Com volume de água abaixo de 20%, Cantareira corre o risco de entrar no nível mais restritivo de operação e sobrecarregar outros mananciais
O Sistema Cantareira voltou a ficar abaixo dos 20% de sua capacidade, nesta quinta-feira (8/1). O índice registrado esta manhã, de 19,9%, está no mesmo patamar verificado há um mês. Apesar do avanço do verão, a seca persiste e as represas têm recebido menos água do que o previsto para o período, o que aumenta o risco de desabastecimento.
Com a seca, o Cantareira tem recebido também água da transposição do Rio Paraíba do Sul. São pouco mais de 8 m³/s, que se somam ao limite estabelecido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) em momentos críticos e permitem um aumento no volume retirado das represas para abastecer a Grande São Paulo.
Procurada pelo Metrópoles, a SP Águas (agência do governo de São Paulo) informou que monitora os mananciais em tempo integral e avalia a faixa de operação do Cantareira mensalmente em conjunto com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
“Caso o Sistema Cantareira atinja a Faixa 5, a chamada faixa especial, passam a valer medidas mais rigorosas, como a redução adicional da vazão captada, definida diretamente pelos órgãos gestores, com o objetivo de preservar os reservatórios e aumentar a segurança hídrica do sistema”, disse a agência. “A definição sobre medidas como gestão de demanda noturna e rodízio não tem relação com a resolução específica do Cantareira, mas com a metodologia de gestão hídrica do Governo do Estado e cabe à Agência Reguladora de Serviços Públicos (Arsesp) determinar tais medidas.”
A SP Águas ainda ressaltou que a atuação contra a estiafem depende não apenas da gestão operacional dos mananciais, mas do apoio da população e uso consciente de água. “A colaboração dos cidadãos é fundamental para preservar os mananciais e garantir a segurança hídrica.”
Em nota, a ANA afimrou que a definição da faixa de operação do Sistema Cantareira para o mês seguinte acontece no último dia útil do mês vigente. “Portanto, o volume útil registrado em 30 de janeiro determinará a faixa de operação de fevereiro. A faixa de operação de janeiro foi determinada pelo volume útil do Sistema Cantareira em 31 de dezembro de 2025, o qual foi de 20,18%.”
Nível crítico em dezembro
Em 7 de dezembro, o nível do maior sistema de abastecimento da região metropolitana também desceu a 19,9%, o que despertou preocupação na ANA. A situação se agravou ainda mais nos dois dias seguintes, com 19,7%.
Quando o volume fica abaixo dos 20%, é ativada a Faixa 5 de operação, a mais restritiva, com limite de retirada de apenas 15,5 metros cúbicos (m³/s). Atualmente, o Cantareira opera na Faixa 4, com limite de 23 m³/s.
Faixas de operação conforme volume de água
- Faixa 1 — Normal (volume útil igual ou maior que 60%): o limite de retirada é de 33 metros cúbicos por segundo (m³/s).
- Faixa 2 — Atenção (volume entre 40% e 60%): limite de retirada de 31 m³/s.
- Faixa 3 — Alerta (volume entre 30% e 40%): limite de retirada de 27 m³/s.
- Faixa 4 — Restrição (volume entre 20% e 30%): limite de retirada de 23 m³/s.
- Faixa 5 — Especial (volume abaixo de 20%): limite de retirada de 15,5 m³/s.
Se na virada do ano o volume do Cantareira seguisse abaixo dos 20%, seria acionada a Faixa 5 no mês de janeiro. Entretanto, houve uma tímida recuperação a partir do dia 11 de dezembro, quando voltou ao patamar enquadrado na Faixa 4, o que gerou alívio momentâneo nas autoridades.
Para não entrar na Faixa 5, o Cantareira deve chegar ao fim do mês com ao menos 20% de sua capacidade total. Portanto, é preciso que a vazão natural aumente consideravelmente até lá e o consumo diminua — situação oposta à registrada até o momento neste verão.
A adoção de um limite de retirada de 15,5 m³/s no Cantareira pode sobrecarregar os demais reservatórios, que também têm operado em baixa. O Sistema Integrado Metropolitano (SIM), que é a soma de todas as represas, tinha, nessa quarta (7/1), apenas 26,9% da capacidade. Como comparação, em igual data do ano passado, contava com 49,9%.
Pouca água entrando
Além do baixo volume acumulado, chama a atenção o fato de que a vazão natural (quantidade de água que entra no reservatório) segue bastante abaixo do normal para esta época do ano. Já em plena estação chuvosa, o Cantareira não tem conseguido se recuperar.
As medições realizadas pela própria Sabesp mostram que o Cantareira recebeu apenas 14,53 metros cúbicos por segundo (m³/s) de água nos primeiros sete dias do ano, segundo os registros coletados na manhã de quarta.
Mesmo com a ressalva de que se trata de um curto período de tempo, a análise mostra que o volume é quase um quinto da média histórica para janeiro, que é de 67,3 m³/s.
Mais que isso, o maior sistema fornecedor de água da Grande São Paulo teve a pior primeira semana de um ano desde 2015, quando recebeu 13,49 m³/s, no auge da crise hídrica, com o reservatório afundado no volume morto.
A quantidade de água recebida entre os dias 1º e 7 é ainda menor do que em igual período de janeiro de 2014 (17,56 m³/s), em um verão tão seco que foi determinante para empurrar a região metropolitana na década passada para a escassez e caos no abastecimento. Na ocasião, entretanto, o Cantareira ainda tinha 26,4% da sua capacidade total.
O ano hidrológico teve início em outubro, quando a previsão de chegada das primeiras chuvas, que serviriam para repor o que foi perdido ao longo do inverno. Entretanto, o Cantareira tem perdido água desde então.
Há três meses, o sistema tinha 26,8% da capacidade. No dia 7 de novembro, já tinha despencado para 23,5%.
Fonte: Metropoles



