A reutilização de águas residuais assume um papel cada vez mais relevante na resposta à escassez hídrica e na construção de um setor da água mais resiliente e circular.
Da modernização das infraestruturas à valorização de recursos e à eficiência energética, são vários os desafios e as oportunidades que se colocam ao ciclo urbano da água. Em declarações à Ambiente Magazine, a EPAL reflete sobre as condições necessárias para transformar o potencial da Água para Reutilização (ApR) numa realidade à escala.
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Que papel deve assumir a reutilização de águas residuais na gestão futura do recurso água?
A reutilização de águas residuais terá, sem dúvida, um papel relevante na gestão futura dos recursos hídricos. Aliás, essa já não é hoje a principal questão. O setor da água há muito reconheceu o potencial da Água para Reutilização (ApR) como instrumento de adaptação à escassez hídrica e às alterações climáticas. O verdadeiro desafio reside agora em definir a dimensão desse papel e o grau de ambição que, enquanto sociedade, estamos dispostos a assumir na sua concretização.
A ApR deve ser encarada como uma origem complementar de água, capaz de reduzir a pressão sobre recursos convencionais e de responder a necessidades específicas, como a rega de espaços verdes, determinados usos industriais ou agrícolas e outras utilizações compatíveis com a sua qualidade. Porém, para que este potencial se materialize de forma significativa, é necessário um compromisso efetivo de todas as entidades envolvidas, desde entidades gestoras e reguladores até utilizadores finais e decisores políticos.
Apesar dos avanços registados nos últimos anos, em que se destaca definição da reutilização como atividade principal, no caso dos sistemas multimunicipais, a realidade é que ainda falta publicação de legislação que defina os termos da atividade principal, o que tem impedido a implementação da reutilização em larga escala e, sobretudo, tem impedido a oferta de tarifas equitativas e competitivas.
O sucesso da reutilização e da promoção da resiliência e sustentabilidade não depende, por isso, da disponibilidade da tecnologia nem da vontade das Entidades Gestoras, nem sequer da vontade dos agentes económicos, estando apenas dependente da implementação, por via legislativa, de condições essenciais para que a reutilização possa ser oferecida às populações e tecido económico em regime de equidade, estabilidade tarifária, previsibilidade e competitividade, tal como sucedeu, em tempos, com as demais atividades do ciclo urbano da água, designadamente o abastecimento e o saneamento, o que esteve, precisamente, na origem do reconhecido sucesso que Portugal obteve no setor da água.
Que infraestruturas são necessárias para integrar a água para reutilização no ciclo urbano da água?
A maioria das ETAR existentes já tem etapas complementares de tratamento que permitem adequar a qualidade da água residual tratada aos requisitos específicos do uso pretendido. Trata-se de um processo de valorização que transforma uma água preparada para devolução ao meio recetor numa água apta para reutilização, de acordo com os níveis de qualidade exigidos para cada aplicação.
Contudo, o desafio não termina na produção da água. É igualmente necessário garantir a sua distribuição até aos locais de consumo através de sistemas de armazenamento, transporte e entrega adequados. Em muitos casos, a viabilidade dos projetos depende precisamente desta componente, uma vez que as distâncias a percorrer e as soluções de transporte necessárias podem representar uma parcela muito significativa do custo total da água para reutilização.
Por fim, será indispensável desenvolver infraestruturas e modelos de gestão que permitam equilibrar a oferta e a procura, assegurando que a água produzida está disponível quando é necessária e nas quantidades adequadas. A integração da ApR no ciclo urbano da água exige, portanto, uma visão sistémica que vá muito além das próprias ETAR.
Quais são os principais desafios técnicos e operacionais à reutilização de águas residuais em maior escala?
Os principais desafios à expansão da reutilização de águas residuais não são necessariamente tecnológicos. As soluções de tratamento encontram-se amplamente disponíveis e a sua eficácia está comprovada. O grande desafio reside frequentemente na articulação entre os locais onde a água para reutilização é produzida e os locais onde ela é mais necessária.
