Invisíveis, persistentes e praticamente impossíveis de ignorar
Imagine uma substância química tão resistente que consegue permanecer no ambiente por décadas — em alguns casos, por centenas de anos — sem se degradar completamente.
Um composto que resiste ao calor, à água, ao óleo, à gordura e aos processos convencionais de tratamento. Agora imagine que essa substância esteja presente em utensílios domésticos, roupas impermeáveis, espumas de combate a incêndios, embalagens de alimentos, cosméticos, processos industriais e, potencialmente, na água que consumimos.
Esse é o universo dos PFAS, conhecidos mundialmente como “químicos eternos” (forever chemicals).
O termo pode parecer alarmista à primeira vista, mas reflete uma característica científica real: a extrema persistência ambiental desse grupo de substâncias. Nos últimos anos, os PFAS deixaram de ser uma preocupação restrita ao ambiente industrial e passaram a ocupar o centro de discussões globais sobre saúde pública, segurança hídrica, regulamentação ambiental e tecnologias de tratamento de água.
Mas o que são exatamente os PFAS? Por que estão preocupando cientistas, operadores de saneamento, reguladores e indústria? E quais caminhos existem para lidar com esse desafio?
O que são PFAS?
PFAS é a sigla para substâncias per- e polifluoroalquiladas (Per- and Polyfluoroalkyl Substances), um grupo que reúne milhares de compostos sintéticos — estimativas da OCDE e da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) apontam para mais de 10 mil substâncias diferentes, desenvolvidas a partir da década de 1940.
A característica central desses compostos é a ligação química entre carbono e flúor (C–F), uma das ligações simples mais fortes e estáveis da química orgânica. Essa estrutura confere aos PFAS elevada estabilidade térmica e química, além de alta resistência a processos naturais de degradação física, biológica e fotolítica.
Em termos simples: os PFAS foram projetados para durar — e duram muito mais do que seria desejável do ponto de vista ambiental.
Entre os compostos historicamente mais estudados estão:
- PFOA (ácido perfluorooctanoico) — PFAS de cadeia longa, hoje listado no Anexo A da Convenção de Estocolmo (eliminação), com uso amplamente restringido desde 2019;
- PFOS (sulfonato de perfluorooctano) — também listado na Convenção de Estocolmo desde 2009, com restrições de produção e uso na maioria dos países signatários;
- GenX (HFPO-DA) — tecnologia desenvolvida para substituir o PFOA na produção de fluoropolímeros (como politetrafluoroetileno). É um PFAS de cadeia mais curta, criado sob a premissa de menor bioacumulação, mas que também passou a ser objeto de monitoramento e restrição em diversos países.
É importante destacar que a substituição de compostos restritos por “novas gerações” de PFAS não elimina o problema da persistência — apenas altera o perfil molecular do composto, o que mantém em aberto questões sobre toxicidade e comportamento ambiental de longo prazo.
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Onde os PFAS estão presentes?
Uma das razões pelas quais os PFAS ganharam tanta atenção é sua enorme diversidade de aplicações industriais e comerciais, decorrente justamente das propriedades que os tornaram valiosos: resistência química e capacidade de repelir água, óleo e gordura (propriedades oleofóbicas e hidrofóbicas).
Eles podem estar presentes em:
- Revestimentos antiaderentes de utensílios de cozinha;
- Embalagens de alimentos resistentes à gordura e à umidade;
- Tecidos impermeáveis e produtos têxteis tratados;
- Carpetes, estofados e revestimentos;
- Produtos de limpeza e ceras;
- Cosméticos e produtos de cuidado pessoal;
- Componentes eletrônicos e semicondutores;
- Processos industriais diversos (galvanoplastia, produção de fluoropolímeros, entre outros);
- Espumas de combate a incêndio à base de formação de filme aquoso (AFFF), usadas em aeroportos, refinarias e instalações militares.
Como os PFAS chegam ao meio ambiente?
A contaminação por PFAS pode ocorrer em diferentes etapas do ciclo de produção, uso e descarte. As principais rotas incluem:
Efluentes industriais — indústrias que fabricam ou utilizam compostos fluorados podem lançar efluentes contendo PFAS, exigindo monitoramento específico e tecnologias de tratamento adequadas, já que estações convencionais não foram projetadas para esses compostos.
