de Geraldo Alckmin no Mdic (Ministério do Desenvolvimento.

Indústria e Comércio Exterior), propõe criar uma estatal de minerais críticos, semelhante à Petrobras, inclusive com possibilidade de ações listadas na Bolsa. A proposta não explica de onde virão os recursos iniciais da nova estatal. A empresa, que também chamaria TerraBras, ficaria responsável por desenvolver cadeias de minerais no país além de operar direta ou indiretamente projetos de interesse nacional. À Folha Rollemberg disse que o projeto surgiu a partir de uma ideia que teve quando era secretário.

]”Temos que tratar as terras raras no Brasil como tratamos no passado a Petrobras, a Empraba e a Embraer. Esse é um debate estratégico para a soberania brasileira.”

Os textos ainda precisam seguir toda a tramitação na Câmara e no Senado. Em nota publicada ainda na sexta, a ABPM, associação que reúne pequenas e médias mineradoras, disse que o sistema de partilha vai afugentar investimentos no país.

“Questionamos a capacidade do Estado de financiar e gerir eficientemente tais empreendimentos. Nós como todos do setor somos testemunhas [de] que, apesar de o Brasil possuir reservas significativas de minerais estratégicos, o país não dispõe, no momento, dos vastos recursos financeiros, conhecimento técnico e agilidade gerencial necessários para operar uma estatal de tal envergadura de forma competitiva globalmente”, diz em nota.

A Associação de Minerais Críticos, por sua vez, afirmou na segunda (13) que “agregação de valor no país é um objetivo correto, mas ela não decorre, por si só, da criação de uma estatal”. “Há o risco de se criar uma estrutura formalmente ambiciosa, mas com baixa efetividade prática, capaz inclusive de gerar ruído regulatório adicional em vez de acelerar soluções.”

Já o Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), que representa as grandes mineradoras, como Vale e Anglo American, disse à Folha que iniciativas semelhantes no passado não surtiram os efeitos almejados.

“O Brasil já teve uma estatal de terras raras que faliu. Isso nos levou à situação de termos que refazer a tecnologia e os recursos humanos para processar terras raras no país”, afirma Pablo Cesário, diretor-presidente do Ibram.

Cesário remete à Orquima, empresa criada na década de 1940 e que dez anos depois se tornaria estatal e incorporada à antiga Nuclemon, empresa do governo brasileiro responsável pelo processamento de monazita, um mineral que contém elementos de terras raras associados ao urânio. Sem orçamento suficiente, a empresa faliu no final dos anos 1990.

Outro caso citado pelo setor como exemplo malsucedido de estatização na mineração é a INB, estatal que hoje tem o monopólio na extração e comercialização de urânio no país. Com dificuldades financeiras, a empresa não consegue desenvolver, há anos, projetos de urânio pelo país, ainda que o Brasil tenha a oitava maior reserva do mundo desse mineral.

O setor lida com o atraso na aprovação do marco legal dos minerais críticos. O projeto é discutido desde o meio do ano passado na Câmara, mas sucessivos pedidos de adiamento atrasaram a aprovação do texto. No episódio mais recente, o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) precisou adiar, na semana passada, a apresentação do relatório do projeto sob pedido do governo federal, agora a previsão é que o parecer seja lido no próximo dia 21.

Fonte: Folha


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