A presença de microplásticos em rios, lagos e oceanos deixou de ser apenas um problema de fragmentos sólidos espalhados pela água.
Pesquisas recentes indicam que essas partículas funcionam como fontes químicas, liberando continuamente substâncias invisíveis que se dissolvem no ambiente aquático, interagem com a luz solar, circulam pelas correntes e passam a integrar a química dos ecossistemas, muitas vezes com efeitos ainda pouco compreendidos.
O que a luz solar provoca nos microplásticos em ambientes aquáticos
Quando um microplástico entra em contato prolongado com a água, a radiação ultravioleta rompe lentamente as ligações químicas na superfície do polímero.
Em vez de mero desgaste físico, ocorre um “gotejamento químico”, com o desprendimento gradual de pequenas moléculas orgânicas que passam para a fase dissolvida.
Diferentes plásticos, como PE, PET e bioplásticos (PLA, PBAT), liberam carbono orgânico dissolvido em intensidades distintas, geralmente maiores em materiais biodegradáveis.
Assim, o tipo de polímero e o tempo de exposição à luz definem boa parte da dinâmica química ao redor dos microplásticos, influenciando a quantidade e a qualidade dos compostos liberados.
Como a química invisível dos microplásticos se forma e se transforma
Os microplásticos atuam como fontes de matéria orgânica dissolvida derivada de plástico, contendo milhares de moléculas diferentes.
Entre elas, estão aditivos industriais, fragmentos de cadeias poliméricas e produtos gerados por reações fotoquímicas estimuladas pela radiação solar, que tornam a mistura química altamente complexa.
Plásticos com estruturas aromáticas tendem a liberar misturas mais variadas e, com o tempo, aumenta a presença de compostos ricos em oxigênio, como álcoois, ácidos, éteres e carbonílicos.
Esse enriquecimento em oxigênio aumenta a polaridade das moléculas, altera sua interação com contaminantes e minerais e modifica a superfície envelhecida e oxidada dos microplásticos na água.
De que forma a matéria orgânica derivada de microplásticos afeta os ecossistemas
A matéria orgânica dissolvida gerada pelos microplásticos (DOM derivada de MPs) difere da matéria orgânica natural dos rios e mares.
Medidas de fluorescência indicam semelhança maior com sinais microbianos, e sua composição muda com o tempo, com variação entre frações proteicas, húmicas e tânicas conforme o tipo de polímero e a luz disponível.
Essas moléculas pequenas entram facilmente nas redes microbianas, alterando a atividade de bactérias, os ciclos de carbono e oxigênio e a dinâmica de metais como cobre, cádmio e chumbo.
Para entender melhor esses efeitos, alguns impactos principais podem ser destacados:
- Interferência nos ciclos biogeoquímicos: mudança na disponibilidade de carbono e nutrientes para microrganismos.
- Interação com metais pesados: facilitação do transporte e alteração da toxicidade de metais.
- Formação de espécies reativas: geração de radicais e agentes oxidantes sob luz solar.
Quais são os desafios para o tratamento de água diante dessa nova química
Em sistemas de abastecimento, a presença de matéria orgânica derivada de microplásticos cria desafios adicionais, pois esses compostos podem reagir em etapas de desinfecção e oxidação.
Surgem, assim, subprodutos ainda pouco caracterizados, muitas vezes ausentes dos modelos tradicionais de avaliação de risco à saúde humana e ambiental.
A entrada contínua de plásticos e a exposição constante à luz sugerem a persistência dessa poluição química emergente.
Técnicas de aprendizado de máquina vêm sendo usadas para prever o comportamento dessa matéria orgânica, estimar sua transformação ao longo do tempo e antecipar efeitos em cadeias tróficas e em sistemas de tratamento de água potável.
Quais caminhos são necessários para enfrentar a poluição invisível dos microplásticos
Compreender a dimensão química dos microplásticos é essencial para orientar políticas públicas, inovação tecnológica e estratégias de monitoramento.
Alguns caminhos prioritários de pesquisa e gestão ambiental vêm sendo propostos para lidar com essa contaminação difusa e de difícil detecção.
- Identificar os principais tipos de microplásticos em diferentes corpos d’água.
- Mapear as rotas de entrada de plásticos em ambientes aquáticos.
- Investigar como a luz solar altera a composição química dos compostos liberados.
- Avaliar impactos em microrganismos, ciclos de nutrientes e redes alimentares.
- Adaptar tecnologias de tratamento de água para essa nova realidade química.
Fonte: O Antogonista