Uso de espumas AFFF — espumas formadoras de filme aquoso, historicamente usadas em incêndios envolvendo combustíveis líquidos, são reconhecidas internacionalmente como uma das principais fontes pontuais de contaminação de solos e aquíferos próximos a aeroportos, bases militares e centros de treinamento de combate a incêndio.
Aterros sanitários — produtos descartados contendo PFAS podem liberar esses compostos para o chorume, criando rotas potenciais de dispersão para o solo e águas subterrâneas.
Lodo de estações de tratamento de esgoto (biossólidos) — em cenários internacionais, a aplicação agrícola de biossólidos contendo PFAS tem sido identificada como fonte secundária relevante de disseminação ambiental, motivando restrições em alguns países.
Diferentemente de muitos contaminantes convencionais, alguns PFAS — especialmente os de cadeia curta — apresentam alta solubilidade e mobilidade em determinados contextos hidrogeológicos, podendo se deslocar por longas distâncias em águas subterrâneas.
Por que os PFAS são chamados de “químicos eternos”?
A explicação está na estabilidade da ligação carbono-flúor, que dificulta sua quebra por processos naturais de degradação química, biológica e fotolítica.
Na prática, isso significa que muitos PFAS:
- não se degradam de forma significativa em escalas de tempo relevantes;
- permanecem por longos períodos em água, solo e sedimentos;
- podem bioacumular e biomagnificar em organismos vivos ao longo da cadeia trófica;
- tendem a circular continuamente entre diferentes compartimentos ambientais.
Em vez de desaparecer, os PFAS frequentemente migram entre compartimentos — do solo para a água, da água para organismos vivos, e assim por diante.
O impacto na água potável: um desafio crescente
Talvez nenhuma discussão sobre PFAS seja tão crítica quanto sua presença em recursos hídricos.
Estudos internacionais já identificaram PFAS em:
- águas subterrâneas;
- mananciais superficiais;
- sistemas públicos de abastecimento;
- águas tratadas;
- águas residuárias e seus subprodutos (lodo).
Esse cenário vem pressionando companhias de saneamento e operadores de sistemas de tratamento a revisar estratégias de monitoramento e remoção.
O grande problema é que as etapas convencionais de tratamento — coagulação, floculação, sedimentação, filtração em areia e desinfecção — apresentam, em geral, baixa eficiência de remoção para a maioria dos PFAS, especialmente os de cadeia curta.
Ou seja: remover turbidez, cor e patógenos não significa remover contaminantes emergentes como os PFAS. Esse é um ponto que deve transformar significativamente o setor de água nos próximos anos, exigindo etapas de tratamento adicionais (terciárias/avançadas) especificamente voltadas a esses compostos.
PFAS e saúde: o que a ciência investiga?
Embora ainda existam incertezas científicas sobre compostos específicos, agências de saúde e pesquisas independentes têm investigado associações entre exposição prolongada a determinados PFAS — sobretudo PFOA e PFOS — e efeitos adversos à saúde, incluindo:
- alterações em parâmetros hormonais, especialmente da tireoide;
- impactos no sistema imunológico, incluindo possível redução da resposta a vacinas;
- alterações em marcadores hepáticos;
- alterações no perfil lipídico e metabólico (colesterol);
- possíveis associações com determinados tipos de câncer, como o câncer renal e o de testículo, segundo avaliações de agências como a IARC para o PFOA.
É essencial destacar um ponto técnico importante: o grupo PFAS é extremamente heterogêneo, e generalizações simplistas — do tipo “todo PFAS causa X” — não são tecnicamente sustentáveis. Há compostos com perfil toxicológico relativamente bem caracterizado (como PFOA e PFOS), outros ainda pouco estudados, e muitos casos permanecem em investigação ativa. Por isso, o debate científico permanece dinâmico e está sujeito a revisões à medida que novos dados surgem.
Como remover PFAS da água?
Essa é talvez a pergunta mais relevante para profissionais do saneamento e do tratamento de água, e o desafio técnico é significativo: a maioria das tecnologias atualmente disponíveis em escala remove os PFAS da água, mas não os destrói — apenas os concentra em outra matriz (carvão saturado, resina exaurida ou concentrado de membrana), que precisa de destinação adequada.
Carvão ativado granular (GAC) Apresenta boa eficiência para PFAS de cadeia longa (como PFOA e PFOS), mas eficiência reduzida para compostos de cadeia curta. Exige monitoramento da saturação e substituição periódica do meio filtrante, além de destinação adequada do carvão exaurido.
