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Por que se sabe tão pouco sobre a presença de PFAS na água potável do Reino Unido?

Publicado em 01/04/2021 às 10:09:51

Mesmo representando um risco para a saúde da população, o governo britânico segue sem monitorar a presença de PFAS na água potável

 

agua

Imagem Ilustrativa

 

As substâncias que causam alarme em todo o mundo são conhecidas coletivamente como PFAS (substâncias per e polifluoroalquílicas) – uma família com cerca de 4.700 ‘substâncias químicas eternas’ feitas pelo homem que não se degradam no meio ambiente e, em vez disso, se acumulam no solo, na água, em animais e nos seres humanos. Usados ​​por suas propriedades à prova de água, graxa e manchas, eles são encontrados em uma enorme variedade de produtos, desde têxteis, roupas, decoração e estofados, carpetes e couro, papel e embalagens, até revestimentos e espuma de combate a incêndio.

Após um caso histórico nos EUA, tornado famoso pelo filme Mark Ruffalo Dark Waters, foi realizado um enorme estudo epidemiológico que ligou o PFAS a colesterol alto, colite ulcerativa, doença da tireóide, câncer de testículo, câncer de rim e hipertensão induzida pela gravidez.

Estudos separados fizeram relações entre PFAS e aborto espontâneo, redução do peso ao nascer, ruptura endócrina, redução da qualidade do esperma, atraso da puberdade, menopausa precoce e redução da resposta imunológica à vacinação contra o tétano. Os cientistas também descobriram que as substâncias podem ser passadas da mãe para o bebê através da placenta e do leite materno.

Regulamentação de PFAS no mundo

Nos EUA, um nível federal de aconselhamento de saúde de longo prazo de 70 ng/l foi estabelecido em 2016 para uma combinação de PFOA e PFOS na água potável, no entanto, as diretrizes variam de estado para estado. Nova Jersey exige um nível máximo de contaminante para PFOA de 14 ng/l e PFOS de 13 ng/l. Vermont adotou um nível de 20 ng/l para uma combinação de cinco diferentes PFAS, enquanto recentemente em Illinois a Agência de Proteção Ambiental local, em janeiro, adotou o limite mais baixo para PFOA de 2 ng/l, e também está realizando um programa estadual de investigação de águas subterrâneas.

Na Europa , as diretrizes mais rigorosas de água potável foram estabelecidas pela Dinamarca em 100 ng/l para o total de 12 PFASs, com níveis mais baixos propostos para PFOS de 3 ng/l, e na Suécia com 90 ng/l para a soma de 11 PFASs. A Bavaria regulamentou 13 PFASs individuais com limites entre 0,1 µg/l e 10 µg/l.


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Uma Diretiva de Água Potável adotada em dezembro pelo Parlamento Europeu, foi ainda mais longe, colocando o nível máximo aceitável em 0,1 µg/l para a soma de 20 PFAS preocupantes e 0,5 µg/l para PFAS Total, que abrange todos as substâncias de PFAS. A diretiva entrou em vigor em janeiro e os estados membros têm dois anos para adaptar-se.

Mas, tendo deixado o bloco, o Reino Unido não precisa mais obedecer às regras da UE. O Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (DEFRA) disse que “consideraria o efeito das alterações feitas na diretiva”, mas não se comprometeu a adotá-la. Em vez disso, disse que trataria do assunto como parte de sua Estratégia de Produtos Químicos, a qual tem sido adiada várias vezes.

Então, o que o Reino Unido está fazendo em relação ao PFAS na água potável?

A Agência Ambiental disse que os PFAS são onipresentes no meio ambiente, ou seja, estão presentes em todos os lugares, tornando improvável que as fontes de água potável tenham escapado da contaminação.

No Reino Unido não há testes de rotina para PFAS em água potável, então há incerteza quanto à exposição acima dos novos níveis considerados seguros pela Drinking Water Inspectorate (DWI), que está em 100 ng/l para PFOA e PFOS e ignora o mais ampla família de substâncias.

O Dr. Ian Ross, líder de prática global dos PFAS salienta:

“Os níveis considerados inseguros no abastecimento de água potável está se tornando mais frequente em muitos países, levando a um aumento nas ações judiciais coletivas contra poluidores. Por exemplo, os residentes que usam poços de água privados localizados perto de atividades de treinamento de incêndio históricos ou atuais estão cada vez mais sendo identificados como tendo água potável impactada pelo PFAS. O uso de PFAS em espumas de combate a incêndios que são utilizadas para exercícios de treinamento e equipamentos de teste, é uma fonte potencial de contaminação das águas subterrâneas usadas para fornecer água potável. No entanto, existem muitos outros usos do PFAS que podem potencialmente contaminar a água potável, incluindo na lavagem de carros, chapeamento de metais, produção de fluoropolímero, aplicação de revestimentos têxteis e de papel, etc”.

Ele ainda complementa dizendo que as empresas de água precisarão realizar avaliações detalhadas de muitas bacias, considerando a infinidade de fontes de PFAS.

Frida Hok, vice-diretora do Secretariado Químico Internacional Chemsec, diz que é muito estranho que o Reino Unido não esteja monitorando PFAS na água potável, pois é um problema imenso em vários outros países. E, ao contrário de países como os EUA, onde um esquema de testes nacional está em andamento, o governo do Reino Unido até agora só faz planos para compreender os níveis de poluição da água potável.

Segundo o DEFRA

“Foi encomendado um projeto de pesquisa para produzir uma metodologia para PFAS em água potável para todos os laboratórios usarem, para facilitar o monitoramento de uma gama mais ampla de PFAS no Reino Unido. Este projeto irá revisar as metodologias existentes e desenvolver um método multi-PFAS para incluir todos os compostos listados no Anexo III da Diretiva de Água Potável Revisada”, incluindo o que o DEFRA afirma serem as substâncias mais prevalentes que foram detectadas pelo monitoramento da agência: ácido perfluorobutano sulfônico (PFBS), ácido perfluoropentano sulfônico (PFPS) e ácido perfluorohexano sulfônico (PFHxS). No entanto, os produtos que contêm esses PFAS ainda são amplamente vendidos e usados ​​pela indústria e pelos consumidores.

O DEFRA faz questão de salientar que não precisa assumir a tarefa sozinho. Ele diz que as concessionárias de água devem monitorar o PFAS, como consta nos termos de Qualidade da Água e como tal, devem usar todas as fontes relevantes de informação para avaliar os riscos na bacia, e implementar medidas de mitigação para proteger a saúde pública.

O uso de algumas substâncias como PFOS e PFOA tiveram restrição de uso e uma proibição de grupo de PFAS está sendo considerada na UE, mas produtos químicos de substituição , conhecidos como GenX, são considerados tão prejudiciais e mais difíceis de detectar. E uma vez que as substâncias PFAS estão no meio ambiente, é extremamente difícil, senão impossível, desfazer os – ainda – danos incalculáveis.

Fonte: ENDS Report: Environmental news, analysis, reference.

 

Traduzido e adaptado por Renata Mafra

renata@tratamentodeagua.com.br


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