Quase toda a água do planeta é salgada. A fração que está em rios, lagos e aquíferos com qualidade para beber é pequena, e nem sempre fica perto de quem precisa dela.
Desse descompasso nasce a dessalinização: o conjunto de tecnologias que retira o sal da água do mar ou de poços salobros e a transforma em água potável ou em água de processo para a indústria.
A dessalinização no Brasil já é realidade no semiárido nordestino, com cerca de mil sistemas em operação, e está prestes a ganhar escala em Fortaleza, onde uma usina de água do mar vai atender em torno de 720 mil pessoas. Neste guia, explicamos como o processo funciona, quais são as tecnologias disponíveis, quanto custa, quais são os impactos ambientais e em que ponto o país está.
O que é dessalinização?
Dessalinizar é separar a água dos sais dissolvidos nela. Ao final, sobram dois fluxos: a água de baixa salinidade, chamada de permeado ou produto, e uma água muito mais salgada, o concentrado ou salmoura, que precisa de um destino adequado.
A classificação brasileira ajuda a dimensionar o problema. A Resolução CONAMA nº 357/2005 considera água doce aquela com salinidade igual ou inferior a 0,5‰, água salobra a que fica entre 0,5‰ e 30‰ e água salina a que passa de 30‰. Em sólidos dissolvidos totais (STD), a água do mar gira em torno de 35.000 mg/L, a água salobra de poço costuma ficar entre 1.000 e 10.000 mg/L e o padrão de potabilidade da Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece 500 mg/L como valor máximo para STD.
Na prática, para virar água de beber, a água do mar precisa perder mais de 98% do sal que carrega. É por isso que a tecnologia exige pressão, energia e um bom controle de processo.
Como funciona a dessalinização por osmose reversa
Para entender a osmose reversa, vale começar pela osmose comum. Se uma membrana semipermeável separa água doce de água salgada, a água doce atravessa sozinha para o lado salgado, tentando equilibrar as concentrações. Na osmose reversa, o caminho é invertido: aplica-se, do lado salgado, uma pressão maior que a pressão osmótica, e a água é forçada a atravessar a membrana enquanto os sais ficam para trás.
Uma estação de dessalinização costuma seguir seis etapas:
- Captação. A água vem do mar, por tomadas submersas ou poços de praia, ou de poços de água salobra.
- Pré-tratamento. Retira sólidos, matéria orgânica e microrganismos que entupiriam as membranas, com coagulação, filtração, ultrafiltração, ajuste químico e antincrustantes. É a etapa que mais pesa na vida útil das membranas.
- Bombeamento de alta pressão. Na água do mar, a pressão típica fica entre 55 e 70 bar. Na água salobra, costuma ficar entre 10 e 25 bar.
- Separação nas membranas. Só parte da água atravessa a membrana. Essa fração, chamada de recuperação, fica em geral entre 40% e 50% na água do mar e pode passar de 75% na água salobra. O restante sai como concentrado.
- Pós-tratamento. A água dessalinizada é pouco mineralizada e tende a ser agressiva para tubulações. Por isso, ajustam-se pH, alcalinidade e dureza (remineralização) e faz-se a desinfecção.
- Destino do concentrado. Lançamento controlado no mar, reúso em atividades produtivas ou disposição em tanques, conforme o caso.
Principais tecnologias de dessalinização
Existem várias rotas para separar sal e água. A escolha depende da salinidade da fonte, da escala, da energia disponível e do uso final.
| Tecnologia | Como funciona | Onde faz mais sentido | Principal limitação |
| Osmose reversa (OR) | Membranas semipermeáveis e pressão | Água do mar e água salobra; abastecimento público e indústria | Consome energia; exige pré-tratamento e gera concentrado |
| Eletrodiálise e EDR | Campo elétrico move os íons por membranas seletivas | Água salobra de salinidade baixa a média; aplicações industriais | Perde competitividade em alta salinidade; não remove microrganismos nem compostos não iônicos |
| Destilação térmica (MSF e MED) | Evapora a água e condensa o vapor | Água do mar, onde há calor residual ou energia barata, como no Oriente Médio | Alto consumo de energia térmica e plantas grandes |
| Deionização capacitiva (CDI) | Eletrodos retêm os íons dissolvidos | Água de baixa salinidade, em nichos específicos | Menos madura em grande escala |
No Brasil, a osmose reversa é a tecnologia dos sistemas do Programa Água Doce e também da usina de Fortaleza.
