As áreas úmidas são muito mais do que “terras encharcadas”, são berços de vida, cultura e equilíbrio ambiental. Convenção de Ramsar mostra que, quando países se unem, é possível protegê-las
As áreas úmidas são ecossistemas vitais pois regulam o clima, armazenam água, protegem contra as enchentes e sustentam a biodiversidade. São áreas úmidas pântanos, várzeas, manguezais, rios e lagos (com profundidade de até 6 metros), além das turfeiras. São ecossistemas de transição entre o ambiente aquático e o terrestre, fundamentais para a vida no planeta.
Funcionam como verdadeiras esponjas naturais, absorvendo e armazenando água das chuvas, reduzindo os picos de cheias e liberando-a em períodos de seca. Também purificam a água, filtrando poluentes, nutrientes e sedimentos, o que melhora sua qualidade. Para a biodiversidade, são refúgios essenciais. Estima-se que cerca de 40% das espécies do planeta vivem ou dependem desses ecossistemas. Além disso, atuam como barreiras físicas onde mangues e recifes de corais, por exemplo, protegem as costas contra ressacas, tsunamis e erosão.
Esses ambientes são verdadeiros super-heróis da natureza, garantindo alimento e renda. Combatem as mudanças climáticas: os solos de turfa, que embora ocupem apenas 3% da superfície terrestre, armazenam cerca de 30% do carbono do solo. Guardam cultura e tradição, em que povos indígenas e comunidades locais mantêm práticas ancestrais de manejo sustentável, como pesca artesanal, rituais e monitoramento ecológico.
As áreas úmidas também oferecem proteção econômica contra desastres naturais, prevenindo inundações e evitando bilhões de dólares em prejuízos a infraestruturas e propriedades. Sustentam mais de um bilhão de empregos em setores como pesca, turismo, agricultura e transporte. No turismo e lazer, atraem atividades como observação de aves, pesca, passeios de barco e fotografia, fortalecendo o ecoturismo. Estima-se que seus benefícios globais possam ultrapassar 7% do PIB mundial.
Convenção de Ramsar
Pouca gente sabe, mas existe um tratado internacional dedicado exclusivamente às áreas úmidas que é a Convenção de Ramsar, assinada em 2 de fevereiro de 1971, na cidade iraniana de Ramsar. É o mais antigo acordo ambiental global voltado para um ecossistema específico. Seu objetivo é simples e poderoso, conservar e usar de forma racional as áreas úmidas, garantindo que continuem prestando serviços essenciais à vida humana e à biodiversidade. Atualmente, são 172 países signatários da Convenção, cobrindo cerca de 2.546 sítios Ramsar no mundo, que juntos somam mais de 257 milhões de hectares protegidos.
O Brasil aderiu oficialmente a Convenção em 1996 e, desde então, participa das decisões e compromissos assumidos junto aos demais países. Possui vinte e sete (27) Sítios Ramsar de importância internacional, dos quais vinte e quatro (24) são Unidades de Conservação (UC). O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) é a autoridade administrativa responsável por coordenar a implementação dos compromissos da Convenção.
Entre os sítios brasileiros estão o Pantanal, a Reserva de Mamirauá (AM), a Ilha do Bananal (TO), a Reserva Biológica Atol das Rocas (RN), o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (PE), a APA Cananéia-Iguape-Peruíbe (SP), o Parque Nacional da Lagoa do Peixe (RS), entre outros. Esses locais são vitais para aves migratórias, peixes, comunidades tradicionais, para a proteção da biodiversidade e para a manutenção dos estoques de carbono.
Desde 1997, o dia 2 de fevereiro passou a ser celebrado anualmente, e em 2021 a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução que reconheceu oficialmente a data como o Dia Internacional das Áreas Úmidas, passando a valer a partir de 2022. A data marca o aniversário da assinatura da Convenção de Ramsar e reforça a importância de proteger e valorizar esses ecossistemas vitais.
A Convenção de Ramsar ampliou sua atuação ao longo dos anos, expandindo a lista de sítios Ramsar e criando planos estratégicos globais. O mais recente é o Quinto Plano Estratégico 2025–2034, aprovado na COP15 da Convenção de Ramsar, que define metas para enfrentar a degradação das áreas úmidas e a perda de biodiversidade. Entre as suas prioridades estão o aumento da conectividade ecológica, a restauração de ecossistemas sub-representados, a mobilização de recursos financeiros e o reconhecimento do papel de povos indígenas e comunidades locais como guardiões da biodiversidade. Além disso, existem iniciativas de apoio financeiro como o fundo Wetlands for the Future, voltado para projetos locais especialmente na América Latina e Caribe, que é sua área de foco principal.
Mas o desconhecimento da sociedade sobre esses ambientes ainda é grande. Por isso, educação, sensibilização e engajamento são fundamentais. Nesse sentido, foram criados o Prêmio Ramsar e o credenciamento de “Cidades Amigas das Áreas Úmidas”, que valorizam boas práticas e iniciativas inovadoras de proteção desses ambientes.
Apesar dos avanços, estamos perdendo áreas úmidas a uma taxa média de 0,52% ao ano desde 1970. As principais causas são expansão urbana, desmatamento, poluição, agricultura intensiva, drenagem, espécies invasoras, fragilidade ou inexistência de mecanismos legais de proteção. Projetos de “desenvolvimento” muitas vezes ignoram o valor ecológico e cultural desses ambientes, causando impactos irreversíveis. A perda de áreas úmidas afeta diretamente a disponibilidade de água, a segurança alimentar, o clima e os modos de vida tradicionais. No Brasil, a pressão também é forte. O Pantanal, por exemplo, sofre com queimadas recorrentes e mudanças no regime hídrico.
Há, contudo, caminhos promissores. A integração do conhecimento tradicional de povos indígenas e comunidades locais, que possuem práticas sustentáveis, pode ser incorporada às políticas públicas. A economia verde e os empregos sustentáveis também oferecem alternativas, por meio do turismo ecológico, da pesca artesanal, da sociobiodiversidade e do manejo de recursos naturais que geram renda, inclusão sem destruir o ambiente. Para avançar, a cooperação internacional em torno da Convenção de Ramsar será fundamental, criando sinergias com outros tratados, como a Convenção da Biodiversidade e o Acordo de Paris sobre o clima.
As áreas úmidas são muito mais do que “terras encharcadas”, são berços de vida, cultura e equilíbrio ambiental. A Convenção de Ramsar mostra que, quando países se unem, é possível proteger esses ecossistemas. No Brasil e no mundo, o desafio é enorme, mas também representa uma oportunidade única de repensar nosso modelo de desenvolvimento e garantir que rios, manguezais, lagoas e pântanos continuem sustentando a vida por muitas gerações.
Fonte: Um só planeta



