Com investimentos na casa dos milhões, gigantes do setor de resíduos, em parceria com universidades lideram a transformação de aterros sanitários em hubs de energia limpa no Estado
Visto durante muito tempo como problema, o lixo está se transformando em uma fonte cada vez mais comum de energia no Rio Grande do Sul.
Uma onda de pesquisas e investimentos para converter resíduos sólidos coletados nos municípios gaúchos em gás e outros recursos valiosos vem ganhando corpo em diferentes regiões do Estado.
As principais empresas de gestão de aterros sanitários investem na conversão dos rejeitos em biogás e biometano, e começam a proliferar iniciativas envolvendo parcerias entre municípios e instituições acadêmicas ou empreendimentos privados para gerar gás, char (semelhante a carvão), óleo e hidrogênio de baixo carbono.
As duas principais empresas que recebem resíduos em aterros sanitários no Rio Grande do Sul — a CRVR e a Meioeste — têm planos de criar seis plantas de produção de biometano (equivalente ao gás natural) em seus terrenos nos próximos anos. Juntas, atendem a 360 cidades gaúchas, ou mais de 70% do Estado. Maior entre elas, a CRVR recém inaugurou o seu primeiro complexo por meio da empresa Biometano Sul, após um investimento de R$ 150 milhões. Localizada em Minas do Leão, a unidade já produz 45 mil metros cúbicos de biometano por dia. A meta é chegar a 66 mil em julho do ano que vem — o equivalente a 12,5 mil botijões diários.
Além disso, a intenção é construir o mesmo tipo de empreendimento em São Leopoldo, Giruá, Santa Maria e Victor Graeff.
— Em São Leopoldo, as instalações estão prontas. Estamos aguardando apenas concluir a parte regulatória para entrar em operação entre março e abril — afirma o diretor da Biometano Sul, Rafael Salamoni.
A unidade no Vale do Sinos foi erguida mediante investimento de mais R$ 100 milhões. O objetivo é chegar a 2030 produzindo o equivalente a 10% da demanda por gás natural no Rio Grande do Sul. Hoje, unidades da CRVR já produzem biogás, que é o resultado da decomposição da matéria orgânica (sem passar pelo processo de depuração que resulta no biometano) e pode ser usado para gerar energia elétrica.
O aterro da Meioeste localizado em Candiota, na Campanha, hoje produz apenas biogás. Mas também está em andamento outra iniciativa destinada a converter esse produto em biometano. A empresa recebe lixo de 42 municípios da Metade Sul.
— Hoje, a partir do biogás, já produzimos energia destinada a três clientes empresariais. Mas estamos desenvolvendo um projeto, que deve acontecer em 2027, para a geração de biometano — afirma o supervisor de Operações da Meioeste em Candiota, Gesiel Silveira.
Parceria com universidade na Serra
A tendência também motiva parcerias entre instituições de pesquisa e prefeituras. Na região da Serra, está em andamento um acordo entre a Universidade de Caxias do Sul (UCS) e cinco prefeituras — Caxias, São Marcos, Flores da Cunha, Bom Jesus e Serafina Corrêa — com a intenção de dar uma nova destinação aos resíduos coletados nesses municípios. Os responsáveis pelo projeto aguardam a emissão de licença ambiental para a instalação de uma unidade de testes em um aterro sanitário localizado em Caxias.
— Uma vez que tenhamos essa licença de instalação, a ideia é implantar uma unidade com capacidade para receber cinco toneladas de resíduos por dia — afirma o coordenador técnico do projeto Resíduos Serra – RS UP, Marcelo Godinho, também responsável pelo Laboratório de Energia e Bioprocessos da UCS.
Será utilizado um processo chamado de pirólise (aquecimento do material sem presença de oxigênio, o que faz com que se decomponha sem queimar), para transformar o lixo em char (similar a carvão), óleo e gás.
— Estão sendo feitos estudos, que precisam de mais avaliações, para uso do char na composição do cimento e para aplicação em cultivos não alimentares, como florestas plantadas — complementa Godinho.
Questões envolvendo custos e financiamento ainda estão em discussão entre os parceiros do projeto.
Projetos ganham força em empresas
A onda de investimentos em novas formas de aproveitar o lixo gerado em centros urbanos mobiliza empresas de outros setores, além daquelas ligadas a aterros sanitários. A Rodoplast, com sede em Vacaria, por exemplo, criou uma empresa específica, a Ambientalplast, para tocar um programa voltado a dar um destino mais adequado aos resíduos plásticos que não podem mais ser reaproveitados na linha de produção da companhia — que produz componentes plásticos automotivos. A ambição atual, porém, é ampliar o foco e passar a receber, em um primeiro momento, os resíduos urbanos coletados no município de Vacaria.
A ideia, a ser implementada a partir de 2026, é utilizar o lixo gerado no município para produzir biomassa (conjunto de materiais de origem orgânica) e, a partir dela, produzir hidrogênio de baixo carbono.
— Hoje, esses resíduos são enviados para Santa Catarina. Então, além de reduzir custos para a prefeitura, o município poderia ainda buscar créditos de carbono — argumenta o gerente de Relacionamento da Ambientalplast e da Rodoplast, Marcelo Dondé.
Está sendo realizado um investimento de R$ 45,3 milhões para converter os resíduos urbanos em gás, char e óleo e, ao final de mais uma etapa, no chamado “hidrogênio turquesa” (obtido a partir do processo de pirólise). Esse valor se soma aos cerca de R$ 20 milhões já desembolsados para dar uma destinação apropriada às sobras da própria Rodoplast. Quando a linha de produção estiver operante, a intenção é processar entre 30 e 35 toneladas diárias de resíduos — que deixarão de ser tratados como lixo para gerar valor em solo gaúcho.
Fonte: GZH



