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Sustentabilidade: ainda estamos longe dela no tratamento de água e efluentes

Eng. Eduardo Pacheco.

Sustentabilidade é o assunto do momento e todos se esforçam para mostrar que realizam suas atividades de acordo com esse princípio. Mas o que é exatamente agir com sustentabilidade? O que significa essa palavra e o que ela carrega de importante?

Dentre as diversas interpretações que se podem encontrar, atrevo-me a criar mais uma, que se adapta bem ao dia-a-dia da engenharia sanitária e ambiental: “Sustentabilidade é a capacidade de realizar uma atividade qualquer utilizando recursos e insumos que sejam renováveis, recicláveis e que não prejudique a vida e o meio ambiente”.

Ou seja, para falar o português claro, ser sustentável é não dar um tiro no próprio pé! É evitar que uma atividade qualquer produza efeitos colaterais que nos prejudiquem ao longo do tempo.

Vamos então ao nosso mundo do tratamento de água e efluentes. Será que agimos com sustentabilidade? Sejamos francos e reconheçamos que NÃO! Ainda adotamos procedimentos dos primórdios da engenharia e que agridem profundamente a vida e o meio ambiente. Como o tema é extenso, vou dedicar-me neste artigo ao tratamento biológico de esgotos sanitários e, na próxima edição, falarei dos aspectos que envolvem o tratamento de água.

O que significa “tratar esgoto”? Significa transformar compostos orgânicos como carboidratos, proteínas, gorduras e outras moléculas complexas que compõem o esgoto doméstico em compostos minerais simples (sem carbono), CO2 e água. E, quando utilizamos a técnica do tratamento biológico, fazemos com que as bactérias e outros organismos microscópicos realizem a tarefa de se alimentar de toda essa matéria orgânica, transformando-a nos compostos simples que queremos.

Ocorre que essa tecnologia pressupõe que se criem condições para a proliferação adequada e controlada desses organismos microscópicos e, para tanto, precisamos fornecer-lhes oxigênio (vamos nos concentrar nos tratamentos aeróbicos, que são a grande maioria para os esgotos domésticos). Ou seja, vejam aí a primeira grande e notória falta de sustentabilidade: introduzimos grandes quantidades de oxigênio para produzirmos, lá no final, grandes quantidades de CO2! Justamente ele, o grande vilão da modernidade, um dos principais responsáveis pelo efeito estufa e pelo conseqüente aumento da temperatura na Terra.

Mas ainda tem mais. Para introduzir oxigênio no esgoto a ser tratado, temos duas alternativas: ou utilizamos oxigênio no seu estado puro (O2) ou introduzimos ar atmosférico, que contém cerca de 30% de O2. A primeira opção é mais eficiente do ponto de vista técnico-operacional mas não tem sido muito utilizada por questões econômicas, já que o mercado de produção e distribuição de gases industriais não conta com muitas empresas, e se caracteriza pela falta de competitividade. A segunda opção, portanto, é a escolhida na quase totalidade dos casos e, para tanto, desenvolvem-se aeradores e distribuidores de ar cada vez mais sofisticados que na sua essência são grandes consumidores de energia elétrica.

Calma, ainda não acabou! Lembrem-se que falei que, além de produzirmos CO2, também produzimos compostos minerais mais simples. Tais compostos são os responsáveis por uma das partes mais trabalhosas do sistema, que é o “lodo”. Esse material sai do processo ainda em estado líquido e precisa ser espessado (ou adensado) e desidratado, de forma a poder ser conduzido e disposto como resíduo sólido. São produzidas enormes quantidades diárias de lodo que não são recicladas e acabam disputando espaço com o também problemático lixo urbano nos aterros sanitários.

Pois então: consumimos energia elétrica para tirar O2 da atmosfera e gerar CO2. Que horror! Que falta de vergonha de nós engenheiros sanitaristas, que não conseguimos desenvolver uma nova técnica de tratar esgotos! Limitamo-nos a evitar que cheguem aos rios gastando (muita) energia elétrica para transformar poluição hídrica em CO2 e resíduos sólidos.

Mas então vamos desenvolver os processos anaeróbicos, já quem consomem menos energia elétrica. Sim, é verdade, mas produzem gás metano, que é inúmeras vezes pior que o CO2 para os efeitos do aquecimento global. Além disso, a maioria das experiências com sistemas anaeróbicos para esgotos sanitários mostra que se trata de um processo de operação muito difícil. O sistema se desequilibra com facilidade e o reator anaeróbico acaba virando uma grande caixa de passagem.

Mas como ser mais sustentável nessa área, de forma economicamente viável? Em primeiro lugar, é preciso que tenhamos coragem de questionar as vantagens do processo biológico de tratamento na atualidade. Se ele foi bom quando não tínhamos o problema do aquecimento global, agora não é mais. Assim como os ambientalistas tinham horror das usinas nucleares nas décadas de 60 e 70 e hoje já preferem isso a ver uma termelétrica queimando gás ou carvão, nós sanitaristas temos que começar a estudar com mais seriedade e menos preconceito os processos físico-químicos. Ou seja, estudar a dosagem adequada de produtos químicos que possam reduzir a carga orgânica sem consumir tanta energia e, principalmente, sem produzir CO2.

Quando comparamos o desenvolvimento químico de nossa área com o desenvolvimento químico da área farmacêutica, por exemplo, fico envergonhado. Enquanto a bioquímica e a biologia molecular caminham juntas e descobrem coisas novas a cada dia na área médica, ainda estamos utilizando os mesmos produtos e técnicas do início do século passado.

E não adianta me falarem de membranas filtrantes. Elas são, sem dúvida, um grande avanço na substituição dos velhos decantadores e também para produzir um efluente de melhor qualidade, mas consomem tanta energia elétrica e produzem tanto CO2 quanto os processos convencionais, já que os “MBR” (membrane bio reactors) também são sistemas biológicos.

Conclusão: há muito a fazer nessa área e o primeiro passo é reconhecer que tratar esgotos da forma que fazemos hoje, é tirar a sujeira da sala e jogá-la embaixo do tapete.

 

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