Quando falamos de grandes ETAR, associadas aos principais centros urbanos, estamos normalmente perante elevadas disponibilidades de água para reutilização. No entanto, os grandes consumidores potenciais, designadamente a agricultura ou determinadas atividades industriais, nem sempre se localizam na proximidade destas infraestruturas. Nestas situações, a rega de espaços verdes urbanos surge frequentemente como um dos usos mais imediatos e viáveis.
Se o objetivo for responder a consumos de grande dimensão fora dos grandes centros urbanos, o desafio passa muitas vezes por encontrar ETAR com capacidade suficiente ou por equacionar soluções que integrem a produção proveniente de várias instalações. Em qualquer dos casos, a necessidade de construir sistemas dedicados de transporte e distribuição tende a aumentar significativamente os custos, podendo comprometer a competitividade da ApR e, em última análise, a sua adoção pelos utilizadores.
Como pode a gestão de ativos e a modernização das infraestruturas acelerar esta transição?
A qualidade da água para reutilização começa na qualidade do tratamento realizado nas ETAR. Quanto melhor for o desempenho destas infraestruturas, mais favoráveis serão as características da água residual tratada que servirá de matéria-prima aos processos de produção de ApR.
Neste contexto, a gestão de ativos desempenha um papel fundamental. Infraestruturas bem mantidas, adequadamente dimensionadas e tecnologicamente atualizadas apresentam maior fiabilidade operacional, melhor desempenho ambiental e maior capacidade para responder aos requisitos crescentes associados à reutilização.
A modernização das ETAR deve, por isso, ser encarada não apenas como um investimento na conformidade legal ou na eficiência operacional, mas também como uma forma de preparar estas instalações para uma nova lógica de valorização de recursos, em que a água residual tratada passa a ser vista como um ativo com valor económico e ambiental.
Que outras oportunidades de circularidade identifica, nomeadamente na valorização de lamas e na eficiência energética?
Quando deixamos de olhar para o saneamento como um sistema linear e passamos a encará-lo como parte de uma lógica de economia circular, as oportunidades multiplicam-se. Aquilo que tradicionalmente era visto como um resíduo ou um encargo passa a ser entendido como um recurso com potencial de valorização.
As lamas produzidas nas ETAR constituem um exemplo evidente, podendo ser valorizadas através da aplicação agrícola, da produção de corretivos orgânicos ou do desenvolvimento de outras soluções de reaproveitamento. De igual forma, existe um enorme potencial associado à recuperação de nutrientes, como o fósforo e o azoto, que poderão vir a desempenhar um papel crescente na produção de fertilizantes.
Também a vertente energética assume particular relevância. A produção e aproveitamento de energia nas próprias instalações, a valorização de excedentes energéticos e a otimização dos consumos contribuem para reduzir custos e aumentar a sustentabilidade do setor. A reutilização de água, a recuperação de nutrientes, a valorização de resíduos e a eficiência energética devem ser vistas como componentes de uma mesma estratégia integrada de circularidade.
Que investimentos considera prioritários para tornar o ciclo urbano da água mais resiliente e circular?
Os investimentos mais diretamente associados à reutilização passam pela modernização das ETAR, pela implementação de tratamentos complementares sempre que necessário e pela criação das infraestruturas de armazenamento, transporte e distribuição que permitam fazer chegar a água para reutilização aos seus potenciais utilizadores.
Contudo, há uma dimensão frequentemente menos visível, mas que considero absolutamente crítica: a capacitação das pessoas. O sucesso da transição para um modelo mais resiliente e circular dependerá da existência de profissionais capazes de planear, decidir, implementar e operar soluções cada vez mais complexas e exigentes. Não basta dispor de estratégia, enquadramento legal ou financiamento; é necessário assegurar capacidade de execução no terreno.
Mais do que tecnologia, o setor precisa de competências, de colaboração entre entidades e da determinação necessária para ultrapassar os inúmeros obstáculos que surgem ao longo destes processos. A reutilização da água já demonstrou ser tecnicamente possível. O desafio que se coloca agora é reunir as condições para transformar esse potencial numa realidade à escala necessária, com a ambição e a coragem de fazer acontecer.
Fonte: Ambiente Magazine