Água salobra ou água do mar: duas realidades no Brasil
O país dessaliniza dois tipos de água, e os desafios de cada um são bem diferentes. No interior do semiárido, o foco é a água salobra de poços. No litoral, o horizonte é o mar.
| Critério | Água salobra (poços) | Água do mar |
| Salinidade típica | 1.000 a 10.000 mg/L de STD | Cerca de 35.000 mg/L de STD |
| Pressão de operação | Mais baixa (10 a 25 bar) | Alta (55 a 70 bar) |
| Consumo de energia | Menor, em geral abaixo de 2 kWh/m³ | Maior, cerca de 3 a 4 kWh/m³ em plantas modernas |
| Escala no Brasil | Pequena e descentralizada, em comunidades rurais | Grande e centralizada, no litoral |
| Desafio principal | Destino do concentrado longe do mar e manutenção | Energia, captação, descarte de salmoura e custo |
| Exemplo | Programa Água Doce | Dessal Ceará, em Fortaleza |
Dessalinização no Brasil: onde estamos
Programa Água Doce: dessalinização no semiárido
Lançado em 2004 e hoje coordenado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, o Programa Água Doce parte de uma constatação simples: boa parte do semiárido está sobre rochas cristalinas, onde os poços rendem pouco e a água costuma vir salobra. Em vez de deixar o poço sem uso, instala-se um dessalinizador de osmose reversa na comunidade. Segundo o ministério, o programa atende cerca de 250 mil pessoas em dez estados, com aproximadamente mil sistemas em operação.
O modelo vai além do equipamento. O programa trabalha com gestão compartilhada com a comunidade, capacitação de operadores locais e acompanhamento da qualidade da água. Em Minas Gerais, por exemplo, cada morador de comunidades atendidas tem acesso a cerca de 20 litros por dia de água dessalinizada, volume pensado para beber e cozinhar. O concentrado, por sua vez, pode ser aproveitado em sistemas produtivos, como a criação de tilápia e o cultivo de erva-sal (Atriplex), em vez de ser simplesmente descartado.
Fortaleza: a primeira grande usina de água do mar
A Dessal Ceará, na Praia do Futuro, será a maior usina de dessalinização de água do mar do país voltada ao abastecimento público. O projeto é uma parceria público-privada entre a Cagece e o consórcio Águas de Fortaleza, com contrato de 30 anos, e usa osmose reversa de água do mar.
No Brasil, a osmose reversa é a tecnologia dos sistemas do Programa Água Doce e também da usina de Fortaleza.
Água salobra ou água do mar: duas realidades no Brasil
O país dessaliniza dois tipos de água, e os desafios de cada um são bem diferentes. No interior do semiárido, o foco é a água salobra de poços. No litoral, o horizonte é o mar.
| Critério | Água salobra (poços) | Água do mar |
| Salinidade típica | 1.000 a 10.000 mg/L de STD | Cerca de 35.000 mg/L de STD |
| Pressão de operação | Mais baixa (10 a 25 bar) | Alta (55 a 70 bar) |
| Consumo de energia | Menor, em geral abaixo de 2 kWh/m³ | Maior, cerca de 3 a 4 kWh/m³ em plantas modernas |
| Escala no Brasil | Pequena e descentralizada, em comunidades rurais | Grande e centralizada, no litoral |
| Desafio principal | Destino do concentrado longe do mar e manutenção | Energia, captação, descarte de salmoura e custo |
| Exemplo | Programa Água Doce | Dessal Ceará, em Fortaleza |
Dessalinização no Brasil: onde estamos
Programa Água Doce: dessalinização no semiárido
Lançado em 2004 e hoje coordenado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, o Programa Água Doce parte de uma constatação simples: boa parte do semiárido está sobre rochas cristalinas, onde os poços rendem pouco e a água costuma vir salobra. Em vez de deixar o poço sem uso, instala-se um dessalinizador de osmose reversa na comunidade. Segundo o ministério, o programa atende cerca de 250 mil pessoas em dez estados, com aproximadamente mil sistemas em operação.