Resinas de troca iônica (especialmente resinas aniônicas) Em muitos cenários apresentam eficiência igual ou superior ao GAC, inclusive para alguns compostos de cadeia curta, embora com custos operacionais geralmente mais elevados e necessidade de gestão da resina saturada.
Membranas de nanofiltração e osmose reversa Demonstram alta capacidade de remoção (frequentemente acima de 90%) para uma ampla faixa de PFAS, mas geram um concentrado contendo os contaminantes, que representa um desafio adicional de gestão e disposição.
Tecnologias destrutivas emergentes Processos de oxidação avançada (incluindo plasma não térmico), eletroquímica, fotólise no UV-vácuo e destruição térmica em altas temperaturas vêm sendo estudados e, em alguns casos, pilotados, com o objetivo de romper a ligação carbono-flúor e mineralizar os compostos, evitando a transferência do problema para outra matriz.
A questão central, portanto, não é apenas remover PFAS da água — é o que fazer com os PFAS removidos.
O avanço da regulamentação global
A regulamentação sobre PFAS vem se intensificando em diversos países.
Nos Estados Unidos, a EPA publicou em 2024 a primeira norma nacional vinculante de água potável especificamente para PFAS, estabelecendo limites máximos na faixa de partes por trilhão (ppt) para compostos como PFOA e PFOS, além de limites para outros PFAS e misturas — com prazos de adequação que se estendem por anos para os sistemas de abastecimento.
Na União Europeia, a Diretiva da Água Potável (Diretiva (UE) 2020/2184) estabeleceu, para entrada em vigor em 2026, limites para PFAS totais e para a soma de PFAS considerados prioritários na água destinada ao consumo humano.
De forma geral, o movimento regulatório global aponta para três tendências:
- Ampliação do monitoramento obrigatório de PFAS em água para consumo;
- Redução progressiva dos limites permissíveis, à medida que novos dados toxicológicos surgem;
- Pressão pela substituição industrial dos compostos mais persistentes e pela restrição de classes inteiras de PFAS (abordagem “grupo químico”), e não apenas de substâncias isoladas.
No Brasil, ainda não existe regulamentação federal específica para PFAS na água potável (a Portaria GM/MS nº 888/2021, que trata do controle de qualidade da água, não contempla PFAS entre os parâmetros obrigatórios). O tema, no entanto, já é discutido em foros técnicos e regulatórios nacionais, e a tendência é que ganhe espaço normativo nos próximos anos, acompanhando o movimento internacional.
O futuro do saneamento diante dos contaminantes emergentes
Os PFAS representam mais do que um novo contaminante: simbolizam uma mudança de paradigma no setor de água e saneamento.
Historicamente, os sistemas de tratamento foram projetados para remover sólidos, matéria orgânica e microrganismos patogênicos. Agora, emerge uma nova geração de desafios — invisíveis, persistentes e quimicamente complexos — que exige:
- novas tecnologias de tratamento, voltadas especificamente para contaminantes emergentes;
- monitoramento analítico mais sofisticado (métodos com limites de detecção em ppt);
- atualização do arcabouço regulatório nacional;
- capacitação técnica de operadores e reguladores;
- maior integração entre indústria, academia, órgãos reguladores e operadores de saneamento.
A pergunta já não é mais se os PFAS se tornarão pauta prioritária no setor de água — e sim quão preparados estamos para lidar com eles.
Conclusão
Os chamados “químicos eternos” deixaram de ser um tema restrito à química ambiental e passaram a ocupar espaço central nas discussões sobre saúde, saneamento, indústria e sustentabilidade.
Seu comportamento persistente, seu potencial de mobilidade ambiental e a dificuldade técnica e econômica de sua remoção e destruição fazem dos PFAS um dos grandes desafios ambientais desta geração.
Para profissionais técnicos da área de água e efluentes, compreender esse cenário deixou de ser um diferencial — está se tornando uma necessidade operacional e estratégica.
Nos próximos anos, é provável que se observe uma corrida global por métodos analíticos mais sensíveis, tecnologias economicamente viáveis de remoção e destruição, e regulamentações cada vez mais rigorosas.
E talvez a maior pergunta ainda esteja em aberto: como lidar com substâncias criadas para durar quase para sempre, em um planeta que precisa de soluções sustentáveis?
Fonte: elaborado por Portal Tratamento de Água com auxílio de IA.

