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Ciclo virtuoso do uso eficiente da água e da energia

No último mês de junho, a Organização das Nações Unidas divulgou um relatório com alerta de que o aquecimento global está aumentando e pode fazer com que diversos lugares do planeta sofram com escassez de água e a seca.

seca

Para dar uma ideia mais concreta da criticidade da situação, Mami Mizutori, representante especial da ONU para redução de risco de desastres, alertou em entrevista que “a seca está prestes a se tornar a próxima pandemia e não existe vacina para curá-la”. O relatório da ONU traz números impactantes. Um deles é o de que secas causaram perdas econômicas de pelo menos US$ 124 bilhões e atingiram mais de 1,5 bilhão de pessoas entre 1998 e 2017. Além disso, cerca de 130 países podem enfrentar um risco maior de seca neste século, outras 23 nações correm riscos de ter escassez de água por causa do crescimento populacional e 38 países poderão ser afetados pelos dois problemas.

Outras entidades trazem dados sobre este quadro. De acordo com o World Economic Outlook, pesquisa realizada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a “crise da água” é classificada como o quinto maior risco que o mundo enfrentará nos próximos 10 anos. Além disso, estima-se que, em 2025, um terço da população mundial viverá em áreas de escassez e com problemas hídricos e que em cerca de metade de todos os estados-membros da União Europeia, mais de 20% da água potável é perdida devido a vazamentos.

A preocupação com escassez de água no mundo não é uma questão nova, mas, como não poderia deixar de ser, segue recebendo muita atenção, ainda mais quando são divulgados dados como estes. Até mesmo em regiões onde a disponibilidade de água é maior o assunto é muito sensível e relevante. Isso porque a falta de recursos hídricos poderia não apenas representar um gargalo para a rotina da população em termos de consumo, mas também comprometer o funcionamento das atividades econômicas se a matriz energética estiver baseada em usinas hidrelétricas. Este seria um cenário possível no Brasil, já que, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), 64,9% da energia elétrica gerada no País é hidráulica.


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Hidrelétricas

Outro levantamento que a EPE mantém sobre consumo nacional de energia elétrica aponta que dentre os segmentos residencial, industrial, comercial e outros (rural, serviço público e iluminação pública), entre 1995 e 2018, a indústria sempre foi a que mais consumiu energia no Brasil. Neste contexto, a utilização de tecnologias já existentes como equipamentos que controlam motores elétricos se torna ainda mais estratégica e mesmo necessária. Um exemplo disso é a estimativa de redução em 8% do consumo de energia até 2040 com a adoção em larga escala de motores controlados por drives no setor industrial.

Sendo a matriz energética brasileira baseada em geração hidrelétrica, fica claro como utilizar água e energia com mais eficiência não só indica um ciclo que se retroalimenta, mas também que é essencial para que a nossa economia possa produzir com a máxima competitividade possível. Isso porque, como se sabe, é mais dispendioso quando há necessidade de se aumentar o consumo de energia proveniente de termelétricas, repassando um custo operacional mais alto para o que é produzido e, portanto, para a população que consome.

Outra situação que mostra um forte vínculo entre água e energia se dá justamente no setor de saneamento. A dependência mútua entre estes dois recursos e a crescente demanda global por eles têm um impacto enorme no crescimento econômico, na sustentabilidade global e no nosso futuro. Felizmente, já estão disponibilizadas a digitalização e tecnologias desenvolvidas para criar um setor de água neutro em energia, atuando em todos os estágios do ciclo da água, da produção e distribuição até o tratamento e bombeamento de efluentes. Um sistema de distribuição hídrica mais eficiente permite reduzir vazamentos de água automaticamente, o consumo energético e o desperdício.

Dispor destas soluções é um trunfo muito importante ao se analisar números do setor. Ele é responsável por 4% do consumo energético global e acredita-se que esse número dobrará até 2040. Além disso, instalações de água e saneamento são as maiores consumidoras de energia de um município, representando de 30 a 50% da conta de eletricidade total das autoridades locais.

Por fim, ao contornar o problema de escassez de água reduzindo o seu desperdício, um setor de saneamento neutro em energia também pode contribuir para reduzir as emissões de CO2 e, consequentemente, para evitar o agravamento das mudanças climáticas que, por sua vez, interferem nos ciclos de chuva e hídricos no mundo inteiro. Assim, vemos como, novamente, o uso eficiente de água e energia pode formar um ciclo virtuoso que se retroalimenta continuamente.

Fonte: Estadão.