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Morte em academia de SP entenda riscos no uso de produtos para limpeza de piscinas

Morte em academia de SP: entenda riscos no uso de produtos para limpeza de piscinas

Quantidade maior do que indicado no rótulo pode levar à formação de cloro gasoso, aponta especialista. Gás, altamente tóxico, provoca irritações das mucosas imediatamente após contato, e danos são agravados conforme tempo de exposição

O uso de produtos à base de cloro para limpeza de piscinas de uso coletivo é comum, mas o seu manuseio deve seguir as instruções indicadas no rótulo para evitar tragédias e acidentes, como o que pode ter levado à morte da professora Juliana Faustino Bassetto, 27, e à intoxicação de outras cinco pessoas após uma aula de natação no sábado (7) na academia C4 Gym, na zona leste de São Paulo.

Essa é a avaliação do professor de química da USP (Universidade de São Paulo) Reinaldo Bazito. De acordo com o especialista, existem diversos produtos utilizados para a desinfecção de piscinas, sendo os dois tipos mais comuns os hipocloritos de cálcio (cloro de piscina) e os cloros granulados (como o HidroAll Hipercloro 60, usado na academia).

O manejo adequado destes produtos é seguro, mas quando usados em condições ou quantidades inadequadas, podem levar à formação de cloro gasoso, que é altamente tóxico.

O contato com o cloro gasoso, imediatamente após sua liberação, pode levar a irritações das vias mucosas, como boca, nariz e garganta, mas os danos podem ser agravados nas horas seguintes à exposição se não houver atendimento médico imediato, reforça Bazito.

Profissionais treinados e que sabem fazer o uso dos produtos para limpeza são orientados para agir rapidamente em caso de liberação de gás tóxico, normalmente por um químico. Bazito lembra que a Resolução do Conselho Federal de Química nº332/2025, publicada no ano passado, orienta que em piscinas de uso coletivo, sejam públicas ou privadas, é necessária a atuação de profissionais químicos para avaliar a existência de profissional ou empresa responsável pelo serviço de análise e controle de qualidade da água da piscina.

Essa é uma medida preventiva cujo objetivo é orientar e prevenir riscos à saúde coletiva. No caso da C4 Gym, o manobrista Severino José da Silva, 43, era responsável pela manutenção da piscina, ou seja, não havia o preparo técnico para essa função. De acordo com o seu depoimento à Polícia Civil, ele recebia as instruções por mensagens enviadas por um dos sócios da academia.

Veja abaixo quais são os produtos comumente usados na limpeza de piscinas, quais são os seus riscos e como manuseá-los adequadamente, e o que fazer em caso de intoxicação.

QUAIS SÃO OS PRODUTOS USADOS NA LIMPEZA DE PISCINAS E COMO SABER SE ELES SÃO SEGUROS?

Existem diversos produtos químicos usados para o tratamento de piscinas. Segundo o químico, alguns são bem seguros, como os clarificantes e aglomerantes, enquanto os produtos mais perigosos são relacionados à desinfecção ou correção do pH.

“Os relacionados à desinfecção normalmente são derivados que contêm cloros e que vão gerar hipocloritos quando adicionados na água”, afirma.

No caso do hipoclorito (cloro de piscina), se ele for colocado em uma água com um teor muito ácido (baixo pH), ele pode produzir cloro gasoso, que é um gás extremamente tóxico. De acordo com Bazito, profissionais treinados devem corrigir o pH da água antes de adicionar hipoclorito para reduzir os riscos de reação.

Em seguida, devem verificar a dosagem necessária pelo volume da piscina, pegar um pouco da água da piscina, misturar a quantidade do produto indicada, e espalhar na água. Já o cloro granulado orgânico (nome do dicloroisocianuratos, como o HidroAll Hipercloro 60, usado na academia no Parque São Lucas), ele vai ser adicionado na água e liberar o hipoclorito, que é o agente desinfectante.

“Se você usar quantidades exageradas de dicloroisocianurato vai produzir uma quantidade excessiva de hipoclorito que pode gerar também um excesso de cloro na sua forma gasosa”, diz o professor.

