Infraestrutura energética e demanda industrial podem favorecer novos negócios no Pará, mas conexão com futura produção depende de viabilidade econômica e logística
A infraestrutura de gás natural de Barcarena, no Pará, pode ganhar relevância na estratégia de aproveitamento dos recursos da Margem Equatorial brasileira. A possibilidade de utilizar a estrutura industrial do município para receber e processar o combustível está entre as alternativas defendidas pela Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), que vê na nova fronteira exploratória uma oportunidade para atrair investimentos e ampliar a industrialização regional.
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A perspectiva depende, contudo, de uma sequência de condições ainda não atendidas: confirmação de volumes economicamente recuperáveis de petróleo e gás, definição de alternativas de escoamento, avaliação dos custos de transporte e processamento e identificação de mercados consumidores competitivos.
Em artigo publicado nesta quarta-feira (28), o presidente da Fiepa, Alex Dias Carvalho, argumenta que o planejamento da cadeia produtiva deve começar antes da eventual entrada em produção dos campos. A estratégia, segundo ele, precisa contemplar não apenas o apoio logístico às operações offshore, mas também a formação de fornecedores, a qualificação profissional e a instalação de atividades industriais capazes de agregar valor à produção no próprio Pará.
Barcarena concentra ativos que podem ser considerados nessa discussão. O município abriga infraestrutura de recebimento de gás natural liquefeito (GNL) importado, distribuição de gás e geração termelétrica, além de um parque industrial com demanda energética relevante. Essa base, porém, não equivale à existência de um projeto definido para conectar a produção da Margem Equatorial ao polo paraense.
Distribuição de gás cresce em Barcarena
A estrutura de distribuição local vem ampliando suas operações. Dados da Companhia de Gás do Pará (Gás do Pará) indicam que o volume médio diário distribuído passou de 941 mil metros cúbicos em 2024 para 2,036 milhões de metros cúbicos em 2026, até o período considerado pela companhia. O avanço corresponde a 116%.
A rede atende indústrias e usinas termelétricas. Em agosto de 2024, a companhia também anunciou um contrato de fornecimento de mais de 4 milhões de metros cúbicos anuais para a Alubar, indústria de cabos elétricos e produtos de alumínio instalada em Barcarena. A Hydro Alunorte já figurava entre os consumidores industriais atendidos.
Os dados mostram a consolidação de um mercado regional para o combustível, embora não comprovem, por si só, a viabilidade de abastecer os consumidores locais com gás produzido na Margem Equatorial. A operação atual utiliza GNL importado, e uma eventual substituição ou complementação dessa fonte exigiria estudos de infraestrutura, contratos e custos.
O potencial de Barcarena está associado à possibilidade de aproveitar ativos existentes e uma base consumidora para desenvolver novos negócios. Um polo gasoquímico, por exemplo, poderia ampliar o uso industrial do combustível, inclusive como matéria-prima para fertilizantes.
Margem Equatorial amplia horizonte exploratório
O interesse económico pela região ocorre em meio à expansão das áreas exploratórias brasileiras. Em 2 de outubro, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou a delimitação de 11 novos setores exploratórios na Margem Equatorial, abrangendo 501 blocos em uma área de aproximadamente 380 mil quilómetros quadrados.
A medida amplia o horizonte de áreas que poderão ser avaliadas para futuras atividades, mas não representa contratação automática dos blocos nem comprovação de reservas comerciais.
Na bacia da Foz do Amazonas, a Petrobras anunciou em outubro uma segunda descoberta de petróleo no poço Morpho, na costa do Amapá. O resultado reforça o interesse exploratório, mas ainda não permite concluir que haverá oferta de gás em escala suficiente para sustentar novos empreendimentos industriais no Pará.
Para Barcarena, a questão econômica central será determinar se a produção potencial poderá chegar ao município a custos competitivos. Isso envolve comparar alternativas de transporte, processamento e comercialização, além de avaliar a escala de demanda necessária para justificar novos investimentos.
Cadeia de fornecedores é aposta da indústria
A preparação empresarial é outro eixo da estratégia defendida pela Fiepa. Em setembro, a entidade firmou parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) para mapear, capacitar e desenvolver fornecedores para os mercados de petróleo, gás, energia e setor naval no Pará. O projeto tem duração prevista de 12 meses.
A iniciativa busca ampliar a participação de empresas locais em uma cadeia que exige serviços especializados, manutenção, logística, equipamentos e mão de obra qualificada. A capacidade de atender a essas demandas pode determinar quanto dos investimentos associados à nova fronteira exploratória será convertido em atividade econômica no estado.
A Fiepa também articula a criação do Fórum Paraense de Petróleo, Gás e Energia, com a participação prevista de empresas, governos, instituições de ensino e pesquisa e entidades representativas. A programação da entidade deve culminar no Amazon Energy 2027.
A oportunidade de desenvolvimento industrial, entretanto, permanece condicionada à evolução da exploração e às decisões de investimento. Para Barcarena, a infraestrutura existente e o crescimento da distribuição de gás constituem pontos de partida para a discussão, mas a integração com a Margem Equatorial dependerá de estudos que comprovem a viabilidade técnica, logística, ambiental e comercial da operação.
Fonte: Portal Bacarena