O modelo vai além do equipamento. O programa trabalha com gestão compartilhada com a comunidade, capacitação de operadores locais e acompanhamento da qualidade da água. Em Minas Gerais, por exemplo, cada morador de comunidades atendidas tem acesso a cerca de 20 litros por dia de água dessalinizada, volume pensado para beber e cozinhar. O concentrado, por sua vez, pode ser aproveitado em sistemas produtivos, como a criação de tilápia e o cultivo de erva-sal (Atriplex), em vez de ser simplesmente descartado.
Fortaleza: a primeira grande usina de água do mar
A Dessal Ceará, na Praia do Futuro, será a maior usina de dessalinização de água do mar do país voltada ao abastecimento público. O projeto é uma parceria público-privada entre a Cagece e o consórcio Águas de Fortaleza, com contrato de 30 anos, e usa osmose reversa de água do mar.
No Brasil, a osmose reversa é a tecnologia dos sistemas do Programa Água Doce e também da usina de Fortaleza.
Água salobra ou água do mar: duas realidades no Brasil
O país dessaliniza dois tipos de água, e os desafios de cada um são bem diferentes. No interior do semiárido, o foco é a água salobra de poços. No litoral, o horizonte é o mar.
| Critério | Água salobra (poços) | Água do mar |
| Salinidade típica | 1.000 a 10.000 mg/L de STD | Cerca de 35.000 mg/L de STD |
| Pressão de operação | Mais baixa (10 a 25 bar) | Alta (55 a 70 bar) |
| Consumo de energia | Menor, em geral abaixo de 2 kWh/m³ | Maior, cerca de 3 a 4 kWh/m³ em plantas modernas |
| Escala no Brasil | Pequena e descentralizada, em comunidades rurais | Grande e centralizada, no litoral |
| Desafio principal | Destino do concentrado longe do mar e manutenção | Energia, captação, descarte de salmoura e custo |
| Exemplo | Programa Água Doce | Dessal Ceará, em Fortaleza |
Dessalinização no Brasil: onde estamos
Programa Água Doce: dessalinização no semiárido
Lançado em 2004 e hoje coordenado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, o Programa Água Doce parte de uma constatação simples: boa parte do semiárido está sobre rochas cristalinas, onde os poços rendem pouco e a água costuma vir salobra. Em vez de deixar o poço sem uso, instala-se um dessalinizador de osmose reversa na comunidade. Segundo o ministério, o programa atende cerca de 250 mil pessoas em dez estados, com aproximadamente mil sistemas em operação.
O modelo vai além do equipamento. O programa trabalha com gestão compartilhada com a comunidade, capacitação de operadores locais e acompanhamento da qualidade da água. Em Minas Gerais, por exemplo, cada morador de comunidades atendidas tem acesso a cerca de 20 litros por dia de água dessalinizada, volume pensado para beber e cozinhar. O concentrado, por sua vez, pode ser aproveitado em sistemas produtivos, como a criação de tilápia e o cultivo de erva-sal (Atriplex), em vez de ser simplesmente descartado.
Fortaleza: a primeira grande usina de água do mar
A Dessal Ceará, na Praia do Futuro, será a maior usina de dessalinização de água do mar do país voltada ao abastecimento público. O projeto é uma parceria público-privada entre a Cagece e o consórcio Águas de Fortaleza, com contrato de 30 anos, e usa osmose reversa de água do mar.
O Brasil tem água de sobra na média e escassez no detalhe. A dessalinização não resolve sozinha esse descompasso, mas já mudou a vida de milhares de famílias no semiárido e está prestes a entrar na escala do abastecimento urbano em Fortaleza.
Para os profissionais do setor, o recado é que a tecnologia está madura. O que decide o sucesso de um projeto é o conjunto: pré-tratamento bem dimensionado, energia sob controle, solução para o concentrado e operação preparada para durar. Quem acompanha o saneamento e o tratamento de água no Brasil vai ouvir falar cada vez mais desse assunto.
Fonte: elaborado por Portal Tratamento de Água com auxílio de IA.

