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Super El Niño exige preparação da saúde pública

Super El Niño exige preparação da saúde pública

Cientistas da Universidade de Bristol defendem que o fenômeno, previsível com meses de antecedência, seja tratado como oportunidade de prevenção, e não como mais uma emergência.

Quem já enfrentou uma onda de calor sufocante, uma chuva que alagou a rua inteira ou uma seca que encareceu a comida na feira sabe que o clima não é um assunto distante. Ele entra em casa, pesa no bolso e, cada vez mais, afeta a saúde.

Com a aproximação de um “super El Niño” no fim do ano, apontado como um dos mais intensos já registrados, os cientistas fazem uma pergunta direta: estamos preparados para o que ele pode causar ao nosso corpo e aos nossos hospitais?

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Uma pergunta que a ciência ainda não respondeu

Um estudo publicado na revista The Lancet, liderado por pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, parte de uma lacuna incômoda. Sabemos que o El Niño aumenta os riscos para a saúde, mas ninguém conseguiu medir direito quanto desse peso vem do fenômeno e quanto vem do aquecimento global de longo prazo.

A autora principal, Ruby Lieber, pesquisadora de Ciência do Clima, explica que o número de pessoas atingidas por desastres climáticos varia bastante conforme o ciclo do El Niño. Ainda assim, há pouca evidência sobre que fatia da carga de doenças cabe a cada causa. O trabalho também é assinado por Dann Mitchell e por Sir Andy Haines.

Por que separar as causas muda tudo?

À primeira vista, isso pode parecer um debate de laboratório, mas não é. Segundo os autores, a chamada ciência de atribuição ajuda a decidir de onde sai o dinheiro e para onde ele vai.

Sem essa distinção, agências de ajuda e governos ficam num impasse. O recurso deve vir dos fundos de resposta a desastres, de uso imediato, ou das verbas de adaptação climática, pensadas para o futuro? Quando o impacto do El Niño é delimitado, fica mais fácil acionar o mecanismo certo, na hora certa, para a crise que já bate à porta.

Cinco passos para não ser pego de surpresa

Para fechar essa lacuna e proteger os sistemas de saúde, os pesquisadores propõem cinco recomendações:

  • Ação imediata da ONU. A Organização das Nações Unidas e outros órgãos internacionais devem se mobilizar assim que o El Niño for oficialmente declarado, para proteger a saúde e prevenir doenças.
  • Apoio aos governos nacionais. Os países precisam de ajuda para avaliar o impacto sobre suas populações e montar sistemas de alerta precoce baseados no clima.
  • Mais estudos de atribuição. Ampliar as pesquisas que ligam clima e saúde para orientar políticas públicas mais precisas.
  • Revisão contínua dos efeitos. Acompanhar os impactos à medida que evoluem e corrigir falhas de informação em tempo real.
  • Análise de custo-efetividade. Avaliar quanto vale cada medida, de alertas precoces à ampliação de leitos, da proteção contra enchentes urbanas à resiliência dos sistemas de alimentos.

Quem está na linha de frente

O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico deve provocar eventos extremos em várias partes do mundo. Entre as regiões mais expostas estão a América do Sul, a Índia, o Leste Asiático, partes da África e o Pacífico Ocidental.

Nesses lugares, o estudo prevê consequências sérias e rápidas para a saúde: mais transmissão de doenças infecciosas, mais desnutrição quando as safras fracassam e mais problemas causados pelo calor extremo, como desidratação severa e insolação. Para quem vive na América do Sul, o alerta tem endereço conhecido.

Por isso, os autores cobram que a Organização Mundial da Saúde, o Banco Mundial, organizações não governamentais e financiadores de pesquisa aproveitem esses avanços científicos. Só assim será possível distribuir os recursos de forma justa e desenhar medidas de adaptação sob medida para os países mais vulneráveis.

O El Niño é previsível e isto é trunfo que raramente lembramos

O El Niño tem uma diferença importante em relação a outras tragédias naturais. Um terremoto ou um tsunami chega sem aviso, mas o El Niño pode ser previsto com meses de antecedência.

Esse intervalo é uma janela rara para a saúde pública deixar o modo “apagar incêndio” e adotar a prevenção. Dann Mitchell, titular da Cátedra Shanta em Saúde Planetária em Bristol, resume o recado: não dá para ignorar uma ameaça que pode ser devastadora, mas que é previsível, para comunidades do mundo todo.

E agora?

Enfrentar o próximo super El Niño exigirá que climatologistas, epidemiologistas, governos e financiadores trabalhem juntos como poucas vezes se viu.

A ciência de atribuição entrega o mapa, mas o caminho cabe às lideranças escolher.

Resta saber se vamos repetir o velho roteiro de agir só depois do estrago ou se, desta vez, usaremos a previsão como escudo para quem mais precisa. A resposta começa a ser escrita agora, antes da primeira onda de calor ou da primeira enchente.

Fonte: EcoDebate


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