A Polícia Civil ainda espera o laudo pericial dos produtos utilizados na academia, mas, segundo o depoimento do funcionário, ele usou seis medidas de dicloroisocianurato misturados na água da piscina depois de já ter utilizado duas medidas no dia anterior.

O professor lembra que, para além das piscinas, produtos de limpeza de uso doméstico contendo cloro, como o hipoclorito de sódio (água sanitária), não devem ser misturados com outros que também apresentam cloro pelo mesmo risco de gerar cloro gasoso, e nem com desinfetantes com amoníacos ou amônio pois, nessas situações, podem produzir cloraminas, que são tão tóxicas quanto o cloro.

QUAIS SÃO OS SINTOMAS DE INTOXICAÇÃO POR CLORO E O QUE FAZER SE SENTIR QUE FOI INTOXICADO?

A intoxicação por cloro normalmente se dá por via inalatória, diz o químico.

“Se você sentir cheiro forte de cloro é porque já houve a intoxicação. O cloro interage com as mucosas do organismo formando ácido clorídrico e ácido hipocloroso, causando ardência na garganta e no nariz, tosse e irritação das vias aéreas. Dependendo da concentração inalada, as consequências podem ser muito graves, como edema pulmonar [acúmulo de líquido nos pulmões devido ao processo inflamatório] ou broncoespasmo [trancamento das vias aéreas].”

Não há antídoto para intoxicação por cloro, sendo os tratamentos feitos para os sintomas específicos. Caso alguém suspeite que tenha sofrido intoxicação por cloro, é preciso buscar atendimento médico imediato, uma vez que os sintomas podem se agravar conforme o tempo de exposição.

QUALQUER PESSOA PODE FAZER A LIMPEZA DE PISCINAS EM ACADEMIAS, CASAS E CONDOMÍNIOS?

Segundo o químico, se os produtos forem utilizados da maneira correta, seguindo as instruções indicadas, não há riscos que podem levar à exposição de substâncias nocivas.

“O problema é quando o uso é feito ou em quantidades inadequadas [dosagem muito maior do que o indicado] ou em condições inadequadas [caso de água com teor ácido]. Aí eles podem ser muito perigosos”, afirma.

Os produtos também devem ser regularizados e certificados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) antes de serem utilizados para limpeza. Por essa razão, há uma resolução do CFQ (Conselho Federal de Química), de 2025, orientando que qualquer piscina de uso coletivo, em locais públicos ou privados, deve ter um profissional químico para atuação e treinamento dos responsáveis pela limpeza e uso de produtos desinfectantes.

Ainda é cedo para saber o que houve na C4 Gym, mas o funcionário responsável pela manutenção da piscina disse, em seu depoimento à Polícia Civil, que não possuía treinamento e recebia as orientações de um dos sócios da academia.

O QUE FAZER EM CASO DE MANEJO INADEQUADO DO PRODUTO?

De acordo com Bazito, se detectado o excesso de cloro na piscina, pode ser utilizado o tiossulfato para neutralizar o cloro.

“O tiossulfato é uma substância segura que vai reagir com o cloro, transformando-o em cloreto, que é inerte, e o tiossulfato em sulfato, que também é inerte, neutralizando assim o cloro em excesso”, explica.

Porém, o professor lembra que para saber como agir frente a um excesso de cloro é preciso que a pessoa responsável pela limpeza tenha um treinamento básico de tratamento de piscinas, e que existem testes para detectar o excesso de cloro na água.

ESPAÇOS FECHADOS, COMO ACADEMIAS COM PISCINAS AQUECIDAS, PODEM CONTRIBUIR PARA A PROPAGAÇÃO DE GASES TÓXICOS?

Sim, piscinas fechadas podem piorar os casos de intoxicação por cloro gasoso, uma vez que em locais abertos a própria radiação ultravioleta ajuda na degradação do cloro, diz o especialista.

“A piscina coberta não tem radiação, então acumula. Além disso, o aquecimento da água da piscina também faz com que o cloro dissolvido seja liberado em estado gasoso, acumulando ainda mais esse gás no ambiente.”

Fonte: Folha de São Paulo


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