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‘Falta d’água é maior risco à economia em dez anos’

Falta d’água – Entrevista do administrador  Marcio da Silva José, 46 anos, diretor-presidente do Aquapolo Ambiental, maior empresa de reúso de água do Brasil ao Diário do Grande ABC.

Ou o Brasil implanta políticas de reaproveitamento de água ou vai enfrentar uma crise de desabastecimento, que vai trazer problemas à sociedade e à economia, em uma década

falta d'agua

Crédito da Imagem: Jaqueline Morinelli

O Aquapolo faturou R$ 130 milhões em 2021 e pretende chegar aos R$ 143 milhões neste ano. A companhia tem capacidade de reciclar 1.000 litros por segundo, dos quais metade é comprada por 14 clientes localizados no Grande ABC. A expansão dos negócios, ele defende, depende da criação de um plano nacional para o setor.

O sr. está à frente do Aquapolo, o maior produtor de água de reúso do Brasil e um dos maiores do mundo. Qual a importância desta iniciativa?

Esse empreendimento é de grande importância, fundamental para a garantia da disponibilidade hídrica em diversas regiões do mundo. Em 2016, o Fórum Econômico Mundial classificou a crise hídrica como o risco global de maior preocupação para as pessoas e as economias, para os próximos dez anos. O Aquapolo Ambiental propicia que diversas indústrias da região, eliminem em cerca de 97% a necessidade da utilização de água potável em seus processos industriais. Os benefícios em termos de custos, operacionais e de redução de riscos para os nossos clientes, foram comprovados durante a crise hídrica sofrida em São Paulo, nos anos de 2014 e 2015, quando nossos clientes operaram normalmente e sem impacto da crise.

Ainda há algum preconceito sobre a qualidade da água de reúso?

Desde a crise de 2014-15 em São Paulo, o preconceito com a água de reúso reduziu muito. Porém, por desconhecimento acompanhado de marketing, a água de reúso que teve seu preconceito reduzido é a captação de água de chuva, a reutilização da água utilizada na máquina de lavar, e processos semelhantes. Ao citarmos a água de reúso proveniente do efluente tratado, por desconhecimento do processo de tratamento e da qualidade final, e da segurança do produto, o preconceito é muito alto. A qualidade de água reciclada pelo Aquapolo nos parâmetros físico-químicos é semelhante à da água potável, cabendo apenas controle dos aspectos microbiológicos, que atualmente não nos são exigidos uma vez que nossa água só é utilizada em processos industriais. E vou além, trazendo para a realidade da região metropolitana de São Paulo, sabemos que infelizmente nossos mananciais sofrem com a poluição de esgoto in natura e lixo sendo despejados pelas ocupações irregulares dos seus entornos, entre outros fatores. Ou seja, estamos captando água poluída para potabilizarmos. Por que nos sentimos seguros com esse cenário? No ciclo do saneamento, lançamos o efluente tratado de volta nos rios que naturalmente correm para as próximas cidades, que captam água nesses rios, tratam e a distribuem às suas populações e assim por diante. O que quero dizer com isso? Desde que fazemos saneamento, fazemos reúso ou reciclagem de água! Só precisamos trabalhar muito na educação da população.

Existe a possibilidade de a água de reuso ser utilizada, em algum momento do futuro, para consumo humano?

Esse movimento já é realidade em diversos lugares do mundo que possuem restrição hídrica. Os maiores e melhores exemplos são em Cingapura e na capital da Namíbia, Windhoek. Nessas localidades, o efluente é coletado, tratado e retorna diretamente nas torneiras da população, comprovando que não somente é possível, como viável e principalmente seguro. Existem outros casos, em que o caminho do efluente percorre um passo adicional após o processo de tratamento, que é injeção de volta à natureza, seja através do lançamento nos mananciais e reservatórios superficiais ou subterrâneos, antes de ser novamente coletado, potabilizado e distribuído à população. Atualmente, temos tecnologias muito avançadas que garantem a qualidade e segurança da água reciclada para o consumo humano. Utilizando o caso Aquapolo, adicionando apenas dois processos simples, chamados de oxidação avançada e desinfecção por ultravioleta, seriam suficientes para garantirmos a produção de água reciclada em nível potável.

Estudo da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, mostra que, em oito anos, mantidos os níveis atuais de consumo, o planeta só conseguirá produzir seis em cada dez litros d’água. Qual a dimensão deste alerta?

Todo e qualquer alerta, desde que sério e advindo de instituições de grande credibilidade, como a Unesco, são sempre bem-vindos e de grande pertinência, pois de alguma forma atingem algumas pessoas. Precisamos educar e engajar cada vez mais pessoas rumo à sustentabilidade do planeta e da humanidade. Na minha opinião, a sociedade está em processo de amadurecimento, ou seja, a cada dia temos mais pessoas engajadas no tema. Precisamos de mais líderes e de maior organização e articulação entre governo, autoridades, iniciativa privada e sociedade civil, para que tenhamos mais ações coordenadas e principalmente na velocidade que o planeta demanda.

