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Fertilizantes “bio-based”. Novo conceito geopolítico (1)

Fertilizantes “bio-based”. Novo conceito geopolítico

O engenheiro Cícero Bley Jr. analisa em artigo ao CNN Infra como fertilizantes de base biológica conectam agro, saneamento, energia e infraestrutura sustentável

O Plano dos Fertilizantes da União Europeia recomenda a recuperação de nutrientes, biofertilizantes, como medida central da necessária redução da dependência mundial dos fertilizantes minerais.

O fósforo voltou ao centro das discussões estratégicas globais. Essencial para a vida, desde a produção de alimentos e sem substituto biológico conhecido, o fosforo é hoje um dos pilares da agricultura moderna. Ao mesmo tempo, suas reservas naturais, concentradas em poucos países, estão se esgotando, o que amplia as preocupações ligadas a preços, acesso, abastecimento e dependência geopolítica.

Esse cenário levou a Comissão Europeia a publicar, neste início de maio, o documento “Fertiliser Action Plan”, que propõe medidas para garantir disponibilidade, acessibilidade econômica e autonomia estratégica para o uso de fertilizantes pelos países da União Europeia.

O documento europeu reconhece que o mercado mundial de fertilizantes atravessa forte instabilidade, agravada por crises geopolíticas recentes, aumento dos preços da energia, dificuldades de acesso a componentes químicos para produção e elevada dependência internacional de matérias-primas básicas minerais como fosfato, potássio e gás natural.

Entre as alternativas apontadas pela União Europeia, um tema aparece de forma destacada e recorrente ao longo do documento: os fertilizantes bio-based.

A mudança pode parecer apenas técnica. Mas seus impactos potenciais envolvem agricultura, saneamento, energia, gestão de resíduos e principalmente custos da infraestrutura agro-ambiental.

O que são fertilizantes bio-based

O termo “bio-based” ainda é pouco conhecido fora dos setores técnicos. Em geral, refere-se a materiais cuja origem ou transformação passou por sucessivos processos biológicos.

Tradicionalmente, o fósforo utilizado nos fertilizantes é extraído diretamente de jazidas minerais. Depois disso, o nutriente entra em sucessivos ciclos metabólicos biológicos como no milho e soja e segue para a produção animal, suínos, aves, bovinos, e enfim chaga à alimentação humana. Nesta sucessão, acaba sempre parcialmente dissolvido nas águas residuais, ou digestatos, ou esgotos, sejam urbanos, industriais e agropecuários.

Até recentemente, esse material era tratado principalmente como resíduo ambiental. É necessário tratá-lo, porém ainda sem foco econômico. Além do aspecto ambiental, especialistas apontam possíveis vantagens agronômicas dos fertilizantes bio-based, como maior eficiência de absorção pelas plantas, solubilidade mais lenta com liberação gradual de nutrientes e com redução de perdas no solo e na água.

Agora, novas tecnologias aparecem para recuperar esse fósforo dissolvido, promovendo a sua recristalização em forma de compostos minerais, que podem ser reutilizados como fertilizantes.

Na prática, além da Europa, o mundo começa a discutir não apenas custos e disponibilidade de fósforo originados de rochas fosfáticas, mas também, entra em pauta o fosforo presente nas águas servidas.

Importante destacar que ao contrário de ser atribuído um valor baixo ao fosforo recuperado, pelo fato de ser um material reciclado. Especialistas do setor começam a considerar que fertilizantes bio-based poderão conquistar maior valorização de mercado em razão de suas características agronômicas e ambientais.

Nova fronteira para saneamento e infraestrutura

O plano europeu cita explicitamente tendência à valorização de digestatos, recuperação de fósforo e nitrogênio, aproveitamento de resíduos sólidos orgânicos, produção de biogás/biometano e fertilizantes, como a estratégia de autonomia da Europa (e do mundo) conectando energia e fertilizantes. Identificando a biodigestão anaeróbica de efluentes como processo central desta tendência.

O documento também afirma que os fertilizantes bio-based podem se tornar um dos principais mercados estratégicos substitutos dos fertilizantes minerais tradicionais.

A mudança abre espaço para uma nova lógica na infraestrutura sustentável. Estações de tratamento de efluentes, biodigestores e sistemas de saneamento passam gradualmente a ser vistos também como plataformas de recuperação de nutrientes e ativos econômicos.

A discussão sobre fertilizantes bio-based indica uma mudança gradual na forma como o mundo enxerga nutrientes estratégicos como o fósforo.

Num cenário de pressão sobre fertilizantes, segurança alimentar e sustentabilidade, a próxima fronteira estratégica do fósforo pode não estar apenas nas reservas minerais subterrâneas, mas também na capacidade de recuperá-lo das águas residuais, nos sistemas de saneamento e nas cadeias agroindustriais.

* Cícero Bley Jr. é engenheiro agrônomo e mestre em engenharia civil, com foco em gestão territorial

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