 


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O sr. considera que a sociedade, em geral, tem consciência de que o planeta, caso não se tome nenhuma atitude, caminha para uma crise de abastecimento sem precedentes?

Acredito que temos locais ou regiões em que a sociedade tenha maior nível de consciência sobre o tema. No Brasil, de forma geral, ainda temos a impressão da abundância do recurso água, e que ele é infinito. Há apenas seis anos, tivemos a maior crise hídrica da história de São Paulo. Ao fim de 2021, tínhamos grandes dúvidas sobre as chuvas do verão e se não enfrentaríamos uma nova crise em 2022. Logo em seguida, tivemos grandes tragédias em Salvador e Petrópolis, entre outros. A sociedade percebe os impactos das mudanças climáticas, porém precisamos nos organizar e cobrar mais ações das autoridades.

A indústria é um grande consumidor de água, assim como o Grande ABC concentra muitas indústrias. O sr. vê que o empresariado da região está consciente de que a água é recurso finito e, por isso, precisa ser cuidada?

Aqui no (Grande) ABC, assim como em todo o mundo, temos diversos perfis da empresários. Atualmente, com a grande escalada das questões ESG, sem dúvida o tema água ganhou muito destaque e tem atingido a agenda de muitas empresas. Infelizmente, na minha opinião, os empresários da região, ainda não perceberam o quão sensível é esse tema para suas respectivas empresas. Começo pelo item mais sensível ao empresário, que é o risco de ter sua produção ou operação parada por falta de água. Com as mudanças climáticas, esse risco é cada vez maior e mais frequente! O segundo ponto, hoje cada vez mais importante, é a conscientização do empresário e executivos, da responsabilidade que as empresas têm quanto à garantir redução da competição pelos recursos hídricos com a sociedade e comunidades em que está inserida. Infelizmente, ainda estamos distantes dessa percepção pelo empresariado local, mas trabalhamos muito duro pra mudar esse cenário.

O que a indústria precisa fazer, hoje, para atender o aumento das demandas da sociedade de consumo sem comprometer a sustentabilidade do planeta?

A indústria sabe o que fazer para atender às demandas de consumo, de forma sustentável e responsável. Tudo se inicia por entender seu papel na sociedade e assumir o protagonismo em relação às questões de sustentabilidade. Temos que aprender a separar o greenwashinge seus belos discursos em grandes relatórios que demonstram apenas os pontos positivos do posicionamento de real compromisso da empresa com o meio ambiente e a sociedade.

Como a expectativa do mercado nacional de produção de água de reúso? Quais são os gargalos que precisam ser vencidos para a atividade se expandir?

Na minha opinião, no Brasil, infelizmente, ainda não temos um mercado de água de reúso. Acredito que a principal causa disso seja a falta de legislação. A indústria já conhece o reúso e, por ter tantas diferentes aplicações, ao criar legislação específica, na verdade, estamos dificultando o desenvolvimento do reúso. Porém para os demais usos, a falta de uma legislação, e que seja, adequada e indutora torna o processo muito inseguro, pois autoridades ambientais e sanitárias tendem a serem extremamente conservadoras quando não se tem legislação específica. Sem a segurança jurídica, consequentemente, empresas não investem e não há financiamento disponível para novos empreendimentos de reciclagem de água. No mundo todo, temos exemplos de água reciclada sendo utilizada de forma segura na agricultura e no consumo humano. Precisamos evoluir e acompanhar o que vem sendo aplicado em outros países, de forma a desenvolver esse mercado no Brasil. Nos últimos 11 anos, a reciclagem de água cresceu pouco mais de 300% em capacidade instalada e cerca de 200% na capacidade contratada. Isso claramente demonstra a viabilidade e segurança do processo e qualidade da água reciclada.

No webinar sobre os impactos das mudanças climáticas no ciclo da água, realizado recentemente por Diário e Braskem, o sr. contou que enfrenta entraves burocráticos, citando que não consegue licenciar o fornecimento de água de reúso a uma universidade, que quer usá-la nas privadas…

Trata-se exatamente do problema mencionado acima. A utilização da água de reúso em vasos sanitários é amplamente difundida, com casos práticos espalhados em diversos shoppings e edifícios comerciais, entre outros locais. Porém, devido à falta de legislação para tal uso, fomos impedidos de obter nossa licença devido a uma interpretação da autoridade sanitária competente. Estamos trabalhando para demonstrar a segurança do nosso produto para tal uso e obter a licença. Porém, enquanto isso, a universidade opera de forma menos sustentável, e o investimento que fez na rede específica para água reciclada fica parado.

Como funcionam as legislações sobre água de reúso em países mais avançados, social e economicamente, que o Brasil? O sr. tem algum bom exemplo que possa ser utilizado como modelo por aqui?

Pessoalmente, não conheço legislação específica de reúso de outros países no detalhe. Então não posso elogiar nem criticar nenhuma delas. Os Estados Unidos possuem um Plano de Ação Nacional para o Reúso de Água. Não conheço o plano em detalhes, porém considerando os altos níveis de exigência da EPA, agência ambiental norte americana, seria um bom ponto de partida.

Fonte: Diário do Grande ABC


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